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Na sombra de um pé de jambo

Sentado a sombra do pé de jambo, em um banco bem confortável e solitário, apenas o jornal do dia, comprado na banca Souza, ao lado da Matriz, me fazia companhia. Olhava para o jornal e ouvia o canto dos pássaros, que ainda reinavam no cercado inaugurado pelo prefeito José de Carvalho com pompa e orgulho.

Nem prestava atenção na leitura e, se me perguntarem qual foi a manchete que me chamou a atenção eu não sei lhes dizer, sei que minha imaginação fluía e meu pensamento viajava para bem longe ou para um passado bem distante e batia uma saudade incrível de alguns personagens marcantes da cidade, como Altivo Linhares, chamado de Capitão por seus seguidores, mas que foi um dos “monstros sagrados” de nossa terra, sem ele Miracema talvez fosse um pouco diferente nos dias de hoje, tinha ideias avançadas apesar de ser considerado um ditador.

Me lembro de cada um destes políticos em épocas distintas, do Jamil Cardoso me lembro sempre quando o tema é Exposição Agropecuária e Industrial da cidade, que a cada ano que passa se mostra mais cansada e inexpressiva, mas foi ele, Jamil Cardoso, que deu o pontapé inicial na festa e botou Miracema no roteiro rural do Brasil.

Salim Bou-Issa, outro controvertido e eficiente prefeito da cidade, me vem a mente nos períodos de carnaval, sua dedicação a festa era total e as nossas escolas de samba eram prestigiadas por ele e sua equipe de governo com força total, as ruas ganhavam um colorido especial e nosso festejo de Momo esteve entre os cinco melhores do Estado do Rio por longos anos.

Homens distintos passaram pela Prefeitura de Miracema e, por morar em frente e por ter uma família movimentando um bom bar, freqüentava o edifício municipal com liberdade de ir e vir com qualquer prefeito, com qualquer Juiz de Direito, ali também funcionou o Fórum de Miracema, e transitava pelos cartórios como se neles trabalhava.

Meus papos com os irmãos Moreira, Nilson e Luiz Carlos, não se resumia ao futebol nosso de cada dia, eles, apaixonados pelo Tupã EC, eram amantes do esporte mas também proseavam comigo sobre diversos assuntos e eu, atentamente, ouvia as histórias do Nilson sobre aviação, outra grande paixão do filho do seu Ninico Moreira.

Vi, e convivi, com todos os chefes dos cartórios, como seu Ivo, que depois deixou o cartório para Orestes Rossi, seu Newton Moreira, com quem até hoje ainda tenho prosas legais, na terrinha, com os irmãos Brandão, Célia e Cleir, e por ali conheci muitos personagens que ajudaram a fazer a história da cidade, como o Zezinho, tio dos irmãos Roque e Antonio Carlos Monteiro, o Jorge Monteiro, pai do Jorginho Banerj e irmão do Olavo Monteiro, outro prefeito que deixa saudade e que cuidou da cidade como se sua filha fosse.

E lá estava eu, admirando o jardim, olhando o nosso Rink, minha principal fonte de recordação, e de longe assistia crianças brincando no parquinho, que um dia foi meu parque também e, bate saudade danada, por minha cabeça passa a imagem de um homem bonachão, personagem de minha infância, de um coração maior do que seu filho Batista Chapadão, quem, da minha geração, não ganhou um afago carinhoso do seu Ademar Barbosa?

E, quando o sol já esquentava meus pés a realidade tomou conta de mim. Dei um até já para o pensamento e um até breve para o nosso jardim, meu ponto de reflexão mensal e meu suporte de memória e criador de textos saudosos como este de hoje.

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