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O bar, a praça, os homens e suas histórias

Um dia, na nossa Praça Dona Ermelinda, no que chamo de "Triângulo das Bermudas", aliás um dos vértices deste triângulo, me perguntaram: 
 - Adilson, como você sabe tanto da história de Miracema e de sua gente? A resposta é simples, minha infância e juventude foram vividas dentro do reduto político e jurídico da cidade, ou seja, fui criado na Praça Ary Parreiras, 174, onde funcionava o Bar do Vicente Dutra. 

- Ah! Muita gente nova não se lembra do Vicente Dutra e por isto você tem que explicar na sua coluna esta história do bar e de seus frequentadores, diz meu interlocutor, nós aguardamos porque eu sou um destes que não conheceu seu avô mas sei quase tudo que aconteceu por lá e pelos arredores, meu pai frequentou o lugar por muitos anos. 

Certo, além do pai do amigo e de outros não famosos mas nem por isto não importantes para mim e para nossa família, ali pelo nosso bar passaram figuras ilustres da cidade, por exemplo, como já contei por aqui, Altivo Mendes Linhares um dos ícones da cidade cuja história se confunde com a de Miracema, na sinuca do vovô fazendeiros, empresários, comerciantes e uma grande parte da sociedade miracemense fazia ponto diariamente. 

Era um lugar decente, por ali não havia confusão, só me lembro de uma briga generalizada, que começou em uma das meses do bar mas que foi terminar lá fora e nem uma cadeira sequer foi quebrada, até os bebuns respeitavam Vicente Dutra e família, este problema, principalmente em dia de eleições, quando aconteceu a tal briga, geralmente acontece nos melhores estabelecimentos. 

Ninico Moreira, aliás, Antônio Carlos Moreira, um dos mais importantes homens públicos da cidade, era frequentadorcdo lugar e me cansei de ouvir suas prosas com políticos e gente iluste acompanhado de um bom cafezinho, as vezes servidos por mim com objetivo de ouvir a voz tranquila e doce de Seu Ninico, dono de um dos cartórios no Forum, que funcionava na Prefeitura em frene ao nosso bar e aí, você que não conheceu meu avô, fica sabendo o porque o lugar era estratégico, em frente ao ponto nervoso e centro político do município. 

Aos domingos, dia de missa, minha caixa de engraxate era bem frequentada, e os fazendeiros famosos, como Clóvis Tostes, Evaldo Assumpção e seu irmão Cid, eram meus fregueses e e contavam histórias que eu gostava de ouvir e seu Altamiro Soares de vez em quando aparecia e narrava com detalhes suas viagens espetaculares, como a que ele e outros amigos fizeram a Inglaterra durante a Copa do Mundo de 1966. 

Prefeitos, vereadores, juízes de direito e ilustres advogados, como José Danir Siqueira,  quando vinha a cidade, faziam do balcão do bar e seus bancos um lugar de conversa e eu ali, ouvindo atentamente, como se quisesse aprender alguma coisa e por isto hoje, passado mais de cinquenta anos, ainda tenho estes causos, estas histórias, estas prosas, guardada no fundo da memória e muitas delas eu conto por aqui com muito prazer. 

Os prefeitos José de Carvalho, Jamil Cardoso, Altivo Linhares e Salim Bou-Issa eram amigos pessoais do meu avô Vicente e do meu Pai, Zebinho, Jairo Tostes nos chamava de primos, e todos eles tinham livre acesso a nossa varanda onde as vezes promoviam reuniões com seus secretários, José Carvalho e Salim tiveram o mesmo secretário de gabinete, Télio Mercante, o Ferrugem, temido comedor de bombocados, ao lado do irmão Joel, o Vandinho Mercante, que quando chegavam no estabelecimento o vovô até escondia os pratos de doces, mas esta é uma outra história. 

Volto ao tema, com mais um capítulo desta história, afinal ainda falta contar as visitas constantes do Chiquinho de Freitas, do Jofre Salim e das manhãs de sanfona do Bem David e o respeito e o medo que Adão Paraoquena tinha do Vicente Dutra, e nestes anos todos jamais ouvi dizer que o velho teve um inimigo ou alguma desavença com um destes seus fregueses. 

E eu não contei que os padres holandeses, que todos da minha geração ou mais antigos, Alberto, Luiz, Antônio ou André eram amigos de minha avó Maria e frequentadores de nossa cozinha para "filar" um almoço ou um quitute. 

A vizinhança era de alto nível e todos, sem exceção, eram amigos e muitos não frequentavam o bar, mas com toda certeza eram clientes especiais dos salgados, doces e dos refrigerantes e cervejas para o final de semana. 

Nenê Braga não passava um dia sem dar uma escapulida por lá após terminar o serviço na fazenda e um traçado era servido em um copo especial, Deoclides Correia, nosso sapateiro mor, era outro vizinho assíduo como foram Washington Torres, Fisíco, Jorge Pela Égua, e todos funcionários da retífica. 
Volto em outra coluna, combinado? 

Comentários

O baú das memórias, sempre que revirado, revela boas histórias.
Adilson Dutra disse…
As vezes falta. Mas quando funciona... é bom demais. Obrigado.

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