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Para minhas mestras, com carinho


Sábado de muito frio e o programa da noite era ver um bom filme. Olhei na agenda das operadoras e nada de bom apareceu e, pensando melhor, resolvi apelar para a minha nova mania, o You Tube, que me dá opções diversas e escolhi "Ao Mestre, com carinho", com o incrível Sidney Poitier, que assisti no final da década de 60, no Cine XV, e imediatamente veio a minha lembrança não o cinema, o ator maravilhoso que é Poittier, mas minhas mestras do Prudente de Moraes, que até hoje trago na memória com muito carinho. 

Então pensei, ao acabar o filme vou me sentar e escrever minhas memórias do Grupo Escolar Prudente de Moraes, falar de minhas professoras, muitas delas ainda estão por aqui e algumas são até minhas amigas no Facebook, e não sei se terei ainda esta privilegiada memória daqui a dois anos, quando estará completando 60 anos que cheguei ao Prudente, levado pelas mãos de Dona Mariquinha, para começar o curso primário. 

E aí a mente começa a trabalhar, as lágrimas começam a brotar, mas as palavras surgem na tela como magia ao lembrar de dona Orlanda Aversa, a primeira e inesquecível professora, aquela que abriu o caminho do beabá para me entregar, e a turma toda, claro, para dona Maria Celma Tostes para que começássemos a juntar as palavras e fazer as primeiras leituras. 

O segundo ano foi um pouco complicado, creio que a gravidez de dona Ivete Machado impediu que ela terminasse o ano e veio dona Marina Padilha, recém formada, que teve uma passagem relâmpago por nossa turma. 

Quem completou, se minha memória não traiu o ano e não a mestra, foi Dona Crisolina Moura, outra recém formada e com um dom de ensinar aflorado que cativou a turma e até hoje tem o meu respeito e o meu carinho por saber lidar comigo e com meus colegas de sala do segundo ano primário. 
No terceiro ano, que me parece ter sido o mais completo, recebemos dona Climene Moreira,

educadora já consagrada e que já conhecia do catecismo da Igreja Matriz de Miracema. Dominadora, mas não teve a chance de me mandar para o gabinete de dona Edir Olivier Tostes, então já diretora do Grupo Escolar Prudente de Moraes e grande incentivadora das artes e das festas tradicionais. 
Antes de chegar ao quarto ano primário, cuja turma foi uma das mais preteridas, eu disse preterida e não preferida, por várias professoras, que gostariam de ter a chamada elite que seria formada para o exame de admissão do ano seguinte (1962).

Assim  gostaria de trocar um dedo de prosa sobre as atividades promovidas na gestão de dona Edir Tostes, e a que me vem na cabeça agora, quando retrato belos momentos, foi o Circo do Prudente, que aproveitou a arena de uma tourada, armada no campo de futebol do colégio, e abriu as portas deste "artista", que pela primeira vez se mostrou em público cantando e interpretando um palhaço, que segundo meus colegas de sala, ficou na história. 

Mas vamos chegar ao último ano, parece que foi ontem, mas foi em 1961, e minha turma foi formada por rejeitados, isto mesmo, rejeitados (não citarei nomes) e uma professora aceitou o desafio de "domar" os rebeldes e levados, como éramos rotulados, Dona Jurecê, que ao chegar em sala, em sua primeira aula, nos disse: "Vamos formar uma turma forte e unida e tenho certeza de que todos estarão no ginásio no ano que vem sem passar pela quinta série". 

Bingo! Dona Jurecê cativou a turma e, como em um pacto, nos entregamos de corpo e alma aos estudos e a grande surpresa veio no final do ano, 90% dos alunos estava aprovado no exame de admissão do Colégio Miracemense e Nossa Senhora das Graças, para onde fui com mérito e aprovado entre os vinte primeiros colocados. 

E, como em um filme moderno, podemos hoje chamar a turma de 13 alunos e uma mestra sem segredo. Obrigado a todas estas mestras maravilhosas, minha saudade eterna e minha eterna gratidão a todas vocês. Beijo  no coração de todas e, tenham certeza, se hoje cheguei onde pude chegar não foi só com minhas pernas, mas a cabeça foi moldada por cada uma das minhas queridas e amadas professoras do Grupo Escolar Prudente de Moraes. 

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