segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Um craque Genuíno ou Genuíno, um craque?

Certo dia, em uma conversa de botequim, me perguntaram: - O Genuíno jogou tudo isto que você fala ou é mais uma das suas histórias? 

Sem medo de ser feliz respondi: - Tudo isto mais dez por cento, não vou querer dizer o óbvio, que se jogasse hoje estava no Real Madrid com sucesso de Cristiano Ronaldo, mas digo que no tempo dele, tanto na região quando no Estado do Rio, não tinha atacante do seu talento e com seu faro de gol. 

Tá boa a explicação ou quer mais? Eu disse, há alguns dias, no Facebook, que eu joguei futebol e fui artilheiro por onde passei, alguém pediu provas, como aquele personagem da Escolinha do Professor 

Raimundo, o Pedreira. Renato Borges, que não me viu jogar e apenas ouve meus causos, queria foto, videos e o José Maria de Aquino queria testemunhos ao vivo e a cores. 

E quanto ao Genuíno, há alguma contestação para quem o viu jogar? Algum dos amigos, que viveram nosso tempo, discorda da minha opinião que ele, o Genuca, foi realmente um dos maiores jogadores do seu tempo na terrinha na região e no Estado do Rio?

Aos mais novos, aqueles que não viram Genuíno em campo mas viram Edmundo, o Animal, podem traçar um paralelo entre ambos, e aos mais jovens ainda, que não viram sequer Edmundo em ação, mas hoje veem Cristiano Ronaldo, podem colocar no mesmo patamar sem medo de ser zoado por quem viu o nosso craque em campo. 

Claro que os tempos são outros, o CR7 joga com bola de qualidade extra, em gramados extraordinários, vive do futebol e para o futebo, seu uniforme é o que há de mais moderno em confecções esportivas e o nosso, digo, o do Genuíno, no seu tempo, a bola era pesada, pintada com tinta a óleo para parecer ser uma bola branca, as chuteiras eram feitas de couro duro, com travas de pregos e outro tipo de couro mais duro ainda, e as camisas, meias, calções era pesadíssimos e a medida que o suor aumentava o peso dobrava. 

E então, porque Genuíno e tantos outros que sempre elogio por aqui não foram ganhar a vida jogando futebol em um clube da capital? Perguntaria um de vocês. A resposta é tão fáci como somar dois mais dois. O que ganhava um craque do Flamengo? Um craque do Vasco? Um bom jogador do Botafogo ou Fluminense naquela época? O mesmo ou quase a metade do que Genuíno ganhava por aqui trabalhando na padaria do seu pai ou fazendo seus negócios com farinha ou produtos para panificação. 

Genuíno, além de um craque, era um fominha juramentado, tipo Cristiano Ronaldo, passar bola não fazia parte de sua agenda, mas há exceção, quando ele tirava um colega no pontapé (aquele bolo de cinco pessoas com números dos atacantes) ele procurava o cara até ele fazer o gol de abertura do placar. Bom camarada, bom coração, amigo de fé e leal, mas em campo era chato e cheio de marra. 

Duas histórias para ilustrar o nosso papo de hoje em homenagem a Genuíno Siqueira Magalhães. A primeira aconteceu no Estádio Municipal Plínio Bastos de Barros, em um jogo amistoso entre Miracema x Operário/Palma, numa tarde de domingo, e a segunda, no Estádio Irmãos Moreira, pelo campeonato de Miracema, em jogo Associação x Flores. 

Caso Um - Genuíno na arquibancada, assistindo ao jogo, entra no pontapé e sai com o número 7, camisa que estava com o Jucão. Primeiro tempo encerrado, zero a  zero, e na volta para o segundo tempo quem aparece em campo, ele, Genuíno, no lugar do Jucão. 


Preciso dizer que ele fez o gol e levou a grana da aposta? Sebastião Amaral ainda tentou argumentar, mas não havia razão, o gol foi legal e a regra diz que quem entra no lugar do que leva o número no sorteio fica valendo. 



Caso dois - Aconteceu entre mim e ele, no Campo do América. Perdi dois gols e ele brigou comigo, coisa que não era do seu feitio, ele sempre reclamava que a gente não dava passe para ele, e, neste jogo, ele me encheu de bolas e dizia, "vá lá, faz o seu, você é artilheiro". 

E, depois de tantas bolas com açúcar eu fiz o gol de abertura do placar e ele me abraçou e disse: 

- Caramba, até que enfim, agora se vira porque não vou te dar mais bola com mel e açúcar, ganhei o pontapé e agora é pra valer. 

