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Salve o Ribeirão Santo Antônio

Sentado às margens do Ribeirão Santo Antônio, observando a descida da água, que é pouca e quase inexiste, me bateu a lembrança dos bons mergulhos e das boas descidas da Usina até o Aéro Clube, no período de cheias do nosso ribeirão. 

Não foram poucas as vezes que eu e minha turma nos aventuramos em descer, a nado ou em boia de câmara de ar, aqueles dois ou três quilômetros do Santo Antônio em busca de um pouco de adrenalina.

Dizem que foram as obras de desvio de curso e as construções ribeirinhas que fizeram o Santo Antônio ficar mais fraco, pode ser, mas o Rio Pomba, o Rio Paraíba e tantos outros por este Brasil afora, estão a sofrer com o mesmo problema e creio que o homem e seu descaso é o principal responsável pela agonia dos rios brasileiros. 

Hoje as águas só crescem no período de chuva forte, mas felizmente não há mais aquele risco de grandes enchentes, como a de 1971 e outros que vieram depois, e dizem que foi por causa deste trabalho de limpeza e de mudança de curso, que o Santo Antônio morre  lentamente a cada ano. Será? É, pode ser. 

Meu pai nos levava até a Usina, naquela represa que dizem que será revitalizada, e quando estava muito concorrido o espaço para nadar, descíamos um pouco mais até a casa do amigo Micuim e por ali ficávamos a nadar e a correr pelas águas do Ribeirão Santo Antônio, que era límpida e corrente, não como hoje, apenas um filete de esgoto a céu aberto. 

Poço da máquina de arroz, que beleza! Os moleques da Rua da Laje ali se reunia. Mais abaixo, na direção de Paraoquena/Campelo, o Sombreiro, que maravilha! Um lugar que ficou na memória e que, diz quem frequenta, continua belo e natural, mas a água é escassa e não corre como antigamente. 

Conto histórias do Ribeirão Santo Antônio, nossas aventuras em suas águas correntes e límpidas, e meus filhos não acreditam, certo dia, aqui na Kiskina, eu e o João Campeão, meu velho amigo do futebol e das aventuras aquáticas no Santo Antônio, contávamos como descíamos nas boias e como era gostoso aproveitar aquelas águas do ribeirão. E, claro, quem nos ouvia, na maioria garotos ainda na juventude, gargalhavam e diziam que era o efeito da cerveja o nosso delírio. 

Quem aí, que está lendo este texto no momento, já mergulhou na Represa da Usina? Quem aí já foi no Moura, no Sombreiro, na Água Espalhada dar uma boa nadada e se refrescar nos dias quentes de verão? Por favor, quem já foi destas aventuras conte  aos seus filhos como era o nosso Ribeirão Santo Antônio, para que se evite as gozações com pessoas que viveram este belo momento nas ruas e nos bares. 

Quem tem história conta, quem não as tem ouça. 

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