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SOLDADO 42 - MAGALHÃES

O pior de chegar a terceira idade é o medo de perder o que há de melhor nesta vida, os amigos. Este 2009 me deu susto, me trouxe tristezas com os falecimentos de Luis Delco e Gustavo Rabelo, tio e sobrinho, duas gerações distintas, mas cada um com um lugarzinho guardado neste peito rasgado por uma cirurgia salvadora realizada em março.

Outros se foram, como a Gelsa, irmã de meu amigo Gilson, ausente há alguns anos do nosso convívio, mas sempre presente em nossa lembrança, aliás lembrança que hoje está detonada com a notícia da morte do Olegário Siqueira Magalhães, o nosso Olegarinho, o soldado Magalhães, número 42, do nosso TG 217. O Olegarinho bom de dança, bom de papo e um grande companheiro dos longínquos anos 50 ou 60, quando ainda crianças fazíamos nossa festa na Praça Dona Ermelinda ou nos gramados da prefeitura.

Éramos um grupo unido e fraterno. Júlio, Thiara, David, Olegarinho, Gilson, Gilberto, Chuta, Rogério, Valadão, Cagiano e tantos outros que vão chegando a minha mente e o pensamento é cortado quando me lembro de nosso comandante, o Sargento Couto, que está lá em cima recebendo seu Soldado Magalhães, um baixinho ruim de tiro mas ótimo de cabeça e coração.

Quando o Ralph me passou a notícia eu fiquei tranqüilo, talvez já esperando pelo pior, a última sobre ele não tinha sido nada agradável, mas em poucos minutos a dor tomou conta deste peito aberto e as lágrimas não demoraram a chegar neste rosto que durante muitos anos sorriu com as piadas e as tiradas interessantes do nosso Olegário.

Diziam que eu dançava bem, sei disto e não tenho a modéstia de dizer o contrário, mas Olegarinho era um bom pé-de-valsa, aliás puxou o João Rosquinha, seu irmão, que era um excelente dançarino, mas o mano não fazia feio e, nos bailes no Clube Social de Pádua, era um dos primeiros a puxar a dama para o meio do salão e iniciar as contra danças.

Muitos plantões lado a lado, não se assustem, não foram plantões médicos, eram jornadas noturnas na sede do TG 217 e eu, como cabo de guarda, o tinha sempre no comando e os plantões com ele ao lado era a certeza de que o sono não chegaria. Sempre alerta e sempre amigo ele despertava quem pensasse em tirar uma soneca em serviço ou a espera de suas duas horas do plantão à porta da velha sede do nosso Tiro de Guerra.

Nossa turma era boa de bola, Thiara, Júlio e David eram os craques, nós outros éramos os esforçados e até nos destacávamos, porém o Olegarinho era ruim demais e nisto não puxou um dos manos, Genuíno, um dos melhores jogadores que vi jogar em toda minha vida esportiva. Ele ia com a gente para as peladas, mas nem mesmo no TG, onde todos jogavam tudo, o cara não tinha lugar entre os reservas, pelo menos. Era sofrível com a bola nos pés ou nas mãos.

O que me deixa assustado, meu amigo Olegarinho, é que o tempo passou prá você e nós, seus amigos, não tivemos nem tempo de nos despedimos , você estava longe e distância nos impediu o último abraço, mas com certeza, não terei uma última lembrança de ti e guardarei com carinho todos os momentos felizes em que estava ao meu lado, dançando, rindo, contando piadas ou cantando, com esta voz desafinada, o Virundum ou Mula Preta, seus hits favoritos.

Comentários

Anônimo disse…
Você, como sempre muito inspirado. Fiz uma viagem no tempo.Bjs
Anônimo disse…
Você, como sempre muito inspirado. Fiz uma viagem no tempo.Bjs
Interessante observar que você conviveu longos anos da sua juventude com o Olegarinho e nós já o conhecemos maduro com sua família aqui em Japuiba e podemos orgulhosamente compartilhar das mesmas emoções descritas por você. Para nós o polêmico, o desconfiado, o falador piadeiro, também o batalhador incansável das noites em sua panificação. Preocupado demasiado com a vida e com o futuro de seus filhos, principalmente Olegário Neto e Antônio. "...Não queria para eles o que escolhi para mim. Se pudesse voltaria no tempo para fazer tudo diferente...". O saudosismo em suas conversas levam-no de volta ao tempo e nas lembranças, os amigos, os pais, os irmãos, enfim, sincero. A emoção descrita nas suas palavras, prezado ,nos traduz o sentimento de um verdadeiro amigo que Olegarinho ao longo de sua vida soube construir. Parabéns pela bonita homenagem que, agora, a fazemos também nossa.
Nivalde e familiares.
Japuiba - Cachoeiras de Macacu

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