Este é o Genuíno, craque dentro e fora de campo, gente boa, pai exemplar e um marido muito bom para a Rita, sua esposa e que o "aguenta" há quase cinquenta anos. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Dez anos sem Carlinhos Rego

Texto de Ademir Tadeu

Neste ano de 2016, completam-se dez anos de sua morte, mais precisamente no próximo dia 4 de março. Quis o destino que numa quarta-feira de cinzas um AVC provocasse a sua morte cerebral. Três dias depois, aos 70 anos, veio a óbito.

Nascido em Miracema, em 3 de junho de 1935, começou aqui como locutor do serviço de auto-falante e fez reportagens para o jornal estudantil “O Federado”.  Em 1957, mudou-se para o Rio e começou a sua carreira no “Jornal Imprensa Popular”. 

Logo se transferiu para o jornal “Última Hora”, onde se destacou na cobertura das escolas de samba. A sua paixão pelo carnaval floresceu e o Império Serrano era a sua escola preferida, que dividia com o Vasco da Gama, o coração do miracemense. Em 1994 lançou o livro “A dança do samba”. A obra é considerada um clássico do tema.

José Carlos Rego era membro da ABI e do Conselho Superior de Música Popular do Museu da Imagem e do Som. Foi um dos fundadores e integrante permanente do júri do concurso “Estandarte de Ouro” do jornal O Globo, que premia os melhores do carnaval, desde a sua instituição, em 1972.

Durante a vigília que precedeu o sepultamento, seu filho, Rodrigo Ernesto de Andrade Rego, leu o perfil escrito por ele, intitulado “Missão cumprida.”

“No dia 3 de junho de 1935 nascia na cidade de Miracema um homem de muita ambição. Com muita coragem, inteligência e força de vontade, veio  para a cidade grande, onde buscou, trilhou e conseguiu o seu espaço. Posicionou-se como jornalista e passo a passo conseguiu ser reconhecido no seu ambiente de trabalho. 

Desde então, neste jornalista passou a rolar uma paixão que o acompanhou em toda a sua vida: o samba. Passou a se dedicar a conhecer a música e estudá-la profundamente. Durante estes anos, fez muitas amizades e conquistou a admiração e o reconhecimento dentro do mundo do samba. 

Compôs, criou, participou de um grupo de compositores e por final eternizou na forma de um livro grande parte dos seus conhecimentos. Em “Dança do samba, Exercício do prazer”. Reuniu grandes nomes que, assim como ele, faziam e fazem do samba a sua vida.

Outra paixão que levou com muito orgulho por toda a sua existência foi o prêmio Estandarte de Ouro, do jornal O Globo, que desde a sua primeira edição tinha este jornalista no corpo de jurados.  O carnaval era o ápice anual desta paixão, não abria mão nunca de assistir pessoalmente aos desfiles das escolas de samba. 

Mas, não por acaso, neste ano de 2006 não quis participar da festa, para surpresa dos seus familiares.  Sentia-se cansado, mas hoje nós vemos que ele sabia que estava chegando a sua hora.  Estava se preparando espiritualmente. 



 Agora falaremos um pouco do lado pessoal deste jornalista. Pessoa amável e sempre com uma palavra de carinho, uma mão sempre disposta a ajudar.  Não tinha quem o conhecesse e já no primeiro encontro não se admirasse.  Por onde passou, ajudou muita gente, mas como um bom espírita não fazia questão de se vangloriar destas ajudas.  

Um excelente pai, que criou, educou e deu o caminho certo para que seus filhos pudessem crescer e caminhar sozinhos.  Viu e se orgulhou de presenciar seus filhos se formarem; mais uma parte da missão estava sendo cumprida. Sua obra não poderia terminar sem um grande presente de Deus. E ele veio no mês de janeiro, de forma grandiosa e sublime: uma neta linda que a ele foi dado o prazer de dar o nome. Luanda, assim como a capital angolana, que ele se encantou ao conhecer nos anos 80.  

Depois disso tudo, ele foi, desencarnou, foi para um mundo melhor do que este em que nós aqui ficamos. Foi encontrar velhos amigos que ele tanto amava, como o seu grande parceiro Manuel da Paixão Pires. Foi encontrar seus pais e familiares que o aguardavam de braços abertos. Agora neste mundo nós não o vemos, mas ele nos vê e tenho a certeza de que está feliz e olhando por todos nós. 

Este homem, negro com orgulho, grande crítico musical, jornalista, é meu pai, de quem me orgulho muito. Pai, que seguramente está aqui entre nós, te digo poucas palavras: Obrigado! Até breve!”

