quinta-feira, 31 de julho de 2014

Minha gente humilde da terrinha

Tem certos dias em que eu penso em minha gente, diz a canção de Chico, Garoto e Vinícius, e pensando bem eu todo dia penso em minha gente e recordo, com muita emoção, as cadeiras na calçada e sinto meu peito apertando de uma jeito que ele fala "estou com saudade", e parece que tudo acontece de repente sem que a gente menos espera acontecer.

Vejos, nos meus pensamentos, as casas simples, as ruas sem paralelepipedos e sem trânsito, e me pego andando de bicicleta, pelas ruas da terrinha, sem pensar em futuro, em passado e olhando só o presente, que na verdade foi um presente de Deus em minha vida ter nascido e crescido olhando gente passando e vivendo sem se deixar notar.

Gosto de falar das pessoas. Gosto de falar dos lugares. Gosto de falar da vida dos anos 60 e 70. Gosto de recordar os amigos meus, os amigos de meus pais, os amigos de meus avós, e porque não os amigos da família Dutra, que são muitos e espalhados por todas as ruas da nossa cidade?

Na minha rua, a famosa Praça Ary Parreiras, onde tudo se concentrava, ali está a Igreja Matriz, estava a Prefeitura, o Forum, os Cartórios e ali fica a Praça das Mães, o Rink e o velho e lindo Jardim de Miracema, não existiam mansões, eram casas simples, com cadeiras nas calçadas e nem precisava escrver "aqui é um lar", a união dos moradores já distinguia os lares de todos os nossos vizinhos queridos e saudosos.

Já narrei aqui as peladas na Rua José da Silva Bastos, já contei neste espaço as brincadeiras de pique bandeira, amarelinha, as descidas nos carrinhos de rolemã ou patins na ladeira onde ficava, no início (ou seria no fim?) a casa do seu Amaro Leitão, já discutimos que naqueles anos 50 e 60 tinhamos infância e andávavamos com roupas sem grife, as vezes improvisadas ou heradadas de irmãos ou primos mais velhos.

E como na música tema deste texto "sem o despeito de não ter como lutar", a luta era constante, como ainda é nos dias de hoje, só que a gurizada menos abastada, naqueles anos dourados, tinha que ralar o umbigo para ter a matinê nos Cines XV ou Sete, um giro na Rua Direita ou até mesmo um sorvete no bar do Vavate.

Depois de tudo isto me dá uma saudade no meu peito, e aí me dá até vontade de chorar, mas peço a Deus por minha gente, que é gente humilde e que sempre possa a todos abraçar.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Praça da Matriz: Um caso de amor não resolvido

A passagem por Miracema sempre é agradável e, principalmente, quando encontro alguém para reviver os bons tempos passados na terrinha a viagem é ainda muito mais deliciosa.O jardim e a Praça das Mães, meus points preferidos, tem sempre uma história nova, um causo novo ou um jeito diferente de contar ou ouvir as passagens dos amigos por ali, quando é sobre o Rink o coração bate mais forte e fica difícil segurar a emoção.

Desde o seu Ademar Barbosa, citado em coluna anterior, passando pelo Sabiá, jardineiro feliz e abençoado, pelo Nicanor, Mocinho e Jorge Ripada, os homens da sonorização e também já citados em colunas diversas, até o pipoqueiro Tarciso, ainda em pé e com um sorriso de felicidade no rosto, as histórias e os causos deste lugar sagrado fazem parte de meus contos, textos ou crônicas.

Já disse aqui que minha terra tem palmeiras, tudo bem os sabiás não cantam por ali, mas pertinho delas tem o jardineiro Sabiá, que não canta mas encanta, já narrei aqui as grandes peladas da quadra de esportes, que já foi desmontada e levantada por algumas vezes e continua até hoje sendo berço dos garotos que sonham em um dia ser um Fenômeno da vida futeboleira, mas já ouvi que ali estão nascendo alguns Freds, o porque eu não sei explicar.

Nem sei se ainda restam motivos, motivações não faltam, para mais um texto sobre o lugar, dito sagrado por este escriba amante da Praça das Mães e do nosso jardim, já felei da jambeira, do viveiro, dos causos dos grandes personagens, que me confidenciaram suas histórias em algum banco da praça ou nas muretas que cortam o entorno do lugar, já falei dos jogadores de bola de gude e do finco, onde o Mundinho Padilha sempre foi campeão.

