domingo, 29 de setembro de 2013

Pimba na gorduchinha*

Campo do Ginásio, quatro horas da tarde. Segunda-feira de calor insuportável. Dois times no campo e mais dois de fora esperando a vez. O gramado, castigado pelas chuvas de verão, tinha o centro totalmente cercado pelo barro, que como um clarão vermelho, provocado pelos pés descalços da turma, era cercado pelo barranco, no lado direito de quem sobe; pela chácara, do lado direito de quem desce, e pela moradia atrás do gol de cima, que possuía um matagal silencioso e muros bem altos.

A bola Drible branquinha, novidade da época, rola pelo gramado ruim e enche nossas vidas, humildes e bem vividas misturadas, democraticamente divididas em com ou sem camisas. Garotos com ou sem futuro misturados para conquistar a verdadeira liberdade, uma vitória em uma pelada no campo do Ginásio.

O primeiro chute errado e a bola, branquinha, cai por cima do muro da moradia. Faz-se um silêncio total. O medo de não ter o retorno da Drible provoca arrepios na garotada, principalmente em Hamiltão, autor do chute com endereço errado. Mas, de repente, não mais que de repente, como se fosse rebatida em um bate-pronto alinhado, a pelota voltou quicando e parando no barro.

Mais alguns minutos e Miguel, nosso grande artilheiro, manda outro balaço contra as traves de Lucho. Não acostumado com a maciez e com a leveza da Drible, mesmo que encharcada pelo barro molhado, Miguel arremessa novamente a “gorduchinha” por cima do muro. Desta vez a bola nos foi devolvida por um ancião, que como se cobrasse um arremesso lateral, usou as duas mãos para fazer a devolução de nossa preciosa companhia.

O relógio já marcava quase seis da tarde quando outros dois times adentravam o castigado gramado do Ginásio. O sol já escondera e a luz natural já estava fraquinha quando um terceiro petardo ultrapassou os limites da moradia. César errara o cruzamento e desta vez a Drible caíra na varanda. 

Não houve devolução. Todos se espantaram e já preparavam as contas para um novo racha no bolso dos peladeiros para a compra de uma nova Drible. A bola não voltara. Ficara por lá. Mas cinco ou dez minutos após desce um cidadão forte, até que meio gordo, vestindo apenas uma bermuda moderna, peito nu e cabelo ajeitado com gumex. Era o dono da residência.


A garotada, até certo ponto amedrontada com a cena, ameaçou um apelo para que a bola fosse devolvida. O cidadão foi andando até o meio do barro, com um estilo até bonachão, e quando todo mundo ameaçava um agradecimento coletivo ouviu-se um tiro. 

Um tiro apenas. O suficiente para que todos corressem sem tempo de ver a “gorduchinha" dormindo eternamente no meio do campo do Ginásio, murcha e completamente inutilizada, já que os outros cinco tiros disparados não foram ouvidos pela turma, que descia a estradinha que dá acesso a Rua do Ferreira em desabalada carreira. 

Com medo da morte a garotada deixou a branquinha sozinha na noite daquela segunda-feira.

*Texto baseado em uma crônica do mestre Armando Nogueira

A bomba santa do Otavinho

No último dia da Expo o frio resolveu chegar na cidade. Saí de casa de manhã e passando pelo centro vi, com surpresa, meu velho amigo Sólon, cuja última passagem por aqui me rendeu uma crônica bastante elogiada.
Sólon, saudosista e profundo conhecedor da cidade e do futebol, me propôs um passeio pelo jardim, ele trazia uma máquina digital novinha, e pretendia bater algumas fotos do lugar que julga ser o mais belo da terrinha.

Fotografamos o parquinho, onde pudemos rever o Jorge Sabiá, nove filhos e quatorze netos, muito para os seus cinqüenta e poucos anos, mas o que fazer, a vida nos ensina a procriar, mas nem tanto meu caro.

