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Crônica de Natal -

O editor me pediu para criar um texto sobre o Natal, já que o fim de ano se aproxima e a data, geralmente, é comemorada pela família, por amigos ou companheiros de profissão, e, até mesmo, por aqueles que dificilmente abrem um sorriso para os vizinhos ou parceiros do dia a dia. O natal tem seus mistérios e só encontraremos ilustrações diferentes àquelas do dia a dia se formos buscar, nos ensinamentos da bíblia, os mais desconhecidos de todos estes segredos.
Tentei fugir a responsabilidade, no ano passado jurei não escrever sobre o tema, haja vista que cai no lugar comum, falei em brinquedos para quem já os tem, em comida, para quem não as tem, em igualdade, onde não a vejo, em alegria, onde tudo é forçado. O meu texto, do ano que passou, agradou apenas aos mais chegados, eu disse que minha família não tinha defeito e até fiz analogia ao amor, onde na verdade existe mesmo é um respeito e um medo de assumir o ódio.
Argumentei com meu chefe que a Missa do Galo era apenas um desfile de interesseiros, aqueles que ficam nos portões da igreja para serem vistos e considerados tementes a Deus. Engano total, como se Ele não estivesse assistido tudo em Seu camarote especial. Vejam só a hipocrisia maior deste mês de dezembro, lá em Santa Catarina, só para falar apenas no que a Globo mostrou, homens (aqui no sentido geral) travestidos de caridosos, de humanitários e traindo a confiança de seus líderes, surripiam roupas, brinquedos, alimentos e até água potável destinados aos flagelados das enchentes que assolaram o sul do país. Ele nem quis saber, afinal sou pago (será que sou?) para isto e tenho que esquecer o futebol e falar sobre e de Natal.
"Você é um cronista do dia a dia e por isto é capaz de fazer o que peço". Ainda bem que pediu, caso contrário diria que ele, o chefe, também não vestiu-se com as roupas da bondade e da fraternidade, como pede a data, por isto estou aqui, batalhando contra o tempo para ver esta crônica pronta para sair antes do dia consagrado ao nascimento de Cristo Salvador, antes que me aborreça e jogue para o alto as lições recebidas dos meus pais: Educação e elegância antes de tudo.
Não sei se os amigos estão me entendendo, o editor passou por aqui, deu uma olhada no texto, fez cara de quem estava gostando e disse: "Você está no caminho certo, é assim que eu queria, um texto verdade, sem bajulações ou certinha demais, para isto eu tenho o pessoal das Colunas Sociais, onde tudo corre as mil maravilhas, lá sim, quem paga pode exigir textos delicados ou encomendados, mas não diga isto a ninguém, se não meu cargo fica a perigo", diz meu chefe.
A dica valeu como inspiração, pois não vou falar de vitrines bonitas, de ruas enfeitadas, de árvores maravilhosas ou coisa e tal. O meu pensamento é voltado ao meu semelhante durante vinte e quatro horas por dia, além de procurar meus amigos em todos os finais de semana, claro que para uma pelada, êpa, no sentido de futebol deixo bem claro, e para um dedo de prosa nos bares da vida. Isto sim é confraternização, não aquilo forçado, pago regiamente durante os meses do ano, onde "amigos" se abraçam e mentem descaradamente para eles e para Ele, que lá de cima olha com ar tristonho tudo aquilo que falam em Seu nome.
Aqui na cidade em que moro as luzes das ruas não foram acesas, a prefeitura não teve dinheiro para bancar o serviço, as vitrines estão cada dia mais cheias de promoções e neca de palavras carinhosas, apenas um falso Feliz Natal e Próspero Ano Novo, mais gelado do que na terra de São Nicolau, o nosso Papai Noel.
Ah, tem a música, argh, a música natalina, nada mais chato e mais repetitivo do que estas canções de Natal. Já era hora, também, de mudar o rumo da prosa e encomendar, aos nossos grandes compositores, novas letras, novas partituras e não novos arranjos para estas músicas, americanas por sinal, que se repetem desde quando eu era criança pequena, lá em Miracema.
Meu chefe me cobra pressa, o jornal está indo para oficina e eu não terminei o texto encomendado nos últimos minutos do segundo tempo, talvez  para preencher o espaço reservado para aquele recém formado, protegido do dono, que não soube cumprir a pauta do dia e se perdeu no mundo estranho do Natal. Isto mesmo, a data é muito estranha, é aniversário de um Homem que fez tudo por nós, inclusive deu a Sua vida para nos salvar, e a única coisa que não se lembram, nesta data querida, é DELE.
Perdoe-me a falta de sensibilidade, mas como disse acima, juro que não estou com saco de ficar cantando as músiquinhas de natal, tomando vinho de garrafão, em um calor de quarenta graus, trocar presentes com ilustres desconhecidos, recebendo um anelzinho do Tetinho (o pessoal de Miracema sabe o que estou dizendo) em troca de uma camisa da Camisaria Gérson (olha Miracema aí de novo), comprada a prazo para satisfazer o ego da moça que organizou o Amigo Oculto e deu como mínimo o valor de R$ 50,00.
Neste tópico final agradeço a Deus por ter amigos, que freqüentam minha casa o ano inteiro, que dividem comigo as mesas dos bares, todas as semanas, filhos maravilhosos, que comungam comigo de todas as alegrias e tristezas, uma mulher que amo, e que me ama piamente, irmãs, cunhados, sobrinhos e primos, enfim, uma família que fica unida vinte e quatro horas, embora distante uns dos outros, e que no Natal apenas cumprem a rotina de mais um feriado neste país dos feriados. 
Obrigado e Feliz Natal, afinal não esqueci o que aprendi com os padres holandeses, a data é Dele e não dos incrédulos ou infiéis.

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