Já contei os causos do Paraoquena ou do Raul Juquitinha, um corredor assustador e o outro romântico e pseudo cantor, mas nenhum dos dois faziam mal a ninguém apesar da turma temer o famoso Paraoquena, que só corria quando perturbado em sua mente também perturbada.

Bem meus amigos e leitores, enrolei bastante pensando que fosse encontrar um novo tema para um novo texto, mas lego engano, não há novidades e a memória não encontrou nada além do que já postei por aqui, mas falar do Jardim de Miracema me faz um bem danado e me traz maravilhosas recordações da infância, juventude e adolescência.

Quem foi o garoto, da minha geração, que não passou pelo Jardim de Infância Clarinda Damasceno? Quem foi um dos que jamais jogaram um "racha" no Rink? Será que algum garoto, daquelas bandas ou até mesmo de lugares mais distantes, não brincou de pique e escondeu-se no coreto da Praça da Matriz?

Duvido muito. Todos nós, miracemenses ou amigos de Miracema, temos um caso de amor com este lugar, repito, sagrado, maravilhoso e amado por dez entre dez amigos da Santa Terrinha.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Personagens do nosso futebol

Esta Copa do Mundo, que se encerrou recentemente, deixou marcas e certezas. A marca maior foi provocada pela derrota humilhante para Alemanha, o país chorou, os garotos choraram e a CBF deu de braços talvez querendo dizer que não tem nada com a história, foi a fatalidade, diriam seus dirigentes.

O pós jogo é recheado de declarações e de previsões negras para o futuro, jornalistas, comentaristas, ex-jogadores entram em cena e começam a descobrir as causas e as razões para o fracasso tão retumbante quando o brado do Hino Nacional. Seria a falta de uma divisão de base mais ajustada? Seria o excesso de brucutus formados nas bases do futebol brasileiro? Seria o ultrapassado esquema defensivo o principal culpado?

Todas estas perguntas se calam apo dois ou três meses passados do vexame e o que ficará marcado? Ficará a falta de qualidade e profissionalismo nas divisões de base e o excesso de zelo com os garotos fortes, preferidos por 10 entre 10 treinadores da categoria, e o desprezo para com os meninos habilidosos que surgem aos borbotões e somem da mesma maneira que aparecem.

Por aqui, nos anos 50 e 60, encontraríamos duzentos meninos que reuniam condições de jogar em qualquer equipe pelo Brasil afora, porém, tem sempre um porém, lá nos grandes e médios clubes, participantes da elite do Rio, havia o mesmo número de garotos formados nas bases ou descobertos por olheiros espalhados por todo o interior.

Dou um pequeno exemplo, no qual estão envolvidos os garotos da nossa geração. Um olheiro do Botafogo, conhecido do saudoso Maninho, esteve em Miracema e gostou de ver um treino do nosso Vasquinho, comandado pelo Bizuca e pelo Jacy Lopes Moreira e, sem perder tempo, Maninho passou a conversa no amigo para levar alguns dos garotos que vira.

- Amigo, o Botafogo está recheado de garotos bons de bola e outro punhado de futuros craques esperando uma chance, não temos como levar ninguém daqui, no momento, mas prometo que farei todo o possível para encaixar alguns destes nos clubes cariocas, disse o olheiro para Maninho.

E sabe qual era o ataque da base do Botafogo? Sim, tinha Jairzinho, Arlindo, Paulo César Lima, Rogério, e outros menos votados. E hoje? Quem seria o ataque do Botafogo e qual a chance de um destes jogar em uma seleção do Brasil? 

Aquele Rink EC, cantado em prosa e verso por todos nós, que vimos o time comandado por Chiquinho Maracanã e Zé do Carmo jogar com uma qualidade incrível, encantou os olheiros cariocas e fez com que diversos destes viessem a Miracema para tentar carregar com eles um destes geniais meninos para a capital, mas esbarrou no preconceito e nas boas opções de trabalho que havia naquele tempo. 

Alvinho, que chegou a ir para o Flamengo, não ficou porque conseguiu um bom emprego por Miracema e ficou. Ademir também foi para a Gávea e chegou a jogar campeonatos juvenis, mas voltou para trabalhar em uma empresa sólida e ter a certeza do futuro. Eu e Cacá esbarramos naquele problema, citado pelo olheiro amigo de Maninho, o excesso de bons jogadores e a equivalência entre os que estavam por lá e os que chegavam. 