Sólon fitou o pé de jambo, aquele mesmo que há cinqüenta anos ele e seus companheiros de meninice invadiam constantemente sob os olhares ferozes do Cabo Atleta. Novas fotos. A fonte luminosa, que vimos juntos a inauguração, também serviu de fundo para algumas fotografias, mas ao pipocar de mais um flash ouvimos um barulho conhecido. O quique de uma bola.

 –De onde vem? Pergunta Sólon.

Claro que é do Rink, meu velho. Respondo ao mesmo tempo em que aceno com a cabeça para que seguíssemos para a nossa velha e boa praça de esportes, que está reformada e do jeito que a molecada adora, tem até arquibancada, onde nos sentamos e iniciamos uma série de sonhos e recordações.

-Naquele gol ali, me diz o amigo, vi algumas grandes defesas do Zé Bolão, um dos maiores goleiros de futebol de salão que vi jogar. Digo a um Sólon quieto e pensativo. O amigo não responde, parece tomado pela emoção e seu rosto, avermelhado, ganha um colorido ainda maior com a chegada ao nosso antigo Rink.

Enquanto admirávamos a pelada dos garotos, não tão árduas e disputadas como as do nosso tempo, olhávamos pelas redondezas a procura de conhecidos, que poderiam estar passando na calçada do Manoel Soutinho, descendo da Rua da Laje, ou pela antiga casa do Dr. Renato, hoje com o Dr. José Barbi, aqueles que subiam rumo ao recinto da Exposição. Por ali passaram centenas de rostos desconhecidos, moradores recentes ou meninos ainda, cujos nomes ou figuras ainda não constavam de nosso chip de memória.

Ao ver passar o Mundinho, com o mano Fred, que calmamente observavam o movimento e conversavam relaxadamente, Sólon teve um ataque de saudosismo e iniciou uma narrativa incrível, que me agradou bastante e fui anotando, mentalmente claro, tudo aquilo que o velho amigo dizia, emocionado.

- Dutra, você se lembra bem do Otavinho da Casa Nova, disse.
- Este cara tinha um chute incrível, o Luxo morria de medo dele e do Miguel.
 – Isto mesmo. O Otavinho me fez dar gargalhadas aqui no Rink, lembro muito bem de seus potentes chutes com aquela bola, que naquele tempo era dez vezes mais pesada do que as que hoje são usadas no futsal.

Certa vez, acho que foi num daqueles campeonatos super organizados que se jogavam aqui, com o povo aglomerando na mureta, não havia arquibancadas, a turma subia no muro e ficava em pé para melhor observar a partida.

Levantaram uma bola, em cobrança de lateral, e o cara mandou um balaço que a pelota deve ter ido parar lá no Bar Pracinha, já que não voltou e foi preciso providenciar outra bola para reiniciar a partida.

A galera começou a irritar o Otavinho, que errava naquele jogo acima da média, em outros jogos o artilheiro do canhonaço acertava o gol pelo menos em três ocasiões e duas delas ficavam nas redes dos goleiros adversários.

O nervosismo do jogador aumentava a cada grito de gozação da torcida. “Otavinho vai comprar outra bola na Casa Nova”, gritou um rapaz atrás do gol de Zé Bolão. Foi o que precisava o nosso personagem para se vingar. Em uma cobrança de falta, no meio da quadra, parece que o Otavinho mirou no muro e mandou uma bomba incrível.

A bola foi certeira. O rapaz, que há pouco gritara, recebeu o impacto daquele objeto pesado no peito e caiu quase dois metros depois do muro, pertinho da cerca do parquinho. Felizmente sem nenhuma gravidade, mas o susto que ele, e o Otavinho tomaram, ainda está guardado na minha mente. Foi sem dúvida um dos melhores momentos desta quadra.


