quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno?

Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano.

Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”.

Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma.

O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como Pracinha, Leader, Mocambo...

O Vavate saiu e deixou o Zé Careca, que deixou os filhos e hoje o espaço não é mais aquele tradicional ponto de encontro de boêmios e amantes da sinuca, também já contei aqui neste pedaço.

O centro histórico não tem mais as lojas de materiais de construção do Neffá e do Jofre, não tem mais o magazine Lolinha ou os hotéis Palace e Braga, isto sem contar com o que já fechou um pouco mais acima, como a Fábrica de Tecidos, o Café Moka, o Hotel Barros e a famosa casa do Garcia, onde um jacaré empalhado era o destaque na fachada da loja.

Se a Rua Direita é o centro histórico o seu entorno deveria ganhar a mesma homenagem, porém, tem sempre um porém, não há mais a sociedade musical, de XV de Novembro, ali na Rua das Flores.

A “Furiosa” hoje é saudade. Ainda bem que a Sete de Setembro está em pé, mas em seus salões não há mais "arrasta pé" no famoso salão do Primavera Clube. O cinema Sete, logo abaixo, já faz parte do acervo da saudade.

O supermercado Magacho, do bom Clandírio, também não está mais no centro histórico, aliás, não está em lugar nenhum, ele se foi quando o seu proprietário também deixou este mundo de meu Deus.

Bem, ainda resta o Bazar Leader, que está de pé e com cara moderna e hoje tem nome e estrutura diferente daquela que um dia foi a única da cidade a atender toda região. Aliás, diga-se de passagem, o Rei dos Barateiros também sobrevive e a Samaritana está de pé e a ordem, felizmente um parágrafo otimista.

Nos tempos modernos o chamado Centro Histórico de Miracema já não “bomba” mais, usando o linguajar dos mais jovens, aliás, estes não desfilam pelas calçadas e nem sentam nos degraus do Crédito Real, que deu lugar a Caixa Econômica, a espera do par perfeito.

Nos tempos atuais apenas o barulho dos carros de som, dos jovens descolados, fazem ruído no único ponto de encontro da Rua Direita, o Kiskina Bar.

A Praça Dona Ermelinda foi modificada, deram a ela a cara dos anos 30, e o jardim, belo e bem cuidado, continua o mesmo.

O futuro não foi legal com o chamado Centro Histórico de Miracema, de história mesmo, repito, só sobraram alguns casarões, muito pouco para quem ganhou o apelido magnânimo de seus apaixonados moradores.

Não podemos culpar quem quer que seja, afinal isto é o progresso e como ninguém “brigou” por isto no momento certo o tempo passou e a história do município só pode ser vista através de fotos ou por narrações de contadores de causos ou por historiadores apaixonados pela nossa Miracema.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O ÁRBITRO PERFEITO

Fase decisiva do campeonato da zona rural e um empate bastava para o time do Tio Sam, da Fazenda Campo Belo, e o jogo era no campo do Primeiro de Maio, da Fazenda Piracicaba, que precisava vencer por dois gols de diferença já que perdera a primeira partida, no campo do adversário.

A liga mandou o melhor árbitro para o jogo, Agnelo Mercedes, um ítalo-brasileiro que andou apitando campeonatos importantes na zona da mata mineira e parecia ser o homem certo para este jogo decisivo e esquentado. A rivalidade era do tamanho de um Fla x Flu. O embate começou nas cores das camisas, o Tio Sam vestia o seu tradicional preto e branco, com listras verticais e o Primeiro de Maio foi prá campo com as mesmas cores, só que com listras horizontais.

Prá definir um sorteio para saber quem trocaria o uniforme. Agnelo Mercedes já mostrava autoridade e o pessoal da casa gostou quando ele não autorizou a subida da moeda e mandou o time visitante vestir outro uniforme. Como não tinha outro uniforme, time de zona rural não se dá o luxo de ter dois modelos, foi obrigado a jogar com camisas azuis, de treino, do time da casa.

Bola rolando e Agnelo Mercedes mandava na partida e o jogo, que ameaçava ser aguerrido, foi ficando nas mãos do árbitro e tudo normal. De vez em quando ele chegava ao treinador do Tio Sam e gesticulava mostrando o caminho da rua. A galera, encostada no muro e lá nas improvisadas arquibancadas, ia ao delírio com as “broncas” em cima do treinador.

No intervalo mais broncas. O jogo estava empatado (0x0) e o resultado dava a classificação para os visitantes. O time local nem foi até a casa, que servia de vestiário, preferiu ficar em campo, como fizera o Tio Sam, para continuar sentindo o clima do jogo.

Segundo tempo e, sem o sol quente, os dois times resolveram correr um pouco mais e o jogo ficou elétrico. Bola na trave do Tio Sam e no rebote o Primeiro de Maio marcou. Com 1x0 no placar o treinador local preferiu garantir o resultado e armou a retranca.

