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Mostrando postagens de março, 2026

A Merche do Lúcio

  O Bar Pracinha e o “Merche” Mexido O Bar Pracinha, que conheci na esquina da Rua Francisco Procópio com a Rua Direita, guarda histórias incríveis e personagens inesquecíveis. Ali passaram ricos e pobres, brancos, negros, mulatos e índios. Gente de todo tipo viveu momentos especiais naquele que, no meu ponto de vista, foi o bar mais elegante da cidade. Principalmente no prédio antigo, o da famosa esquina, já comentado em outras crônicas. Havia ali uma atmosfera que lembrava os bares europeus dos anos 1950 — balcão imponente, garçons atentos, conversa alta e aquele ar de importância que só certos lugares conseguem manter. Conheci o Pracinha já na administração dos Irmãos Salim — Jofre, Nacif e José — vindos de Palma, Minas Gerais, para viver seus grandes momentos em Miracema. Com amor, dedicação e espírito inovador, comandaram o estabelecimento numa época em que o município vivia talvez seu melhor momento comercial e industrial. Cada um que frequentou o Pracinha até seu fechamento ...

Cajá e tiro de sal

  Tiro de Sal, Cajá-Manga e Rua Direita Relendo esta crônica, escrita há alguns anos, percebo que já havia ali uma vontade de segurar o tempo pelas mãos. Hoje, com mais estrada percorrida, entendo melhor: não eram apenas lembranças. Era gratidão. Gratidão por ter vivido uma Miracema de portas abertas, quintais generosos e amizades que atravessaram décadas. Andando pelas calçadas de Miracema, olhando os belos casarões da Rua Direita e admirando a beleza do nosso Jardim, encontro dois amigos da velha guarda: Naipe — Luiz Alberto Aguiar — e Jorge Neiva, nosso querido Dodote. Bastou o cumprimento para que um punhado de recordações viesse à tona. Vieram gargalhadas. Vieram lágrimas. Lágrimas de alegria por estarmos vivos… e de tristeza ao perceber como o tempo passou rápido demais, levando tantos amigos queridos do nosso convívio. Minha prima Janete passou, parou, me deu um abraço e um beijo apressado: — Depois a gente se fala com calma, vou ali na Leader ver algo para minha mãe. ...
 Tiro de Sal, Cajá-Manga e Rua Direita Andando pelas calçadas de Miracema, olhando os belos casarões da Rua Direita e admirando a beleza do nosso Jardim, encontro dois amigos da velha guarda: Naipe — Luiz Alberto Aguiar — e Jorge Neiva, nosso querido Dodote. Bastou o cumprimento para que um punhado de recordações viesse à tona. Vieram gargalhadas. Vieram lágrimas. Lágrimas de alegria por estarmos vivos… e de tristeza ao perceber como o tempo passou rápido demais, levando tantos amigos queridos do nosso convívio. Minha prima Janete passou, parou, me deu um abraço e um beijo apressado: — Depois a gente se fala com calma, vou ali na Leader ver algo para minha mãe. Saiu andando e deixou no ar a pergunta: — Quem é a moça? Respondi: — Filha da tia Maria, neta do Seu Pedrinho Soares. Foi o bastante. Naipe abriu aquele sorriso antigo: — Eita! Quantas vezes entramos no quintal do Seu Pedrinho para pegar cajá-manga! E lá em cima, subindo pelo Ribeirão Santo Antônio, tinha o pomar do Seu Lino...

O dilema do aluno

  Músi.,q wcas de Ptarque de Diversões Na noite passada recebi a visita do amigo e vizinho Marco Aurélio Motta. Sentamos para ouvir as músicas dos tempos de “pé de valsa do Grêmio do Nossa Senhora das Graças. Ele, dos salões do Automóvel Clube Fluminense. O repertório era praticamente o mesmo: Beatles, Elvis, Bee Gees, Roberto Carlos, Os Incríveis e tantos outros que embalaram os anos 70. Mas 。,畕 há sempre um porém. Existe um sonho que pousava em Miracema nos anos 60. Tenho no Spotify uma playlist que volta e meia coloco para tocar: “Músicas de Parque de Diversões”. E não é por acaso. Uma das m4./~inhas formas de ganhar dinheiro para o cinema e para as noites na Rua Direita, depois das sessões do Cine XV, era trabalhar nas cabines de música dos parques que armavam seus brinquedos na pracinha em frente ao Colégio Nossa Senhora das Graças, na Avenida Nilo Peçanha. Eu ficava ali, entre discos e alto-falantes, ganhando minhas pratinhas — se não me falha a memória, um cruzeiro por músic...

