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O pior Natal de minha vida

As vezes me lembro dos natais, passados no balcão do bar do meu avô, que era o dia, como já cansei de falar aqui, de grande faturamento para a família Dutra, e não penso que foram natais ruins ou para serem esquecidos, mas hoje, ainda faltando alguns dias para comemorarmos a data máxima da cristandade, me pego procurando na memória o pior natal que vivi na vida e estes, no trampo do bar, não entram no contexto.

O pior Natal de minha vida foi o de 1971, ano da pior enchente na minha Miracema e, por sorte, não  houve vítima fatal e, por ser Natal e ser uma cidade eminentemente religiosa, o Aniversariante poupou as famílias de um desastre maior por elas estarem unidas e fraternalmente reunidas para comemorarem a data.

Eu não estava na terrinha, trabalhava o Hotel Regente, em Copacabana/Rio de Janeiro, e cumpria meu plantão na véspera do feriado, saí do trabalho por volta das oito da noite, rumando para a casa de minha tia, onde morava no apartamento dos fundos, para curtir o dia com a família, porém, tem sempre um porém, festa natalina foi transferida para a casa de um primo e fiquei sozinho no meu canto sem um vinho, sem uma rabanada, sem uma ceia decente. 

Não conhecia pessoas para eu me convidar para a ceia, a cidade grande nos prega esta peça, e não tive coragem de procurar os parentes mais próximos, deveria dormir cedo porque no dia de Natal, às cinco da matina, eu teria que pegar o ônibus Usina x Leblon e seguir para a Avenida Atlântica para mais um plantão de feriado.

Meu companheiro foi o rádio, a Mundial era a rádio do momento e Big Boy fazia um programa especial de Natal e mais tarde, no Good Times, botei o coração mais doído com as músicas apaixonadas e aí, Ave Maria, a saudade de Marina, de Dona Lili, das manas e do Pai Zebinho e os velhos Vicente e Maria, bateu mais forte e minha companhia foi uma garrafa de Campari sorvida sem gelo ou limão.

Até aí tudo bem, dava para levar com tranquilidade, o porre me fez dormir e esquecer a saudade da terrinha, da família, da namorada e da Missa do Galo na nossa Igreja Matriz. Mas pela manhã, com um gosto de guarda chuva velho na boca, a pior notícia veio dentro do ônibus que me levaria ao trabalho: Um radinho, de um passageiro, anunciava a enchente em Miracema e entrei em pânico com o que ouvi naquele momento.

Foi um trajeto duro de ser completado, ansiedade e medo já tomavam conta de mim e via que meu Dia de Natal seria daqueles terríveis mesmo sabendo que era impossível a água chegar até minha casa, em frente a Prefeitura, mas e os amigos? E o restante da família? Como está minha cidade? Tudo isto vinha a minha cabeça e não conseguia contato telefônico em hipótese alguma. 

Foram horas e horas de aflição até que dona Emma, uma experiente telefonista, de plantão no Hotel Regente, resolveu meu problema e consegui falar com meu pai, através do telefone do Armazém do Jorge Gonçalves, na minha casa não havia telefone, e ficar sabendo que não houve vítimas, que a água já tinha baixado e que houve apenas prejuízo material, o que já me deixou aliviado.

Se passei o dia dedicado ao aniversário Dele na boa? Não. Não vi clima algum para subir ao segundo andar, onde fica o restaurante do Hotel Regente, para o almoço com os companheiros de trabalho, fui procurar uma capela, na Av Nossa Senhora de Copacabana, para fazer minhas orações e agradecer pela ausência de vítimas na minha Miracema na noite anterior. 

Foi assim, meus amigos e seguidores, que passei o pior Natal de minha vida. 

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