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Joca e Napoleão valem ser lembrados por nós

Esta semana o Telecine, canal de cinemas da GloboSat, mostra a refilmagem do famoso faroeste dos anos 60, "Sete Homens e Um Destino", não estou aqui para comentar as atuações dos novos artistas nem fazer comparações destes com os veteranos, sequer me lembro dos nomes dos velhos personagens e interpretes, mas o que me traz aqui é a lembrança dos bons faroestes, nos Cines XV e Sete, nas matinês de sábado e domingo. 

E revendo estas fitas, assim a gente chamava os filmes naquele tempo, me recordo de um personagem maravilhoso, lá da terrinha, o Joca, que torcia desesperadamente para o bandido, era raro o filme em que o Joca não "brigava" com o filme e discutia veementemente com os atores em cena. Era espetacular, um capítulo  a parte em todas as fitas de bang bang. 

Lembrando do Joca, dos filmes de ação, me lembro das grandes mentiras que transformam os personagens em verdadeiros heróis, nos tempos de hoje a refilmagem de "Missão Impossível" é o marco da mentira legal, e aí me vem a mente um outro personagem miracemense folclórico, que ficou famoso pela fama de mentiroso, o que, segundo meu avô, era uma tremenda mentira e invencionice do povo. 

Será que Napoleão não era mesmo o "Rei da Mentira"? Será que meu avô, Vicente Dutra, tinha razão em dizer que foi o povo que inventou esta lenda? Sei lá. O Oziel, meu antigo barbeiro da loja em frente a Igreja Matriz, debaixo de seu silêncio, pouco falava e quando emitia voz saia um sursuro, jeito simples de um homem educado e fino, mas o Oziel contava um belo causo do Napoleão, que deve ser de conhecimento de muitos de minha geração. 

- Certo dia, conta o barbeiro Oziel, Napoleão vinha apressado, dizendo que não tinha tempo para nada, viu a barbearia cheia e resolveu apelar. 
- Que quer, Napoleão? Pergunta o Ailton Barbeirão, companheiro novato de Oziel.
- Queria fazer a barba e cortar o cabelo, responde Napoleão mas tem muita gente e vou esperar um pouco mais, vou ali na Rua Direita, tem um incêndio na fábrica de tecidos que está queimando tudo. Daqui a pouco eu volto, disse o nosso personagem de hoje. 

O pessoal saiu correndo, uma notícia desta não pode deixar de ser vista "in loco" e o salão ficou vazio, as cinco pessoas da fila saíram em disparada rumo a fábrica de tecidos para ajudar ou apenas xeretar o tal incêndio. 
- E você, Napoleão, não vai ver? 
- Que nada, vou aproveitar que todo mundo saiu e vou fazer a barba e o cabelo, pode ser? 

E o Oziel trabalhou e também não foi ver o tal incendio, que só existiu na cabeça de Napoleão, astuto inventor de causos para levar vantagem como esta, mas no fundo ele realmente não era um mentiroso. Ou era? 

Ah! Se o incêndio aconteceu? Claro que não, foi mais uma história do Napoleão, aquele que ganhou fama de mentiroso sem nunca ter sido. 

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