Sou de,Miracema

 Sete Eu sempre digo que já fiz de tudo na minha Miracema. Hoje começo a contar um pouco do que fiz, do que fui e do que deixei de bom na terra que me viu nascer — e que aprendi a amar com toda a força. Fui músico, joguei futebol, cantei em conjuntos e festivais. Fui locutor de carro de som e da nossa Rádio Princesinha. Atuei como dirigente do Grêmio do Miracemense e, se não me dei bem na Maçonaria, não foi por minha culpa. No Rotary Clube deixei minha marca — até o dia em que deixei a cidade para tentar a sorte em outro destino. Mas começo minha história com Miracema por um amor especial. Poderia falar das peladas do Ginásio, do nosso Vasquinho ou dos teatros do Prudente de Moraes. Poderia começar pelo rádio ou pelo futebol. Escolhi começar pela música. Escolhi começar pela Sociedade Musical 7 de Setembro — nossa tradicional e centenária Banda Sete, famosa e inesquecível. Foram seis anos por lá, dos 14 aos 20. Convivi com grandes músicos e maestros. Aprendi com José Viana e com o ...

O Jardim

  Os Bancos do Jardim   Bancos do Jardim O Jardim de Miracema sempre foi meu refúgio. Prefiro os bancos mais afastados da passagem principal. Sento ali e deixo que as lembranças façam o que sabem fazer melhor: voltar sem pedir licença. A praça e seus arredores têm algo de mágico — talvez porque ali eu tenha vivido alguns dos momentos mais intensos da minha vida. Meu velho guru, Ermenegildo Solon, dizia que sentar naqueles bancos era santo remédio para quem carregava história. Ele tinha razão. Daquele ponto, enxergo o antigo Jardim de Infância Clarinda Damasceno e revejo as professoras — não “tias”, como hoje se diz, mas professoras, donas de respeito e autoridade serena. Não cito nomes para não cometer injustiça com alguma. Você que viveu aquele tempo certamente se lembrará da sua. Viro o olhar e encontro o Rink. E ali estou outra vez, correndo atrás da bola — fosse de salão, de vôlei ou de basquete. Aquela quadra era sagrada. Já contei histórias dos craques que brilharam ...

Onde canta o sabiá?

 Onde Canta o Sabiá? Alguns sucessos do meu tempo de criança e juventude ainda me visitam de surpresa. A bossa nova era uma das minhas preferidas. E basta ouvir um verso para que eu me veja outra vez de calça curta, sentado na calçada da Prefeitura, com um talo de mamão transformado em canudo, uma caneca de alumínio com água e sabão, soprando bolhas que viravam bolas, bolinhas e bolões. Hoje, as crianças da geração Luna e Felipe — meus netos — compram brinquedos prontos em lojas especializadas. Nós inventávamos os nossos. Lembrei dessa peraltice ouvindo uma música interpretada por Doris Monteiro. Em determinado momento ela canta: “Sentado na calçada com canudo e canequinha…” Foi o bastante. Um verso apenas — e lá estava eu, de volta à minha Miracema. Outro dia, ao postar uma crônica no Facebook, alguém contestou minha paródia de Gonçalves Dias: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá…” Disseram-me que sabiá não canta em palmeiras. Tudo bem. Mas afinal, onde canta o sabiá? Ta...

Parque de diversões

  Músicas de Parque de Diversões Na noite passada recebi a visita do amigo e vizinho Marco Aurélio Motta. Sentamos para ouvir as músicas dos tempos de “pé de valsa”. Eu, do Grêmio do Nossa Senhora das Graças. Ele, dos salões do Automóvel Clube Fluminense. O repertório era praticamente o mesmo: Beatles, Elvis, Bee Gees, Roberto Carlos, Os Incríveis e tantos outros que embalaram os anos 70. Mas há sempre um porém. Existe um sonho que pousava em Miracema nos anos 60. Tenho no Spotify uma playlist que volta e meia coloco para tocar: “Músicas de Parque de Diversões”. E não é por acaso. Uma das minhas formas de ganhar dinheiro para o cinema e para as noites na Rua Direita, depois das sessões do Cine XV, era trabalhar nas cabines de música dos parques que armavam seus brinquedos na pracinha em frente ao Colégio Nossa Senhora das Graças, na Avenida Nilo Peçanha. Eu ficava ali, entre discos e alto-falantes, ganhando minhas pratinhas — se não me falha a memória, um cruzeiro por música, metad...

