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Chico da Gráfica

Perdi um grande amigo, um professor, um mestre na arte do ofício que aprendeu. Ontem perdi uma referência na minha Miracema, meu amigo Francisco Salles de Souza, ou Chiquinho da Gráfica, como sempre foi conhecido na cidade e mesmo entre seus amigos. 

O nome que carregou com ele tem um significado, foi mestre de muitos tipógrafos, aprendizes como eu e dezenas de garotos, muitos se tornaram profissionais e seguiram seus passos, eu, incentivado por ele e meu Tio Ari, seu companheiro de profissão, me incentivaram a seguir a outra parte da gráfica, as letrinhas de uma máquina de escrever, que teclei durante anos até surgir o computador ou estes celulares e notebooks que hoje dígito. 

Tenho três históricas com o Chico da Gráfica, assim eu o chamava, que conto aqui para reverenciar este artista gráfico que tanto admirei e este artista declamador e poeta que poucos conheciam, só aqueles que com ele conviveram, como neste dia inesquecível para Miracema, que narro abaixo no tópico destes três que citei acima. 

Chego a Miracema em um dia qualquer de uma semana qualquer de um mês qualquer e este dia jamais será esquecido pelos meus conterrâneos, foi o primeiro dia de um apagão, provocado pela pane em um dos geradores que leva energia elétrica para a cidade. Nós, sentados no armazém do João Righ, tomando a nossa cerveja da noite, e o apagão chegou sem avisar. 

Poucas cervejas no freezer e na geladeira e, duas horas depois, veio o aviso: - Não teremos luz tão cedo, pane séria e a Cerj avisou que não voltará em menos de 24 horas. E o Chico estava conosco. - O que fazer? Ir para casa da mana Eliane,que era ali pertinho, ou ficar com a turma lá no João, que por sinal estava bem legal sem luz e com prosa séria e sem bla... bla... bla...

E foi aí que puxei o tema: Chiquinho, mande aí alguma poesia do poeta Pintinho, o seu favorito. Alguém fez um "Ave Maria", mas Chico começou a declamar, esquecia uma parte e voltava, tomava uma, duas, três e soltava o gogó declamando por mais de uma hora sem deixar a "peteca" cair. 

Ficamos ali por horas, talvez até entrando na madrugada, as cervejas já estavam quentes, o vinho, de má qualidade não desceu, a pinga não me cai bem e Chiquinho, já no clima, continuou declamando, e, no escuro, quando percebi, éramos somente eu e ele no recinto, os outros ou estavam na rua ou tinham partido para casa. 

A segunda aconteceu na Gráfica Normalista, quando me propus a redigir um jornal do Colégio Nossa Senhora das Graças, o "Luzes Cenecistas", totalmente composto e impresso por mim lá na gráfica com a supervisão dele e do Tio Ari, porém, tem sempre um porém, na hora de distribuir as letrinhas, de volta as caixas, me senti totalmente perdido e incapaz de cumprir com o compromisso, e ele, Chiquinho, chegou no meu ouvido e disse: - O jornal ficou ótimo, você tem jeito para o negócio, deixe estes tipos aí em cima e pode ir embora, você será jornalista e não gráfico. E fez o serviço para mim.

A terceira foi a pouco tempo atrás, no Bunda de Fora, ele, já doente, bem debilitado, passou e não me viu. Gritei seu nome e o cumprimentei, mas Sebastião falou, não sei se baixinho ou em tom que ele pudesse ouvir. - Ele não está reconhecendo quase ninguém, depois eu falo que você mandou um abraço. 

- Posso não reconhecer poucos, mas esta voz é inesquecível,meu amigo Adilson Dutra, sobrinho do meu querido amigo Ari, vamos declamar as poesias do mestre Pintinho? A turma se espantou, eu chorei de emoção e foi a última vez que o vi e que falei com ele. 

Grande amigo, meu professor Chiquinho e sei, amigos gráficos, que quem passou pela escola do mestre Francisco Sales de Souza, seguiu firme no caminho da profissão com orgulho e com uma bagagem de craque das letrinhas. 

Um abraço, Chico da Gráfica, onde quer que você esteja neste momento. 

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