Daí em diante o pau cantou na defesa do Primeiro de Maio e Agnelo Mercedes foi à loucura, era tudo que ele queria. Falta na entrada da área. Gil Márcio cobrava e... Bola nas nuvens. Mais uma falta, do outro lado e... Lá estava Gil Márcio isolando a redondinha. Agnelo olhava o relógio e, mais uma vez, foi ao banco do Tio Sam gritar com o treinador.

Só que desta vez o repórter ouviu e caiu na gargalhada:
- Tira este camisa 10 ou mande outro bater as faltas, não dá prá segurar mais e nem inventar faltas, gritava Agnelo Mercedes com o cartão na mão.

O tempo chegava ao final e o centro avante Juca cai na área do Primeiro de Maio e Agnelo manda prá marca do pênalti. E que se apresenta para cobrar? Ele mesmo, Gil Márcio.
Agnelo foi andando e perguntou baixinho:
- E o senhor que irá cobrar?
- Sim, sou eu, por quê?
Sem pestanejar o experiente árbitro tirou o cartão vermelho do bolso e mostrou ao meia e capitão do time.
- Sem ofensas, o senhor está expulso.
Ninguém entendeu a expulsão, mas o zagueiro Pereira ajeitou a bola e cobrou com perfeição empatando a partida. Tio Sam classificado.

E enquanto isto o repórter da cidade caia na gargalhada e ninguém entendia o porquê de tanto riso. Até hoje o Primeiro de Maio aplaude Agnelo Mercedes, que fez uma exibição de alto nível e até saiu aplaudido pela torcida, coitada, que ainda não entendeu a conversa entre técnico e apitador na boca do túnel do Tio Sam.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

CLUBES DO RIO CANTAM GONZAGUINHA

Torcidas unidas, jamais serão vencidas... Que beleza! Diga, meu amigo torcedor, minha amiga torcedora, qual é a frase mais usada neste final de ano esportivo?

Eu fico com “começar de novo”. Bem, e aí eu passo em revista a obra do saudoso Gonzaguinha e vejo que o moço tinha suas razões, mesmo não falando explicitamente em futebol a gente sente, que em alguns versos, a prosa serve para os sofredores de 2010.

“A fé no que virá e a alegria de poder olhar prá trás...”, é mais ou menos assim que a turma do Flamengo cantará na virada do ano. Fé no amanhã e o ontem como exemplo e, caso dê certo, lá pelo meio do ano poderá repetir e de novo cantará Gonzaguinha em “Começaria tudo outra vez”, e dirá: “E então eu cantaria a noite inteira como já cantei, e cantarei, as coisas que já tive, tenho, eu um dia terei”.

Para os vascaínos, que não sabem o que é um título há algum tempo, os mais apaixonados me dirão: “Há um titulo da Série B no currículo, em 2009”. Se for a “vera” vou entender porque o Fluminense só agora colocou aquele da Terceira Divisão no seu cardápio de conquistas. Depois de gritar “é campeão” na elite vale a pena recordar o sofrido título de 1999.

“Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder o que não mais para ocultar”, canta Gonzaguinha em “não dá mais prá segurar”, e o “Grito de Alerta” vem da torcida vascaína, em coro, para Roberto Dinamite. A hora é essa, presidente, não dá mesmo para segurar mais as pontas. Eu vai ou desce do bonde para que outro assuma o controle e bonde de São Januário nos trilhos.

Lá no Botafogo Joel Santana não sabe se fica e pode estar dizendo assim: “São tantas coisinhas miúdas, roendo, comendo, arrasando aos poucos...”. Seria o caso Jobson que está botando o Natalino nervoso? Ou seriam vários convites para deixar o Engenhão e buscar um novo rumo na carreira? E o presidente alvinegro dirá: “Nosso caso é uma porta entreaberta e eu busquei a palavra mais certa...” ou seja, fica conosco Joel.

E os tricolores se esbaldam nos bares da vida: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eteno aprendiz...”. Dá-lhe Fluminense FC o clube tantas vezes campeão.

O menino Cássio, meu personagem nas histórias do Papo de Botequim, canta feliz a vitória do seu tricolor. “É a primeira vez e a primeira vez a gente nunca esquece”. E ao ver o menino, hoje um homem feito, casado e querendo um herdeiro tricolor, cantando Gonzaguinha eu entendo tudo o que passa na cabeça destes jovens torcedores.

“Guerreiros são pessoas, são fortes, são frágeis, guerreiro são meninos por dentro do peito...” parece até que este grito não vem do gogó afinado do Gonzaguinha e sim das arquibancadas iluminadas do Maracanã ou Engenhão, onde a festa do Fluminense sempre é colorida de verde, grená e branco.