Saímos dali com os olhos marejados, mas certos de que vivemos intensamente um pouco de nossos passados. Vistamos a exposição, subimos para ver o Morro do Calvário e finalizamos com uma Soda Limonada no bar dos amigos Gustavo e Chiquinho. 

sábado, 28 de setembro de 2013

A formiguinha e o piano

Leio agora, no G1, após ver manchete no Twitter, mostrando um roubo inusitado, em Belo Horizonte, me veio a memória um diálogo interessante ocorrido há alguns anos, lá na “terrinha”, que pode não ser igual ao crime dos mineiros, cuja criatividade vem com a desocupação da cabeça, livre do trabalho e certa de que a bolsa fornecida pelo governo federal virá a qualquer momento.

Se lá nas Minas Gerais os gatunos usaram “varas de pescar” improvisadas com bambus, galhos e ganchos, lá na terrinha, mais precisamente na Praça Ary Parreiras, meu amigo tentava me ensinar a domar uma formiguinha para sacar uma grana da registradora do meu avô Vicente Dutra.

- Eu tenho umas dez, de vários tamanhos, que coloco na ponta de um barbante e as danadas entram pelo buraco da registradora e pegam uma notinha para eu sair pela rua e as vezes dá até para ir ao cinema, dizia-me o filho do padeiro.

- E como é que faço para domar as formiguinhas? Perguntei já querendo aprender o truque.

- É fácil, só não pode prender muito porque senão elas morrem. Deixe-a livre e coloque na direção da gaveta que tem a nota de maior valor, se ela, principalmente a formiga cabeçuda, pegar e travar, a nota vem e você faz a festa.

Juro que tentei, mas não consegui domar as formiguinhas e nem tiver coragem de “catar’ uma grana do meu avô, afinal eu tinha tudo com ele e não ia querer derrubar meu prestígio com uma ou outra notinha de um ou dois mil réis.

Em Belo Horizonte a turma deitou e rolou. Os rapazes do alheio “pescaram” um notebook, que estava na mesa de um professor, mas não satisfeitos, desceram até a sala da direção, arrombaram a porta e fizeram a limpa nos computadores, que foram vendidos para um receptor da capital dos mineiros.

Conheci também um garçom, de um dos bares da Tijuca, do qual fiquei amigo e me desliguei quando o moço foi pego em flagrante delito pelo Seu Manoel, um português doce e amigo, quando “tocava” piano na caixa registradora do boteco, que ficava ao lado da fábrica da Brahma.

O movimento estava diferente no bar e eu entrei perguntando ao Joaquim, filho do português, o que havia acontecido e no mesmo tempo o ex-amigo gritava lá do fundo: “Foi tudo um engano... Foi tudo um engano.”

- Engano nada, diz Joaquim. Sabe o que aconteceu? Meu pai pegou o cara batendo nas teclas da registradora e tentando pegar uma grana na mão grande.

-É mentira! Disse o moço. Eu estava aprendendo tocar piano, minha irmã disse que os botões da registradora do seu Arthur são iguais ao do piano que ela toca na escola.

Tocando piano pegou. Lá na terrinha, quando o filho de algum dono de bar, restaurante ou padaria chegasse perto da caixa registradora logo um dizia: E aí, vai tocar piano?

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O último gol do Belisca

Os apostadores de plantão no Estádio Plínio Bastos de Barros adoravam um papo de bola após as rodadas do Campeonato Municipal. Nesta quarta-feira, quente e morrinhento -a tevê não mostrava nada naquele tempo- o passatempo eram as fofocas e as discussões sobre o futebol local e sobre o que de melhor aconteceu na rodada.

A turma se reunia, sempre no mesmo horário e no mesmo boteco do João Custódio e depois de algumas rodadas de cervejas e pingas a conversa, que parecia esquentar, caiu no melhor momento do jogo preliminar, e que tinham como adversários o Flores e Comércio, e, quem viu,  jamais esquecerá a cena pra lá de interessante.

 O Vicente, ex-jogador do Miracema, acostumado a ver cenas incríveis, não se Conteve, ironizou o assunto em pauta.

