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De músico e cantor

Uns dias atrás, creio que foi na sexta-feira após chegar do encontro semanal com os amigos do Armazém do Lenílson, recebo uma ligação e do outro lado estava o velho guru Ermenegildo Sollon, veterano jornalista miracemense, que me surpreende com uma prosa diferente e coberta de dúvidas e incertezas. 

- Dutra, estou chegando de um encontro com amigos conterrâneos e me surpreendi com uma revelação de um amigo seu, dos tempos de música e futebol, dizendo que você era crooner de conjunto (para quem não sabe crooner é o que hoje chamados de vocalista) e que também soprava um trompete (para os menos informados sinônimo de pistom), procede? 

E aí fui explicando a ele que tudo isto foi pelo lado amador, um hobby que sempre cultivei e nunca cantei ou toquei profissionalmente e sim pelo mero prazer de viver a música com toda intensidade, como me ensinou meu professor e maestro Zeca Garcia, que soube incutir em minha cabeça o estudo fiel as pautas e as notas musicais. 

Contei que desde criança pequena, lá em Miracema, eu soprava um talo de bambu, um cano de borracha, com um funil em uma ponta e um bocal improvisado em outra, e saia pelas ruas contente e acreditando ser aquilo um instrumento musical. Disse ao veterano amigo que daí para a corneta, que abrilhantaram vários desfiles de 3 de maio e 7 de setembro foi um pulo, e, para o instrumento maior, o pistom, foi preciso estudo e dedicação, mas cá prá nós, bem baixinho, que ninguém nos ouça, tocava bem melhor de ouvido do que lendo as partituras. 

E, quando a ligação chegou ao fim, me parece que Sollon ficou satisfeito com a informação e surpreendido quando disse que como cantor o meu grande prêmio foi uma vitória no Festival da Canção de Miracema e os prêmios secundários foram outras vitórias em outros festivais da região, e que no nosso conjunto eu era apenas um coadjuvante de grandes músicos, como Zé Viana, que me levou para tocar e cantar com sua turma formada pelo Lula, no violão, Francisco e Valdemar, dois irmãos, um na guitarra e outro na bateria, e abrilhantamos os bailes no Operário, no Polaca e as vezes no Primavera, antigo Cinema Sete. 

Você não vai me ouvir dizer "tempo bom", vivi intensamente e, só para recordar, não sem antes pedir permissão e a benção ao criador Bebeto Alvim, aqui em Campos conhecido como Passarinho do Banco do Brasil, vou lembrar do nosso conjunto, não tão badalado como os de hoje e que não sobreviveu muitos bailes, dizem os companheiros que não houve apoio, e eu digo que não houve interesse nenhum dos diretores dos clubes na ocasião, que preferiam contratar bandas de fora e jamais, exceto em duas ou três oportunidades, nos chamaram para abrilhantar os bailes na cidade. 

Era um grupo de jovens músicos, cheios de entusiasmo e que aos poucos foi perdendo o interesse pelo motivo citado no parágrafo acima, mas afinados e dispostos a apagar a má vontade dos conterrâneos. Breno Perissé, guitarrista, Hélio "Polaca", no baixo, Caíto, no saxofone, e o meu grande parceiro de banda marcial, companheiro de criação de toques e marchas, Adilson Cagiano, na bateria, e este que vos fala na voz e no pistom. Saudade? Não. Não ficou saudade daquele tempo, as histórias são poucas e as que ficaram moram até hoje na minha memória. 

E uma destas passagens, bem marcantes, aconteceu em Pureza, distrito de São Fidelis, que nos chamou para abrilhantar a festa de inauguração do Clube de TV da localidade, e lá fomos nós, em busca do sucesso (risos) em terra alheia. E, não dá para esquecer, um fato marcou nossa passagem por lá:

Após a apresentação da diretoria do Clube de TV a "primeira dama" pediu para que tocássemos uma valsa para marcar o evento e, verdade crua e dura, não estava no repertório do conjunto uma valsa sequer. E o que veio a cabeça? Tocar algo improvisado e Caíto, esperto e bom músico, me chamou no canto e disse:
- Se você cantar, me ajudando, dá para sair aquela falsa valsinha do Roberto Carlos, topa?

Eu retruquei e falei para o nosso saxofonista: - Se eu cantar não vão acreditar que seja valsa, vamos nós dois para o instrumento e vamos ver o que vai dar. 

E tocamos "Se você me deixar" de forma legal que os presentes valsaram com alegria e a "primeira dama", empolgada, mandou lá de baixo, antes das palmas:

- Viu só, marido, dançamos até valsa de Strauss em nossa posse. 

E lá de cima, onde ninguém percebia, rimos a vontade e chegamos a conclusão de que nem sempre um Strauss resolve, mas sempre um bom improviso dá o ponto certo para um músico amador de boa vontade. 

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