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Minha terra tem palmeiras...

Meu mais novo “amigo de infância”, Renato Caveare, me envia um torpedo, via Twitter, que julgo ser um dos mais interessantes deste novo ano que começa agora. “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, sorte sua poeta Gonçalves Dias, aqui, hoje em dia, é “Ai se eu te pego...Ai.. Ai”. 

Diria Milton Leite: “Que beleza!” e eu digo, tudo o que penso em apenas uma frase inteligente, criativa e cheia de verdade. Que beleza! Caveare, sua inspiração pode até ter vindo da vizinha, conforme você me explicou em um novo torpedo, mas com certeza, usando a frase da moda, esta inspiração lhe foi passada pelo poeta, Gonçalves Dias, autor da bela “Canção do Exílio”, que um dia serviu de inspiração para este escriba falar de sua saudade da terrinha.

Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá, é o primeiro verso da poesia eterna do eterno poeta, já Michel Teló, o desconhecido que virou sucesso e, em breve, se esconderá de novo, diz a beleza: “Nossa, nossa, assim você me mata, ai se eu te pego, ai se eu te pego”.

E o brasileiro, carente de inteligência e de memória, assume a mediocridade do autor moderno e a imprensa, ávida por uma grana extra no final de ano, faz alarde e expande esta “pérola rara” por toda mídia com apoio irrestrito dos novos ricos do país, os jogadores de futebol, cuja escolaridade é a mesma que os serviçais, da época de Gonçalves Dias, conseguiam ter, ou seja, a mínima possível. 

“Nosso céu tem mais estrelas, nossas várzeas tem mais flores, nossos bosques têm mais vida e nossas vidas mais amores”. Será que algum destes autores modernos, nem vou citar nomes para não ofender os amantes dos sertanejos e coisa e tal, teriam mente tão iluminada assim, como Gonçalves Dias?

Pobre escriba, parece até que não conhece a segunda estrofe da música do momento. Veja só a graça, a beleza, a exaltação deste poeta maior de nossos tempos: “Delícia... Delícia... Assim você me mata... Ai se eu te pego... Ai se eu te pego”. 

Sentiram o clima de romantismo, de paixão, de clarividência? Nem dá para comparar com o poema eterno do poeta em questão, afinal “Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá; sem que desfrute os primores que não encontro cá; sem qu’inda aviste as palmeiras onde canta o sabiá”, não será jamais compreendido por estas mentes abstratas e fechadas com as “belas canções” destes dias atuais.

Juventude que aprendeu a cantar com Xuxa, passou por Tiririca e hoje curte Teló e seus comparsas assassinando a nossa Música Popular Brasileira, que por pura falta de interesse das gravadoras, dispostas a lucrar com o “inteligente” novo público consumidor, empurra goela abaixo falsos sertanejos com o novo rótulo incluindo o adjetivo Universitário, para estes jovens sem qualquer interesse em nossa verdadeira literatura. 

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