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OS BONS TEMPOS DA “LATINHA”


Minha vida de repórter foi bem interessante, fiz algumas entrevistas que marcaram e algumas até que poderiam ser descartadas da memória ou do chip do computador. Uma das interessantes, e boa interessante nisto, eu fiz com o ex-técnico da Seleção Brasileira, naquele tempo dirigindo o Bangu, Mário Jorge Lobo Zagallo, um dos personagens mais marcantes do nosso futebol.

O que marcou no papo, à porta do túnel de acesso do vestiário de visitante, no Estádio Ary de Oliveira e Souza, foi que a prosa sequer chegou ao futebol profissional. Eu e Zagallo falamos do cotidiano, dos tempos de ambos na Tijuca, das peladas no campinho ao lado de seu edifício, que ficava uma rua acima da Rua José Higino, onde morava minha tia Durvalina.

Zagallo, que é ótimo de conversa, me brindou, e aos amigos da Rádio Difusora, com pelo menos meia hora de ótimo papo e que só terminou com a apito final do árbitro do jogo preliminar, Goytacaz x Bangu, que o treinador tentou assistir e não conseguiu. Falamos de seleção, da vida, dos nossos sonhos e projetos e, no final, até que perguntei a ele como armaria o Bangu para o jogo contra o Goytacaz.

Uma outra, bem interessante também, aconteceu no salão do Hotel Palace,em Campos, com o então treinador do América, Joubert Meira, ex-lateral do Flamengo e que estava levando o time rubro a uma excelente campanha no campeonato Carioca.

Eu estava iniciando a carreira por aqui e o América chegava a Campos com inúmeros problemas médicos e com um time que buscava a liderança isolada do estadual. Fez-se fila no saguão para o papo com o treinador, naquele tempo cinco emissoras de rádio transmitiam futebol na cidade e todas com repórteres setorista em cada time visitante.

Esperei a coletiva acabar e chamei Joubert para uma exclusiva e disse a ele que estava chegando agora na cidade e que precisava de uma boa causa para me firmar e agradar aos novos patrões. Ele me atendeu, no seu quarto, gravei pelo menos vinte minutos de papo e... quando fui ouvir, no saguão do hotel, esquecera de ligar o gravador. Vexame total.

Fiquei atordoado, mas não perdi a pose. Liguei para seu apartamento, expliquei o que havia ocorrido e esperei uma negativa, já que o telefone fora desligado ou colocado no gancho. Fiquei parado por uns dois minutos, sem saber o que faria, e logo veio uma mão ao meu ombro e uma voz pedindo para eu me sentar. Era Joubert Meira, com toda boa vontade, oferecendo uma nova oportunidade ao repórter iniciante.

Cheguei a rádio com o material e Luis Candido Tinoco, o apresentador do programa das seis e meia, ficou empolgado com a matéria apresentada e daquele dia em diante ganhei a confiança de todos os companheiros da emissora.

Algumas são para esquecer, como as que fiz com treinadores antipáticos e donos da verdade, que nem seus nomes devem ser anunciados, outras com jogadores famosos e brilhantes, como o ex-lateral Júnior, do Flamengo, hoje comentarista da TV Globo, que em duas oportunidades me deixou com o microfone na mão e passou batido antes mesmo da primeira pergunta.

Porém, tem sempre um porém, neste mesmo dia, na churrascaria Dois Gaúchos, também em Campos, proseei com Zico, ao vivo, em uma das melhores entrevistas que fiz durante estes trinta anos de “latinha esportiva”. Zico é brilhante e, alertado pelo que Júnior havia feito com este repórter, me levou para um canto do salão e por lá conversamos por longo tempo e falamos de sua contusão, de sua volta ao Brasil e dos títulos que conquistou com a camisa do Flamengo.

Vocês observaram que só os grandes personagens brilham? Antonio Lopes, ex-Vasco e outros times brasileiros, não tinha paciência conosco, Eurico Miranda passava batido e não falava, assim como outras figuras grotescas, mas Pelé um dia conversou comigo, conto em outro Papo de Bola, e Sócrates até sorveu um gole de cerveja com este escriba, sob os olhares críticos de Telê Santana, que me proporcionou uma exclusiva para a Rádio Princesinha do Norte. Conto depois.

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