A nuvem do Polaca

A Pelada Lá de Cima Dizem que a turma lá de cima anda com saudade da bola — e talvez até com uma pontinha de inveja daqueles que ficaram por aqui e ainda fazem a festa no fim de ano. Sentado em sua nuvem particular, com direito a mulatas, samba e um campinho exclusivo, Jair Polaca resolveu agir. Mandou chamar Milton Cabeludo para um papo cabeça no seu reduto celestial. Cabeludo foi — e não foi sozinho. Levou Juarez Beiçola e outros contemporâneos. No caminho, passaram pela nuvem de Silvinho, que tinha saído para visitar o pai, Maninho. Ali por perto também estavam Pernoca e Lauro, que se juntaram ao grupo. Maninho, avisado do movimento, foi localizado e levado à nuvem do Polaca, onde a conversa já fugia do controle. Foi preciso organizar a coisa. Polaca ligou para Gérson Coimbra. Seu Gérson chegou, colocou ordem na casa e começou a distribuir funções — mas precisava de Clarindo, que ainda não havia sido encontrado. A notícia do encontro correu rápido pelas alturas. Pintinho, com...

Papo com Municipal

  Conversa com o Estádio Cara, quando eu te conheci mal sabia falar direito. Vinha trazido pelo Nijel ou pelo Alvinho. Hoje estou aqui, já grandão, falando em você, sobre você — praticamente conversando contigo — que durante tantos anos me deu um punhado de alegrias. Tristeza? Jamais fiquei triste ao lado deste velho moço que agora recebe roupa nova e se porta como se tivesse novamente poucos meses de vida. Quantas vezes cheguei aqui sozinho, falando baixinho, dizendo que um dia seria famoso, que jogaria em um grande time brasileiro… Quanta ilusão. Você não respondia. Ficava calado. Seu silêncio parecia prever que nada disso aconteceria. E não aconteceu. Você viu passar por aqui Lauro Carvalho, que cracaço. Viu Milton Cabeludo, meu primeiro ídolo. Viu nascer a geração Rink, liderada pelo incrível — e gordo — Chiquinho Maracanã. Viu o Tupan surgir, com meu velho pai, Zebinho, jogando ao lado de Olavo Cueca, Noqueta e tantos outros da geração dos anos 20. Jamais poderia imaginar...

Beatles e outros

  Viver de Saudade Ontem, numa dessas mensagens que recebo diariamente pelo celular, deparei-me com uma dizendo que “viver de saudade é maléfico”. Mas como? — perguntei. Como não viver de saudade, se é de saudade que vivo? Minhas lembranças são maravilhosas. Minha vida foi vivida intensamente e hoje, já chegando às bodas de diamante — de idade, não de casamento (75 anos, para quem não sabe) — não posso fazer um por cento do que fazia nos tempos de que sinto saudade. Certo? Na semana passada, por exemplo, vi um documentário dos Beatles no Canal Bis, da Globoplay, e voltei cinquenta anos no tempo. Fui e voltei ao Grêmio do Nossa Senhora das Graças ouvindo Let It Be e Don’t Let Me Down. Dancei novamente ao som do belo repertório escolhido por Gilson Coimbra e revi, ao menos nas imagens guardadas no meu cérebro, as meninas com quem dancei e vivi aqueles momentos maravilhosos. Viram só? Como não ter saudade? Como isso pode fazer mal a uma pessoa normal, que viveu grandes momentos e part...

Um remédiio? Vá para Miracema

  Remédio Chamado Jardim Andava meio cabisbaixo. Uma tristeza querendo chegar, forçando a barra, rondando feito sombra. Resolvi ir a Miracema passar uns dias com amigos. Talvez o alto astral, que sempre me dominou, voltasse com a presença de gente que gosto — e que sei que gosta de mim. Já disse aqui: o Jardim de Miracema e seus bancos sempre foram meus refúgios. Sempre escolho um mais afastado do fluxo principal. Sento ali e começo a recordar. E como recordo. Como dizia meu velho guru, Ermenegildo Solon, sentar ali é santo remédio — principalmente para quem viveu intensamente aquele entorno mágico. Olho para o Jardim de Infância Clarinda Damasceno e revejo as professoras maravilhosas. Não as chamávamos de “tias”. Eram professoras, ou dona — sempre com respeito. Não cito nomes para não cometer injustiças, mas você que viveu esse tempo faça o exercício: lembre da sua primeira professora. Nos bancos do jardim, volto o olhar para o Rink. E lá estou eu, correndo atrás da bola — f...