 -Meus amigos, isto que aconteceu não é novidade alguma, o Toti -goleiro do Comércio- sós traz problemas para o time. Quando não é um frango é uma cena hilariante como aquela que vimos esta tarde.

Mais irado e cheio de ódio, o Samuel bradava para todos. O  cara -Toti no caso- havia prometido colocar em campo um timaço e fiz uma aposta da pesada e levei no bolso.
- Vou ter uma conversa séria com ele amanhã na barbearia.
- Sei não, Samuel, se você for tirar satisfação deverá trocar de barbeiro, vai que ele fique com raiva, você se esquece e chega no salão para fazer a barba? A navalha obedece a mão do dono. Disse Wilian, rindo as gargalhadas.

 - Vira esta boca pra lá, Alemão -apelido do Wilian- eu lá sou homem de esquecer alguma coisa. Vou lá e quero ressarcimento do meu prejuízo. Devolveu Samuel prometendo vingança ao goleiro.

No outro canto do botequim outra mesa era formada por  alguns alegres apostadores, que se fartaram ao apostar no  adversário do Comércio. Fachada, um torcedor fanático do rubro-negro, dizia ser um homem feliz naquela quarta-feira.

- Vivemos bons momentos com o nosso time, mas igual aquele dia vai ser difícil esquecer. Debochava o diretor.

 Ninguém estava entendendo nada. Quem não foi ao estádio não sabia do que
reclamava Samuel e o porque da alegria doFachada. Seu João, ainda incrédulo com a narrativa do pessoal do Comércio, se negava a contar o fato para não ser mal
entendido e perder a freguesia.

Todo mundo quer saber, ninguém quer contar. E a expectativa foi aumentando enquanto  se esperava pela chegada do personagem principal do dia.

 Por volta das 19h, já com todos com um elevado grau etílico, chegava o
sóbrio Belisca, meio constrangido e um pouco fora de sintonia, afinal ele havia cometido um ato insólito, que para um artilheiro como ele, representava quase o fim de uma bonita carreira.

As chances de alguém contar o que acontecera aumentava e seu João pedia para
que ninguém tocasse no assunto em respeito ao  amigo e bom freguês que fora
o responsável pelas boas gargalhadas de quase quinhentas pessoas que se
arriscaram a sair de casa, naquele dia de vento e chuva, para ver uma partida de
futebol.

Vicente, amigo pessoal do Belisca, o convidou para uma rodada de Boa e foi
logo dizendo que estava tudo bem, o Toti já passara por ali e entendeu a sua atitude. Só que o artilheiro não estava a fim de bronca, contrariando a todos que acreditavam que poderia sair confusão no dia seguinte.

- Que nada, Vicente. Não guardo bronca e até que estou achando bem divertido.
Dizia Belisca. Foi a deixa que o Seu João Custódio precisava para matar a curiosidade das quase vinte pessoas que  estavam bebericando no boteco. E o artilheiro, sem pestanejar, começou o deu desabafo.

- O Samuel sabe o que aconteceu e que eu tinha razão quando  tomei aquela
atitude. O Toti sempre prometeu que o time seria  competitivo e alguns
reforços de bom nível viriam para  reforçar o grupo.

Quando entramos em campo, prossegue o artilheiro, com apenas 10 jogadores, descobrimos que não era nada daquilo. Aos poucos o Edil foi tomando conta do jogo, nossa zaga era puro bagaço, e o Toti foi tomando um frango atrás do outro.

Quando percebemos já estava 6x0 e nosso time só com oito em campo, dois jogadores deixaram o campo esgotados e um outro se arrastava pelo gramado, ainda no primeiro tempo.  

- Conta logo, não enrola. O que aconteceu afinal, só isto?  Pedia Onofre, sem esperar o desfecho da narrativa.