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Visitando a velha prefeitura

Li, em algum lugar, talvez no Facebook, que a antiga Prefeitura, o prédio claro, está necessitando de uma reforma em caráter de urgência, o lamentável estado de abandono, segundo a minha fonte, pode fazer com que mais um laço do nosso passado seja abandonado a própria sorte, como aconteceu com a Fonte Luminosa, cartão postal quase oficial da cidade. 

E ao lembrar do prédio da prefeitura eu vou vasculhando o passado, a minha vida começou por ali, até a profissional, meu primeiro dinheirinho, ganho com trabaho, foi servindo café nas reuniões da Câmara de Vereadores, datilografando para os magistrados e servindo de ofice boy para a turma dos cartórios. 

E os nomes e os personagens que habitavam aquele prédio histórico vão passando pela minha memória, Dona Yone Magacho, a bibliotecária que me deu dicas maravilhosas de leituras, foi lá, na Biblioteca Municipal, que li os ivros de geografia, que falavam das capitais da Europa, e os livros que narravam cada um dos instrumentos musicais. Sentiram que o gosto pelas viagens e pela música vem de muito longe e teve ajuda providencial, certo? 

Quem, da minha geração e viveu naquele pedaço de Miracema, não se lembra do Zezinho, da Prefeitura? Uma figura doce, alegre e um profissional zeloso que cuidava dos impostos da municipalidade com dignidade. Dona Cibele, a nossa "prefeita" eterna, ditando ordens com educação e elegância e fazendo a cidade andar nos trilhos. Dona Santa, fiel escudeira do Capitão Altivo Linhares, Olavo Monteiro de Barros, agente da postura e depois prefeito da cidade e, ao lado do seu irmão Jorge Monteiro, eram funcionários que deram um toque de seriedade ao lugar. 

Ali, naquele prédio, tive o prazer de assistir reuniões da Câmara de Vereadores, que por sinal sempre acabavam no cafezinho do Bar do Vicente, ali em frente. Antonio Laureano Pereira, Eudoxio. Nilo Ronzê, Armando Azevedo, Jofre Salim, Marcos Faver, professores Felicissimo e Ferrugem Mercante e tantos outros que irão ficar para uma próxima oportunidade, eram vereadores da cidade e por ela faziam de tudo e não recebiam nada para representar o povo no plenário da casa, que também funcionava como salão nobre dos juris da comarca. 

Como não lembrar dos famosos juris? Como eu disse acima foi servindo cafezinho nestes momentos é que pude ficar atento aos grandes debates, com advogados brilhantes e famosos, como José Danir Siqueira, Tenório Cavalcante, ele mesmo, o famoso político de Duque de Caxias, oradores brilhantes, como Ronaldo Linhares e Ururai Macedo passaram pelas tribunas do salão nobre da Prefeitura de Miracema e escreveram seus nomes na história do prédio. 

Certa vez, só para ilustrar o nosso final de papo, assisti um belo embate entre os partidos da cidade, uns vereadores queriam investir em uma reforma nas estradas de Venda das Flores e a oposição batia o pé e não dava o apoio necessário. Saí dali e disse para meu avô, Vicente Dutra. 
- O bicho tá pegando lá na câmara de vereadores, seu Nilo Lomba (prefeito) quer fazer algo e estão atrapalhando. 

E meu avô, experiente no assunto, me disse. - Espera um pouco, daqui a pouco eles descem e resolvem tudo na boa conversa aqui no bar. Fique de olho. 
E em poucos minutos desceram Nilo Lomba, Nilo Ronzê e Antonio Laureano, poíticos sérios cujos objetivos eram apenas o trabalho para a cidade. 
- Nilo, será que vamos atrapalhar o Laureano lá em Flores? Vocês estão pedindo o que? Dizia o então prefeito Nilo Lomba.
- Prefeito, não quero atrapalhar nada apenas pedir para que se alugar as máquinas para o serviço em Venda das Flores que seja estendido um serviço em Paraíso de Tobias, que carece demais de reformas nas estradas para trazer o arroz e o leite para a cidade. 

Em dois minutos e em dois dedos de prosa se resolveu a questão, Nilo Lomba entendeu seu conterrâneo, atendeu o pessoal de Flores e fez com que todos os lados se beneficiassem sem que fosse preciso "molhar" a mão de nenhum empreiteiro, sem acordo de vantagem e apenas em um aperto de mão a serviço da comunidade. 

Bons tempos, boas histórias, gente maravilhosa que serviam a Miracema sem pensar em nada no lado pessoal ou financeiro. Grandes homens que fizeram a história de Miracema. 

Palco e arquibancada

  Eduardo Afonso escreveu hoje, em sua coluna em O Globo, sobre um concerto precisando de conserto. E este colunista, que vos fala, acrescen...