Adilson Dutra – Uma vida dedicada ao esporte e ao rádio
Minha história no jornalismo esportivo começou muito antes dos microfones. Nasceu ainda menino, na Praça Dona Ermelinda, em Miracema, onde o futebol já corria em minhas veias e ocupava boa parte dos meus sonhos.
Em 1979 cheguei a Campos, cidade que ainda não carregava oficialmente o sobrenome "dos Goytacazes", mas já era intrépida, acolhedora e formosa, como a definiam seus poetas e cronistas. Ali encontrei o palco ideal para viver intensamente minhas maiores paixões: o jornalismo, o rádio e o futebol.
Foram vinte e cinco anos de dedicação ao esporte campista, período em que acompanhei de perto as histórias de Rio Branco, Americano e Goytacaz. Tive a honra de conquistar o respeito das três torcidas, que sempre me acolheram com carinho e confiança. Até hoje muitos perguntam qual é o clube do meu coração. Minha resposta permanece a mesma: aprendi a respeitar profundamente cada uma dessas camisas e suas apaixonadas torcidas.
Como setorista, percorri diariamente o Calabouço, o Parque Tamandaré e a Rua do Gás, levando aos ouvintes as notícias dos três clubes pelos microfones das emissoras da cidade. Narrei gols inesquecíveis, acompanhei campanhas históricas, como a do Rio Branco rumo ao título da Terceira Divisão, e estive presente em grandes decisões do futebol fluminense.
Naqueles tempos, o repórter tinha acesso direto aos protagonistas do espetáculo. Entrevistei inúmeros craques em conversas exclusivas, muito diferentes das entrevistas coletivas que predominam atualmente. Conversei com Zico, Romário, Sócrates, Romerito, Roberto Dinamite e tantos outros ídolos do futebol brasileiro.
Com Romário vivi uma situação curiosa. Em Miracema circulava o boato de que seu pai seria um conterrâneo nosso, funcionário da antiga Casa Marcelino. Aproveitei uma entrevista exclusiva para esclarecer a história. Bem-humorado, o Baixinho colocou fim à lenda: nunca havia ouvido falar daquele comentário e confirmou que seu pai não era miracemense.
Também guardo com carinho uma cena protagonizada por Paulinho Criciúma. Antes de uma preleção, um menino capixaba, portador de graves problemas de saúde e torcedor apaixonado do Botafogo, sonhava conhecer seu ídolo. Paulinho saiu do hotel, pegou o garoto no colo e entrou com ele para a concentração, sob o olhar emocionado de todos e a aprovação de Emil Pinheiro. Um gesto de humanidade que jamais esqueci.
Acompanhei Americano, Goytacaz e Rio Branco por todo o Estado do Rio de Janeiro e por diversas regiões do país. Vivi de perto grandes momentos do basquete campista, convivendo com um dos maiores técnicos brasileiros, Zé Boquinha. Trabalhei também como assessor de imprensa de Cláudio Mortari e participei da extraordinária fase do voleibol de Campos, comandado por Luizomar de Moura, equipe que reuniu grandes estrelas, entre elas a líbero Fabi, futura campeã olímpica.
Vi nascer para o futebol um jovem chamado Célio Silva, que fez uma atuação memorável pelo Americano diante do Vasco da Gama, anulando Roberto Dinamite. Pouco tempo depois, o destino o levou justamente para São Januário, onde construiu uma carreira vencedora.
Também fui testemunha de momentos marcantes da história do futebol campista: acompanhei o último grande título do Goytacaz antes do retorno à elite estadual, assisti ao declínio do tradicional Rio Branco e ao desaparecimento do Campos Atlético Associação, sempre acreditando na força e na resistência do esporte da região.
Minha trajetória passou pelas rádios Campos Difusora, Cidade, Cultura e Continental. Na Rádio Cidade vivi uma das maiores alegrias da carreira. Em 1987 recebi a Bola de Ouro do rádio esportivo brasileiro, prêmio que, naquele ano, ganhou caráter internacional. Das mãos de João Jorge, ao lado do meu grande ídolo Jorge Cury e com o incentivo do inesquecível Geneci Pestana Alvim, recebi o maior reconhecimento profissional de minha vida. Registro ainda minha eterna gratidão a Dawvan Lima, cuja insistência foi decisiva para que meu trabalho fosse inscrito na premiação.
Ao lado de companheiros como Sérgio Tinoco, Pessanha Filho e Paulo Lacerda, com o apoio de Luiz Augusto, Renato Borges, Luiz Paulo Ribeiro e José Augusto, ajudamos a formar a primeira equipe esportiva independente do Estado do Rio de Janeiro, conquistando a liderança de audiência e escrevendo uma das páginas mais bonitas da história do rádio campista.
Ao longo da carreira dividi espaços com nomes consagrados como Aloysio Parente, José Nunes da Fonseca, Josélio Rocha, Waldir Amaral, Jorge Cury, Eraldo Leite, Cláudio Perrot, Elso Venâncio, Denis Menezes, Luiz Penido, Ruy Porto, João Saldanha e Doalcei Camargo. Conheci profissionais extraordinários, aprendi com cada um deles e construí amizades que atravessaram décadas.
Houve também momentos de divergência — especialmente com Gilson Ricardo, com quem protagonizei discussões memoráveis —, mas o saldo de toda essa caminhada foi infinitamente maior em amizades, respeito e reconhecimento.
Encerrando esta breve lembrança, guardo um episódio que simboliza tudo o que vivi. Meu tio Caio Picanço, taxista no Rio de Janeiro, fazia questão de aumentar o volume do rádio quando eu entrava no ar como correspondente da Rádio Nacional durante o programa Mundo da Bola. Orgulhoso, dizia aos passageiros: "Esse é meu sobrinho Adilson, lá de Miracema."
Em uma dessas viagens, o passageiro era justamente Luiz Mendes, um dos maiores narradores da história do rádio brasileiro. Depois de ouvir minha participação, comentou:
— Esse garoto é bom. Vou levá-lo para a Rádio Nacional.
Talvez aquele convite nunca tenha se concretizado, mas aquelas palavras permaneceram para sempre como o maior elogio que recebi em toda a minha carreira.
Se tive algum patrimônio construído ao longo de tantos anos de profissão, ele não está apenas nos prêmios, nas medalhas ou nas transmissões inesquecíveis. Está na confiança dos ouvintes, no respeito dos colegas, no carinho dos amigos e na certeza de que honrei, com paixão e dedicação, o microfone que tantas alegrias me proporcionou.
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