 - Ainda bem que você não estava no time, meu caro, pois não  mais jogaria o
campeonato. Bem, daí pra frente, com sete em  campo, eu como mais
experiente, tinha que tomar uma atitude.

Peguei a bola na nossa área, limpei um atacante adversário, com um chapéu,  e mirei na cara do Toti, nosso goleiro. Ele saiu da frente e a bola entrou estufando as redes e marquei o gol mais inusitado  da minha vida. Arrematou o craque Belisca.

Um gol contra que teve como principal objetivo dar uma bolada na cara do nosso goleiro, responsável pelo  pior vexame da minha carreira, completa.

Eu me encontrei com o Belisca no centro e perguntei se poderia publicar esta crônica, e como a resposta foi positiva acertei os detalhes e repasso hoje para vocês. 


Os personagens são fictícios, exceto o goleiro e o  artilheiro,  mas a história é verdadeira. 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Rink EC ou Seleção Brasileira? Publicada em setembro de 2013

O primeiro tempo da seleção brasileira, contra a Hungria, na última quarta-feira, me fez voltar ao tempo, e bota tempo nisto. Eu me vi sentado nas arquibancadas do Estádio Municipal Plínio Bastos de Barros, em um domingo de sol quente, assistindo a um dos mais brilhantes times de futebol que vi atuar em minha vida. 

O Rink, que trazia em sua formação jovens estudantes colegiais, tinha uma vocação para vencer incrível, era raro o dia em que o time jogou mal e perder, bem isto não era verbo conjugado por aqueles rapazes, tanto que no dia em que perderam a primeira o time naufragou e jamais se reuniu outra vez, nem mesmo para uma despedida.

Claro que existem algumas exceções, a zaga, por exemplo, formada por Alvinho e Márcio, era bem melhor do que a brasileira, com Juan e Roque Jr, enquanto os zagueiros do Rink exibiam talento e categoria, os veteranos da CBF multiplicavam a batida de nossos corações a cada ataque húngaro. O nosso Eduardo, goleiro galã, e barbeiro nas horas vagas, tinha a mesma tranqüilidade do Dida, mas cá pra nós, que ninguém nos ouça, o goleiraço do Milan teve a felicidade de jogar nos tempos modernos, onde a preparação de um arqueiro é super detalhada.


Mas, com certeza, sem nenhuma frescura de saudosismo ou de bairrismo, ver jogar Juninho, Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Luis Fabiano, é a mesma coisa que ver Silvinho, Emanoel, Frederico e Braizinho, que dois quartetos fenomenais. A velocidade imposta pelos nossos jogadores na quarta-feira, que chegou a impressionar Parreira, era a mesma que o gordo Chiquinho Maracanã exigia dos garotos miracemenses, o talento de Ronaldinho, guardada as devidas proporções, se compara ao Braizinho, que jogava ao estilo Tostão, toques rápidos, inteligentes e sempre buscando o gol.

Edmilson ou Marconi? Sem dúvida alguma o nosso pistonista era um clássico volante, bem ao estilo Falcão. Elegante, falastrão e de uma habilidade incrível para carregar o piano do time de Chiquinho Maracanã. Marconi passou pelo Palmeiras, preferiu ganhar dinheiro com vendas e deixou o futebol. Sua perfeição com os pés era a mesma que exibia nas noites soprando seu trompete de som mavioso.

Lembro-me do jogo Rink e Olaria, que trazia Nelson e Murilo, ambos vendidos ao Flamengo meses depois. Braizinho simplesmente arrasou o time carioca. Um futebol de tanta velocidade e com uma objetividade tão acentuada, que o treinador Bariri não pensou duas vezes, colocou dois homens para marcar o pequenino “Diabo”. Certo, você vai me dizer que Ronaldinho Gaúcho é o verdadeiro Fenômeno, vou concordar contigo, mas eu seria louco se afirmasse tudo isto se não acreditasse que esta minha história é a verdade de um cronista que ama o futebol requintado e não apenas uma gaiatice de um contista ficcionista.

