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Meu amigo Betinho ou seria "Pico da Neblina"?

Hoje quero me redimir, porém, tem sempre um porém, em momento algum me senti triste,  ofensor ou até mesmo um cara malvado ou preconceituoso, e, pela primeira vez, conto aqui um fato acontecido no início dos anos 60, exatamente em 1962, lá na terrinha, quando minha caixa de engraxate fazia ponto na frente da Prefeitura e tinha a companhia de grandes amigos para a labuta do final de semana e para garantir o ingresso do circo ou do cinema. 

Me lembro bem do Carlos Alberto, do Luíz Márcio, do Toninho e de tantos outros que depois conto por aqui em outra coluna, porque hoje eu quero contar um fato interessante e que surgiu após uma lição de geografia, no primeiro ano do ginásio, e vocês, amigos de longa data, que viveram aquele tempo e os anos que vieram depois, irão se lembrar do personagem e não do causo vivido entre mim e meus companheiros de graxa. 

Um dos nossos companheiros, o Betinho, era um negro bacana, falante, simpático, mas tinha uma cabeça um pouco diferente e quando chegava logo despertava a curiosidade de todos nós, que ficávamos olhando um para o outro loucos para arrumar um apelido para o companheiro, mas cadê criatividade naquela hora de trabalho e qualquer vacilo um dos engraxates da caldada da prefeitura pegava o freguês e lá se desfazia uma parte do ingresso do cinema do final de semana. 

Um certo dia, na aula de geografia, dona Nerilda, nossa simpática e querida professora da matéria, nos contava que um grupo de pesquisadores brasileiros e venezuelanos descobriu que um pico, de nome Phelps, estava em solo brasileiro e portanto pertencia ao Brasil e logo foi batizado de Pico da Neblina por sua temperatura agradável, 20 graus de dia e seis graus a noite e, claro, por ser um território muito nebuloso. 

E no sábado, quando a turma se reuniu para o trabalho do dia, chega o Betinho todo animado, com sua caixa no ombro, não era possível colocar na cabeça como todos os outros, e lá da outra calçada, em frente ao bar do meu avô, eu gritei para o Carlos Alberto:

- Cá, chegou o Pico da Neblina. 

E o Cá (Carlos Alberto, neto da Dona Fiuta) queria saber o que era aquilo e eu mandei lá do outro lado, com medo do Betinho não gostar.

- Descobriram um pico, lá na divisa do Brasil com a Venezuela, e deram o nome de Pico da Neblina, e o pico é igual a cabeça do Betinho. 

Todo mundo riu, gostou e até o Betinho aprovou a brincadeira, não queimou no golpe e adotou o apelido para o resto de sua vida, que foi curta, Betinho morreu cedo por problemas no coração, se não me engano, mas deixou saudade nos campos de peladas e nos times por onde jogou, sempre carregando o apelido, que um dia saia o Neblina e outro dia saia o Pico e no fim de sua curta carreira de boleiro ficou apenas PICO para os amigos e para os que gostavam dele pela sua simpatia e alegria. 

E nunca mais coloquei apelido em nenhum amigo, mas até hoje procuro entender como é que o Marcinho Feinho era bonitinho e como o Marcinho Bonitinho era feinho, vocês sabem quem são estes dois e quem deu o apelido para ambos? 

Eu conto depois. Combinado? 

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