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Personagens de uma cidade: Um pouco de Neca Solão e Adão Paroquena

Da série personagens de nossa infância. Eu vou dar um pulo até o Coreto da Praça da Matriz e rever o Neca Solão, um cara do bem, que vivia por ali e rondava a praça chegando até assustar as crianças, e eu, ainda bem guri, não tinha medo porque ele frequentava o bar do meu avô e me chamava pelo nome dele, Vicente.

Não tenho muita lembranças dele fora dali, não o conheci muito bem, afinal eu era um menino apenas, mas me lembro bem do Adão Paroquena, figura doce quando sóbrio e agressiva quando os garotos implicavam com ele, tinha um problema psiquiátrico sério mas os meninos da cidade pouco se importavam com o problema do moço e os pais diziam que ele ela alcoólatra,  o que não correspondia a verdade vivida por ele. 

Me lembro muito bem do Paroquena, que tinha um coração de ouro, educado e que também frequentou o nosso bar para "filar" um pão com manteiga e um café com leite que minha vó Maria sempre lhe oferecia. Certo carnaval, não me cobrem o ano, eu me vesti de mascarado e caí na asneira de enfrentar o sol das duas da tarde, que naquele tempo já era tão quente quando ao que hoje a turma vive a reclamar no Facebook e vou contar abaixo o que o Adão fez comigo.

Na Rua Direita o Vavate construía sua casa e as pedras (britas) estavam todas na calçada e o artista aqui, todo vestido de palhaço e com os pés queimando, tropeçou e caiu sobre as britas e por lá ficou, machucado e chorando de dor. Quem me socorreu? Ele, Adão Paraoquena, que tirou a minha máscara e viu quem eu era e me tratou com um carinho que só os caras do bem fazem. 

- Você é neto do seu Vicente? Perguntou-me Adão, que ao receber a resposta positiva me pegou pelo colo, o cara era forte como um touro, e me levou até a farmácia do Josias, a poucos metros dali, e explicou o que aconteceu, ele viu toda a cena. 

A turma, me lembro muito bem da cena, se espantou e o Nini, que trabalhava por ali, agradeceu e me perguntou se era mesmo o que ele falava, claro que achando que eu poderia ter sido agredido pelo Adão Paroquena, e com o curativo feito, o sangramento estancado, ele, o Adão, me deu a mão e me levou até a minha casa onde, claro, foi agraciado com um belo prato de almoço oferecido pela minha mãe, Dona Lili. 

Quando eu ouço a frase "Os brutos também amam" eu me lembro do Adão Paroquena, um diamante não lapidado e que a cidade transformou, através dos garotos inocentes, em um vilão e quase bandido. 

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