Frederico, Emanoel e Silvinho completavam este quarteto com tanto sincronismo que os torcedores, que sempre lotaram o municipal, parecia não acreditar no que viam. Ficavam tão incrédulos quanto eu fiquei assistindo o nosso selecionado contra a Hungria, perfeito em todas as suas linhas naquele primeiro tempo fantástico, principalmente pela volúpia de se buscar o gol adversário. 

Se Juninho tem a facilidade de distribuir bolas em velocidade, o Emanoel também a tinha, as jogadas com Frederico, pela direita, sempre terminavam em perigo de gol ou com a bola no fundo das redes. Silvinho, um dos maiores meias do nosso futebol, era talento nato, suas enfiadas de bola em diagonal ou em profundidade, poucas vezes eram interceptadas pela zaga, assim como as bolas colocadas por Kaká, sempre prá frente e buscando o gol.

Muitos de vocês têm saudades do bom jogo de bola, das partidas disputadas com lealdade, inteligência e sem placar em branco provocado por retrancas ridículas ou esquemas que impedem nossos jogadores desenvolverem um espetáculo de alto nível.

Os mais vividos podem trocar este Rink por um outro time qualquer, tenho certeza de que um torcedor alvianil, da Rua do Gás, vai me dizer que o time tal, com aquele jogador tal foi melhor do que este meu Rink.

Outros dirão que o Americano, do enea, tinha mais qualidade, ou o Rio Branco, do ano tal, se assemelhava ao time dos rapazes de Miracema. Concordo plenamente, naqueles anos 60 o futebol era jogado com amor a camisa, desprovido de tudo aquilo que se vê quando a bola rola nos gramados dos tempos modernos. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Papo com o Plínio

Cara, quando eu te conheci não sabia sequer falar corretamente, era trazido pelo Nijel ou pelo Alvinho, hoje estou aqui, já grandão, falando em você, sobre você e praticamente conversando com você, que durante alguns anos me deu um punhado de alegrias. Alguém falou em tristeza? Não, jamais fiquei triste ao lado deste velho moço, que está recebendo nova roupa e se porta como se tivesse novamente poucos meses de vida.

Quantas vezes cheguei aqui, solitário, falando baixinho pra você, que um dia seria famoso e jogaria em um grande time brasileiro? Quanta ilusão. Você não respondia. Ficava calado. Seu silencio parecia prever que nada disto aconteceria. Você viu passar por aqui o grande Lauro Carvalho, que cracaço, o Milton Cabeludo, meu primeiro ídolo do futebol, viu nascer a geração Rink, liderado pelo incrível, e gordo, Chiquinho Maracanã, viu o Tupã, onde o meu velho pai, Zebinho, jogava ao lado de craques como Olavo Cueca, Noqueta e tantos outros da geração anos 20, não poderia pensar que este pequeno e teimoso artilheiro teria tanto brilho. Acertou meu camarada. Futebol foi a sério até o início dos anos 70, depois disto só batalha para sobreviver e ser feliz em outras bandas.

É cara, você está velho, ninguém jamais revelou a sua idade, o José Maria de Aquino deve saber, mas parece que este longo tempo de vida te fez bem. Muitos destes craques já se foram e você aí, de pé, forte como um touro e com tanta gente querendo te melhorar, te dar um toque moderno, uma roupa nova.

Você é um privilegiado, viu alguns jogadores, que se atuassem nos dias de hoje seriam considerados craques fantásticos ou até mesmo fenômenos. Você se lembra do Silvinho, do Braizinho, do Frederico, do Edil, do Ademir, do Júlio, do Chiquinho?

Lembra do time do Vasquinho, criado pelos fanáticos vascaínos Edson e Clarindo? Claro que se lembra, foram estes que brilharam no período em que o futebol brasileiro tinha jogadores do nível de Garrincha, Pelé, Zico, Rivelino e tantos outros, por isto ficaram por aqui, brilhando no terreno doméstico.

