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TOQUE DO SILÊNCIO, TEMA DE LARA E OUTRAS SAUDADES

Hoje o meu bom e querido amigo Renato Mercante, me enviou um e-mail com um anexo bem interessante e que me remeteu, como ele mesmo narra, a aurora de nossas vidas. Abri imediatamente, pois no texto o Renato fazia um comentário sobre a intérprete e a orquestra acompanhante, o fabuloso André Rieu. A curiosidade de ver alguém executando o “Toque do Silêncio” era bem maior do que qualquer coisa que me propusesse a fazer naquele momento.

“Como você muito bem sabe, Il Silenzio, (o Toque do Silêncio, como chamamos aqui no Brasil) é universal. Segundo me informei, em quase todas as forças armadas do mundo ele é o mesmo. Ele é tocado todas as noites, às 22 h, e em solenidades fúnebres de militares. As modulações podem variar. Nessa apresentação, ele é tocado por completo. É um toque lúgubre, mas, muito bonito”, disse-me Renato Mercante.

Eu já havia passado por este filmete, algum amigo havia me mandado, mas não abri temendo ser algum vírus ou por não ter curiosidade suficiente para tal. Não sei se foi naquele período em que emoções eram proibidas, mas o certo é que hoje fui surpreendido por uma guria espetacular, que sopra o piston como gente grande.

Isto me fez voltar o tempo e me ver nas ruas de Miracema, com um pedaço de borracha, improvisando um instrumento. Em uma ponta um esguicho de pia, que servia de bocal, e um funil, em outra ponta, tentando ampliar o som que eu fazia com aquele instrumento criado por mim.

As nossas serenatas no jardim, as esperas pelo início dos ensaios da Banda Sete, as reuniões da Banda Marcial do Colégio Miracemense, tudo isto passou pela minha cabeça e pela minha memória. Me vi ao lado do velho amigo Cagiano, que também é Adilson, preparando toques inéditos ou refazendo os já conhecidos, para que os jovens do colégio conhecessem e executassem nos desfiles em todas as cidades para onde a banda era convidada a se exibir.

Em um momento eu ouvi a voz do Mauro Cruz, o filho dos professores Manoel Soutinho e Maria do Carmo, que, sempre ao nosso lado, dava pitacos sobre o que tocar e como andava nossa audiência junto aos alunos e diretores do colégio. Os cornetões não tinham sons maviosos, serviam apenas para contracantos, e quando precisávamos de um voluntário, para testar novos toques, lá estava o Mauro, sempre atendo e disposto a colaborar.

Renato, e o “Tema de Lara”? Não vou me fazer de grande ou de importante, mas creio ter sido um dos primeiros a levar a música para o ritmo de dobrado e levá-la para as ruas como ritmo de marcha/dobrado. O arranjo do Cagiano, para as caixas, tambores e taróis foram perfeitos e a música faz sucesso até hoje nos desfiles cívico-escolares.

Nos carnavais de rua, hoje não são mais os mesmos, eu não podia fazer o que mais gostava, sair às ruas como um mascarado comum e não ser reconhecido. Tinha a praga, no bom sentido é claro, do piston que me acompanhava e me deixava vulnerável neste sentido. A turma do Colégio Nossa Senhora das Graças, liderada pelo Gilson e Zé Maria, saia como um bando de palhaços e, acredite Renato, o único a ser reconhecido era este seu amigo aqui, por que? Claro, pelo instrumento que já estava ligado a este hoje velho contador de causos e histórias.

Tudo é saudade. O Zé Luiz, nosso amigo Categoria, diz que vivo de saudades. Não, eu concordo com a Cintia, que um dia me disse: “Adilson, você não tem saudades do passado, você gosta de falar daquilo que te fez viver intensamente”. Correto, se isto é ter saudades este piston, este Toque do Silêncio, este Tema de Lara e estes belos carnavais de rua, sempre terão um lugar reservado na memória e neste peito rasgado e apaixonado pelas coisas de nossa terra.

Comentários

É amigo, quando lí este Papo meus pensamentos voltaram também ao passado que dista apenas 40 anos, rsrsr. Lá estava o Dity com seu pistom tocando O silêncio, quantas vêzes não é meu caro?
abs
Adilson Dutra disse…
É verdade, amigo, o tempo passa como um vendaval, mas deixou marcas maravilhosas. Nós temos histórias e não estórias prá contar para os nossos netos e muitos causos para relembrar com amigos, como você.
Abraço

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