Seresta no Amado 2

  A Seresta no Bar do Amado Amado era um sujeito simpático, amigo antigo do meu pai. Como ele, também mantinha um bar — com freguesia variada e fiel. Havia apenas uma diferença: o nosso, em frente à Prefeitura de Miracema, fechava cedo. Meu avô e meu pai encerravam as atividades logo após o anoitecer. Só em festas da igreja ou da cidade funcionava até mais tarde. Já o bar do velho Amado ganhava vida justamente no fim da tarde e no cair da noite. Recordo que ele mudou de endereço três ou quatro vezes. Conheci o primeiro, na Rua da Capivara. Depois, já quase adulto, tocando e cantando no Conjunto do Zé Viana na Sociedade Operária, reencontrei o Bar do Amado no térreo do prédio. No andar de cima, os bailes; embaixo, o botequim servindo petiscos e bebidas para os rapazes e moças que subiam as escadas para dançar ao som do nosso conjunto. Mas foi no penúltimo endereço — na Rua do Biongo, lá no final — que aconteceu o episódio que ele jamais esqueceu. Muitos se lembrarão do Sargent...

Serestga no boteco do Amado

  A Seresta no Bar do Amado Amado era um sujeito simpático, amigo antigo do meu pai. Como ele, também mantinha um bar — com freguesia variada e fiel. Havia apenas uma diferença: o nosso, em frente à Prefeitura de Miracema, fechava cedo. Meu avô e meu pai encerravam as atividades logo após o anoitecer. Só em festas da igreja ou da cidade é que funcionava até mais tarde. Já o bar do velho Amado ganhava vida justamente no fim da tarde e no cair da noite. Recordo que ele mudou de endereço três ou quatro vezes. Conheci o primeiro, na Rua da Capivara. Depois, já quase adulto, tocando e cantando no Conjunto do Zé Viana na Sociedade Operária, reencontrei o Bar do Amado no térreo do prédio. No andar de cima, os bailes. Embaixo, o botequim servindo petiscos e bebidas para os rapazes e moças que subiam as escadas para dançar ao som do nosso conjunto. Mas foi no penúltimo endereço — na Rua do Biongo, lá no final — que aconteceu o episódio que ele jamais esqueceu. Muitos se lembrarão do ...

Os bailes das varandas

  Bailes de Varanda Sei lá… acho que já se vão cinquenta anos — ou mais — daqueles bailes nas varandas das nossas casas, lá na Terrinha. Os garotos de então já têm netos quase na idade que nós tínhamos. E o som que ouvíamos dificilmente cairia no gosto da moçada moderna. Uma  Sonata  — que ainda deve estar guardada em algum canto para matar a saudade — resolvia o problema. Compactos simples ou duplos, alguns LPs bem escolhidos, garantiam duas ou três horas de dança sem maldade, sem culpa e, às vezes, com um rostinho colado e nada mais. Era tempo de felicidade pura. De simplicidade. De música de qualidade. A nossa varanda, na casa em frente à Prefeitura, era uma das preferidas da turma. Ali perto, na casa do Seu Neném Braga, outro território aprovado pela rapaziada. Mais abaixo, na do Seu Noqueta, também aconteciam bailinhos que viraram febre na cidade. Em todos os bairros surgiam convites para dançar ao som de Trini Lopez, com suas guarânias e o eterno “La Bamba”, aquele ...

O Coreto e a bola

  O Coreto e a Bola A Praça até que ganhou uma bela roupagem. Há uns trecos esquisitos por ali — dizem que é arte moderna. Vejo gente passeando de mãos dadas, dois recém-enamorados talvez. Um carrinho de bebê surge do nada. E com ele, as lembranças. Começo a fitar aquele pedaço de terra com mais firmeza. O tempo parece voltar num movimento brusco e inesperado. Num segundo apenas, me vejo com o joelho ralado e o olho roxo — resultado de um salto errado e de um choque com aquela arvorezinha que ficava bem atrás do nosso coreto. Abro os olhos — e não estou no presente. Há gritos naquele chão. — Eu só jogo se for na linha! A bola é minha e ponto final! Era o filho do político, impondo condições no racha. — Entra aqui, Penacho! Sua vaga tá garantida! — gritava Nenê, escalando os amigos. O dono da bola mal sabia que o que todos queriam era tirar uma lasquinha da novidade. Bola nova era raridade naquele pedaço de mundo. — Venha, Penacho! Venha estrear a bola de couro! E lá fui ...