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Tempo de pandemia

 Outro dia me peguei com saudade dos tempos de guri. Veio aquela imagem clássica: correndo pela rua, leve, solto, sem compromisso com nada além da próxima pelada.

Bonito, né?

Bonito… mas também meio mentiroso.

Porque ninguém lembra do dia em que foi escolhido por último. Nem do tombo feio que fez chorar escondido. Nem da bronca em casa por chegar sujo, rasgado e feliz. A memória tem esse talento: ela dá uma ajeitada nas coisas, passa um pano, dá um brilho.

E a gente agradece.

Saudade, no fundo, é isso: uma versão melhorada da vida.

Outro dia pensei nisso enquanto tomava uma cerveja — coisa que o guri que eu fui certamente trocaria por uma Coca-Cola bem gelada. Olhei em volta e percebi que ainda tem muita coisa boa acontecendo… só que de outro jeito.

Não tem mais corrida na rua, mas tem história pra contar.

Não tem mais joelho ralado, mas tem umas cicatrizes que rendem conversa.

Não tem mais a turma toda junta, mas tem aqueles poucos que continuam — e isso já vale muito.

A gente muda, o cenário muda, o elenco muda… mas o jogo continua.

E talvez seja por isso que a saudade aparece de vez em quando: não pra puxar a gente pra trás, mas só pra dar um toque no ombro e dizer — “ó, foi bom, hein?”

E foi mesmo.

Mas o curioso é que, enquanto a gente sente saudade do que viveu, lá na frente, alguém — talvez a gente mesmo — vai sentir saudade disso aqui que está acontecendo agora.

Até desse sábado qualquer.

Até dessa cerveja sem cerimônia.

Até desse silêncio que, às vezes, nem é tão vazio assim.

No fim das contas, a saudade não precisa ser peso. Pode ser só companhia. Daquelas que sentam ao lado, dão uma risadinha e vão embora sem fazer drama.

E a gente fica — aqui — vivendo mais um pedaço que, mais cedo ou mais tarde, também vai vi de oandemua rar lembrança boa.

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