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O canhão do Totonho

O jogo valia pelo campeonato de distritos e o Areias tinha no seu campo a grande arma para vencer o time de Santa Inez. Totonho, o canhão era a estrela do Areias. O chute certeiro e potente do zagueiro destruía qualquer defesa ou esquema montado para deter o time da casa.

Em todo campeonato o Areias venceu todas em casa, cinco vitórias com gols decisivos de Totonho, o canhão. Durante os jogos a torcida ficava à beira do barranco para ver de perto a destruição provocada pelos petardos do craque. 

Falta na entrada da área, que em um campo normal seria mais do que uma penalidade máxima, e lá vai Totonho: Bomba... Gol... E mais uma bola espremida contra o barranco. 

- Vejam só quantos buracos existem na encosta! Diz um animado torcedor, contando pelo menos vinte buracos provocados pelos petardos de Totonho. 

- Isto aqui, apontando para o buraco no barranco, significa um gol e como temos mais de vinte “tocas de tatu” (você já viu como é uma toca de tatu?) o nosso ídolo fez mais de vinte gols este ano, pois a prefeitura ainda não mandou os homens para arrumar isto aqui.

Chega o dia da decisão. O campinho está lotado. O Santa Inez vem com tudo para segurar o bom time de Areias em seu campo, mortal para todos os adversários. Roberto, o treinador, manda a última ordem antes do apito inicial de Tuniquinho, o melhor arbitro da região: “Não façam faltas, deixem os atacantes fazerem o que quiserem, só não pode fazer faltas depois do meio campo”.

Aquela instrução poderia parecer meio confusa, mas não era. O time de Areias se resumia no bom futebol e no chute mortal de Totonho, artilheiro com quinze gols na temporada, seus atacantes eram tremendos pernas de pau e não metia em ninguém. Porém, tem sempre um porém,sabiam cavar faltas como um Neymar ou um Kléber, por isto o medo de Roberto.

Jogo chegando ao fim e nada de gol. Totonho, bem marcado, não conseguia ir a frente para tentar o chute de misericórdia. Roberto tinha razão, o ataque do Areias nada fazia, mas eis que, aos 45’ do segundo tempo, um toque de mão dentro da área, de um zagueiro do Santa Inez, e Tuniquinho não teve outra alternativa a não ser marcar a penalidade máxima.

Depois de algumas reclamações, sem sentido, bola na marca da cal e lá vai Totonho, aplaudido pela multidão, para cobrança da penalidade. O time do Areias ficou perfilado no meio campo, todo mundo de mãos dadas, inclusive o goleiro Benedito. Na orla do campo, não havia arquibancada, o silencio era total e lá atrás, no barranco, torcedores já faziam aposta para saber onde Totonho enterraria a bola do jogo.

Explico melhor: O tal barranco fica bem junto a rede do gol que dá para o botequim do Messias, que a esta altura do campeonato está repleto de gente e todos prá lá de Bagdá.

Lá vai Totonho, eu já disse que o time do Areias está todo perfilado na linha divisória do gramado, e a contagem regressiva para o título começa: Um... Dois... Três... Fogo.... 

Bomba de Totonho, bola na trave e a trajetória de retorno é acompanhada por todos, atônitos e apavorados. A bola subiu e começa a cair lentamente em direção ao gol, não do goleiro do Santa Inez, mas na meta do Areias, desguarnecida pelo Benedito, que foi comemorar antecipadamente lá no meio campo.

Bola descendo e quicando na pequena área, dez homens correndo atrás da pelota tentando salvar o que seria um castigo para o craque Totonho, o canhão. Torcida ainda calada e apenas um grito de gol, vindo banco do Santa Inez, era de Roberto, o único com os olhos abertos gritando e comemorando o título do Campeonato dos Distritos.

Gol contra de Totonho, o canhão, que desolado largou o campo em silencio e nunca mais retornou a Areias. Foi defender seu Paraíso, onde o campo é um pouco maior e jamais correrá o risco de mandar o seu canhão na trave adversária e ver a sua grande aliada morrer mansamente na linha de gol de seu time.

Santa Inez 1 x Areias 0. Pode conferir com o Abraão, lá no Braseirinho, ele tem tudo anotado e há o testemunho do Paulinho, que afirma ter assistido a decisão lá no Distrito de Areias.

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