E hoje, quem é que vai sair da cidade para enfrentar as peneiras dos clubes, que não são mais realizadas por olheiros e sim por empresários? Quem é o garoto talento que tem a coragem de sair, como saiu Célio Silva, o último vencedor, e enfrentar todos os desafios decorrentes da tentativa de ganhar espaço no futebol? 

Eu digo, encerrando o assunto, sempre para os amigos treinadores que me pedem para olhar algum garoto: O que é que você quer, craque ou butinudo? Se a resposta for um volante, um zagueiro ou um garoto forte para jogar como protetor da zaga, eu me recuso e digo que já me aposentei. 

Esta é a realidade atual, craques não tem vez e o buraco está aberto, cada dia mais fundo e no final dele tem apenas uma tênue luz se apagando. 

Na sombra de um pé de jambo

Sentado a sombra do pé de jambo, em um banco bem confortável e solitário, apenas o jornal do dia, comprado na banca Souza, ao lado da Matriz, me fazia companhia. Olhava para o jornal e ouvia o canto dos pássaros, que ainda reinavam no cercado inaugurado pelo prefeito José de Carvalho com pompa e orgulho.

Nem prestava atenção na leitura e, se me perguntarem qual foi a manchete que me chamou a atenção eu não sei lhes dizer, sei que minha imaginação fluía e meu pensamento viajava para bem longe ou para um passado bem distante e batia uma saudade incrível de alguns personagens marcantes da cidade, como Altivo Linhares, chamado de Capitão por seus seguidores, mas que foi um dos “monstros sagrados” de nossa terra, sem ele Miracema talvez fosse um pouco diferente nos dias de hoje, tinha ideias avançadas apesar de ser considerado um ditador.

Me lembro de cada um destes políticos em épocas distintas, do Jamil Cardoso me lembro sempre quando o tema é Exposição Agropecuária e Industrial da cidade, que a cada ano que passa se mostra mais cansada e inexpressiva, mas foi ele, Jamil Cardoso, que deu o pontapé inicial na festa e botou Miracema no roteiro rural do Brasil.

Salim Bou-Issa, outro controvertido e eficiente prefeito da cidade, me vem a mente nos períodos de carnaval, sua dedicação a festa era total e as nossas escolas de samba eram prestigiadas por ele e sua equipe de governo com força total, as ruas ganhavam um colorido especial e nosso festejo de Momo esteve entre os cinco melhores do Estado do Rio por longos anos.

Homens distintos passaram pela Prefeitura de Miracema e, por morar em frente e por ter uma família movimentando um bom bar, freqüentava o edifício municipal com liberdade de ir e vir com qualquer prefeito, com qualquer Juiz de Direito, ali também funcionou o Fórum de Miracema, e transitava pelos cartórios como se neles trabalhava.

Meus papos com os irmãos Moreira, Nilson e Luiz Carlos, não se resumia ao futebol nosso de cada dia, eles, apaixonados pelo Tupã EC, eram amantes do esporte mas também proseavam comigo sobre diversos assuntos e eu, atentamente, ouvia as histórias do Nilson sobre aviação, outra grande paixão do filho do seu Ninico Moreira.

Vi, e convivi, com todos os chefes dos cartórios, como seu Ivo, que depois deixou o cartório para Orestes Rossi, seu Newton Moreira, com quem até hoje ainda tenho prosas legais, na terrinha, com os irmãos Brandão, Célia e Cleir, e por ali conheci muitos personagens que ajudaram a fazer a história da cidade, como o Zezinho, tio dos irmãos Roque e Antonio Carlos Monteiro, o Jorge Monteiro, pai do Jorginho Banerj e irmão do Olavo Monteiro, outro prefeito que deixa saudade e que cuidou da cidade como se sua filha fosse.

E lá estava eu, admirando o jardim, olhando o nosso Rink, minha principal fonte de recordação, e de longe assistia crianças brincando no parquinho, que um dia foi meu parque também e, bate saudade danada, por minha cabeça passa a imagem de um homem bonachão, personagem de minha infância, de um coração maior do que seu filho Batista Chapadão, quem, da minha geração, não ganhou um afago carinhoso do seu Ademar Barbosa?

E, quando o sol já esquentava meus pés a realidade tomou conta de mim. Dei um até já para o pensamento e um até breve para o nosso jardim, meu ponto de reflexão mensal e meu suporte de memória e criador de textos saudosos como este de hoje.

Palco e arquibancada

  Eduardo Afonso escreveu hoje, em sua coluna em O Globo, sobre um concerto precisando de conserto. E este colunista, que vos fala, acrescen...