Pular para o conteúdo principal

Saudade é coisa do passado?


Hoje, pela manhã, abri um dos elementos da rede social, o Facebook, e deparo com uma mensagem de um velho amigo e conterrâneo pedindo para eu enviar um e-mail para um parceiro, que não vejo há mais de trinta anos, para que possamos marcar um encontro, em Niterói, para matar a saudade. 

Fiquei feliz momentaneamente. Fiquei sem palavras para responder e não sabia o que dizer neste momento. O que faria você, caro leitor, se alguém te convidasse para ir a uma outra cidade, para ver um companheiro distante e ausente da “terrinha” por longos e longos anos? Não sabe? Eu também não sabia o que fazer, mas pensei bem e decidi em apenas cinco minutos.


Não enviei o tal e-mail para o conterrâneo distante e ausente, enviei resposta ao amigo presente e que sempre marca presença aí na “terrinha” dizendo que era bem melhor a gente se encontrar no jardim de Miracema, sentarmos ao banco em frente a Fonte Luminosa e ver, de pertinho, o Jardim de Infância e o Rink tão saudoso do moço distante. 


Tem distantes e “distantes” na minha lista de amigos e companheiros. Tem aquele, que por força da verdadeira distancia, louco para voltar, pelo menos para passar quarenta e oito horas ao lado de amigos de longa data, e tem aqueles, que por falta de vontade ou por um motivo especial, se afastaram e jamais voltaram a colocar os pés na Rua Direita tão cantada em verso e em prosa nas reuniões nas cidades que escolheu para viver.


Eu disse, no dia em que recebi o título de Cidadão Campista: “Ninguém escolhe o lugar para nascer e sim o lugar para viver, mas rejeitar o lugar de nascimento e abandonar suas raízes? Jamais. O lugar que escolhemos para viver deve ser amado com a mesma intensidade que amamos o lugar onde nascemos”.


Mas nem sempre as pessoas pensam igual, há aquele que não está nem aí para o passado e outros que “se matam” para reviver, nem que seja por alguns momentos, um pouquinho de sua vida no torrão natal. Sei que há um pouco de exagero de minha parte, mas é preciso motivo muito forte para abandonar tudo e nunca pensar em rever aquele pedaço de chão que o acolheu na infância ou na juventude.


Como esquecer das peladas no Rink ou no Ginásio? Como deixar de lembrar aquela seção de cinema no Quinze ou no Sete? Como fazer uma revisão na memória e não lembrar dos papos em frente a Líder ou no Crédito Real, dos passeios pela Rua Direita, o sorvete no Abdo ou o lanche no Bar Pracinha?


Como não lembrar dos treinos de basquete com o professor Nézio ou do Esportivo/Vasquinho com o Bizuca ou com o Jaci? Tem gente que apaga tudo da memória por anos seguidos e, sei lá porque, de repente fica louco para ter um dedo de prosa com alguém que viveu este tempo de glória e começa a procurar, avidamente, por um momento de recordação.


Ah! Tem aqueles que são lembrados durante os festejos de maio, quando a cidade fica em festa por conta de seu aniversário de emancipação, que chegam por aqui praticamente na hora do evento, recebem o título ou a comenda, fazem discurso bonito e se mandam novamente sem  sequer sentar no banco do jardim para uma reflexão ou discussão consigo mesmo sobre seu passado por aí. 


Não recuso convites para visitar a “terrinha”, mas não me convidem para uma reunião, longe do meu pedaço, para rever amigos ou companheiros distantes, aqueles que não encontram tempo para matar a saudade que dói no peito ou para matar a saudade de quem tem o peito doído pela lembrança dos bons momentos vividos por aí. 


Comentários

Amigo Adilson, fantástico, extraordinário seu comentário...Parabéns pela objetividade, clareza, honestidade e coragem da publicação.
Beijos em seu coração.
Adilson Dutra disse…
valeu, amigo. Foi um desabafo que precisava fazer há algum tempo.

Postagens mais visitadas deste blog

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno? Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano. Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”. Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma. O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como ...

As badaladas da Ave Maria

São várias lembranças que me fazem buscar o computador e escrever, antes de que desapareça de meu pensamento, sobre o cair da noite, ou o cair da tarde na linguagem poética, principalmente de Augusto Calheiros em sua Ave Maria, datada de 1953, e que fez um punhado de senhorinhas, que sentavam à beira da calçada, suspirarem com a passagem do seu possível par romântico nos bailes da vida.  Pode ser também a angústia que me bate nestes períodos, lembrando dos dias solitários no Rio de Janeiro, quando pensava em Miracema e declamava os versos de Fernando Nascimento:  "Quando a lua desce aqui no Rio, eu sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio. Quando a Lua nasce cor de prata eu relembro Miracema em serenata." E seria a lembrança de minha mãe, que nesta segunda-feira, 29 de julho, completaria o seu centenário, que não será comemorado em vida, mas a lembrança das velas acesas, para esperar as badaladas, que na verdade eram as seis badaladas da manhã repetidas à noite, e que também s...

AO SOM DE CARTOLA, ELIS E OUTROS

Revendo textos - Esta é de outubro de 2005    Quatro horas da tarde. Lá fora o sol forte, aqui dentro o ar refrigerado ligado no limite e na vitrola o disco de João Gilberto, em volume médio, toca para motivar este velho escriba a falar sobre música e artistas. Ligo para meu amigo Motta, que está na internet –sua nova companheira- e me recuso, no momento, a entrar na grande rede. O telefone toca. Penso em não atender. Marina chama: É prá você. É o Solon. Bingo. Era o que precisava para traduzir certas canções de Cartola. Pensava até em ligar para o Nascimento, lá em Miracema, mas Solon chegou na hora.  Fala aí, amigo velho. – Amigo velho, não. Velho amigo. Fica mais poético e mais saudável. – O que manda? – Acho que preciso de alguém para conversar, estou só e os dedos estão cansados demais para dedilhar nas teclas do computador. – Eu até gostei de sua ligação. Tava pensando em fazer umas colocações sobre a música de Cartola e só mesmo quem viveu estes momentos pode divid...