E, no Estadual todos estarão soltando o “Grito de Alerta”, estarão com o peito “Sangrando” e um “Ponto de Interrogação” estará no ar a espera do “Começaria Tudo Outra Vez”.

domingo, 5 de dezembro de 2010

O CANHÃO DO TOTONHO

O jogo valia pelo campeonato de distritos, o Areias tinha no seu campo a grande arma para vencer o time de Santa Inez. Totonho, o canhão era a estrela do Areias. O chute certeiro e potente do zagueiro destruía qualquer defesa ou esquema montado para deter o time da casa.

Em todo campeonato o Areias venceu todas em casa, cinco vitórias com gols decisivos de Totonho, o canhão. Durante os jogos a torcida ficava à beira do barranco para ver de perto a destruição provocada pelos petardos do craque.

Falta na entrada da área, que em um campo normal seria mais do que uma penalidade máxima, e lá vai Totonho: Bomba... Gol... E mais uma bola espremida contra o barranco.

- Vejam só quantos buracos existem na encosta! Diz um animado torcedor, contando pelo menos vinte buracos provocados pelos petardos de Totonho.

- Isto aqui, apontando para o buraco no barranco, significa um gol e como temos mais de vinte “tocas de tatu” (você já viu como é uma toca de tatu?) o nosso ídolo fez mais de vinte gols este ano, pois a prefeitura ainda não mandou os homens para arrumar isto aqui.

Chega o dia da decisão. O campinho está lotado. O Santa Inez vem com tudo para segurar o bom time de Areias em seu campo, mortal para todos os adversários. Roberto, o treinador, manda a última ordem antes do apito inicial de Tuniquinho, o melhor arbitro da região: “Não façam faltas, deixem os atacantes fazerem o que quiserem, só não pode fazer faltas depois do meio campo”.

Aquela instrução poderia parecer meio confusa, mas não era. O time de Areias se resumia no bom futebol e no chute mortal de Totonho, artilheiro com quinze gols na temporada, seus atacantes eram tremendos pernas de pau e não metiam medo em ninguém. Porém, tem sempre um porém,sabiam cavar faltas como um Neymar ou um Kléber, por isto o medo de Roberto.

Jogo chegando ao fim e nada de gol. Totonho, bem marcado, não conseguia ir a frente para tentar o chute de misericórdia. Roberto tinha razão, o ataque do Areias nada fazia, mas eis que, aos 45’ do segundo tempo, um toque de mão dentro da área, de um zagueiro do Santa Inez, e Tuniquinho não teve outra alternativa a não ser marcar a penalidade máxima.

Depois de algumas reclamações, sem sentido, bola na marca da cal e lá vai Totonho, aplaudido pela multidão, para cobrança da penalidade. O time do Areias ficou perfilado no meio campo, todo mundo de mãos dadas, inclusive o goleiro Benedito. Na orla do campo, não havia arquibancada, o silencio era total e lá atrás, no barranco, torcedores já faziam aposta para saber onde Totonho enterraria a bola do jogo.

Explico melhor: O tal barranco fica bem junto a rede do gol que dá para o botequim do Messias, que a esta altura do campeonato está repleto de gente e todos prá lá de Bagdá.

Lá vai Totonho, eu já disse que o time do Areias está todo perfilado na linha divisória do gramado, e a contagem regressiva para o título começa: Um... Dois... Três... Fogo....

Bomba de Totonho, bola na trave e a trajetória de retorno é acompanhada por todos, atônitos e apavorados. A bola subiu e começa a cair lentamente em direção ao gol, não do goleiro do Santa Inez, mas na meta do Areias, desguarnecida pelo Benedito, que foi comemorar antecipadamente lá no meio campo.

Bola descendo e quicando na pequena área, dez homens correndo atrás da pelota tentando salvar o que seria um castigo para o craque Totonho, o canhão. Torcida ainda calada e apenas um grito de gol, vindo banco do Santa Inez, era de Roberto, o único com os olhos abertos gritando e comemorando o título do Campeonato dos Distritos.

Gol contra de Totonho, o canhão, que desolado largou o campo em silencio e nunca mais retornou a Areias. Foi defender seu Paraíso, onde o campo é um pouco maior e jamais correrá o risco de mandar o seu canhão na trave adversária e ver a sua grande aliada morrer mansamente na linha de gol de seu time.

Santa Inez 1 x Areias 0. Pode conferir com o Abraão, lá no Braseirinho, ele tem tudo anotado e há o testemunho do Paulinho, que afirma ter assistido a decisão lá no Distrito de Areias.

40 anos se passaram

  Guarânia, 40 anos e outras           armadilhas do tempo Cuiabá, virada dos anos 70 para 80. Calor, gente suando elegância e promessas de ...