Ali em cima, naquela laje que cobre os vestiários, começamos a conversar via rádio, a nossa Princesinha não foi a pioneira, o Clóvis Helsinque, com sua turma da Rádio Emissora de Miracema, já havia conversado com você há alguns anos atrás, mas falar para toda região eu acredito que nós, eu, Zé Luis da Silva, Chico David, Fernando Nascimento, Paulo Joel e Welington Ronzê fomos os primeiros, depois vieram os comandados do bom Gelti Rodrigues, mas levar você a um estrelato jamais imaginado, eu duvido que alguém tenha feito mais do que a nossa equipe de esportes, que até promoveu eventos, lotnado as suas arquibancadas com jogos da Copa Noroeste. Saudades? Claro que sim, garanto que você também as tem.

É meu camarada, estamos ficando velho. Hoje eu me emociono só em lembrar que este seu belo gramado já foi destruído por uma Exposição Agropecuária, em 64, foi uma revolução. Naquele tempo o Campo do América não era lá grandes coisas e o Ferradurão ainda não havia nascido para te fazer companhia, e por isto a turminha do time do Bitico brigou pra caramba, mas tudo bem, o Seu Jamil Cardoso estava bem intencionado e a Exposição pegou e virou sucesso nacional.

O tempo é cruel, meu caro, quando saí daqui, em 85, eu acreditei ter plantado uma base para que o futebol voltasse a crescer, mas infelizmente o Maninho se foi e com ele foram as esperanças de ver novamente você entrar em ação e nos apresentar belos espetáculos como aquele dos anos 60, quando o Flamengo veio aqui com seu juvenil extraordinário, Gerson, Beirute e Germano eram garotos e craques, enfrentar uma seleção miracemense cuja principal estrela era nada mais do que o fantástico Ademir Menezes, artilheiro da Copa de 50, amigo de Jofre Salim, que o trouxe para nos brindar, pelo menos por alguns instantes, com a sua magia fenomenal.

Olha, meu caro, por aqui vi coisas incríveis e que se contadas podem soar como piadas. O Polaca tem um repertório maior e este homem deveria ter um busto no saguão de entrada desta casa. Imagine você que o Jair Polaca, o maior futeboleiro da cidade, jamais foi lembrado por isto, talvez esteja sendo homenageado agora nesta re-inauguração, mas na cabeça e na memória de todos nós o Polaca será sempre o maior de todos, não por sua bola, mas por seu amor ao futebol e a seu Miracema FC.

 Você me pergunta e eu respondo, vamos lá, quais são as suas dúvidas e quem foram os melhores que você já viu nestes anos de amor ao futebol? Vamos lá, não vacile. -Sei não, acho que não vou entrar nesta sua pilha. Parece que estou ouvindo uma voz saindo do coração do velho/novo Estádio Municipal. Quando fiz esta colocação senti que teria uma resposta assim: - Tem tanta gente boa que passou por aqui antes da sua geração, que prefiro não citar nomes. Eu vi um punhado de gente da melhor qualidade, que se não forem colocados nesta conversa seria injustiça, e como seria quando os encontrasse em um plano superior a este?


Tá certo, meu caro, os craques que por aqui jogaram teriam lugares assegurados na galeria de fotos a ser inaugurada, quem sabe na próxima festa, logo ali na sua entrada principal. Estou certo de que um dia veremos esta justa homenagem aos ídolos nativos. Vou indo, já é tarde e falamos bastante. Está chegando gente e daqui a pouco irão pensar que estou louco, alguns até já pensam, mas se me virem conversando contigo irão dizer que pirei de vez. Um abraço meu velho e bom amigo Estádio Municipal Plínio Bastos de Barros. Pensei que falava sozinho quando de repente ouvi um sursuro: Vá com Deus Penacho. Aí, meu caro. Eu chorei. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Soldado 42: Magalhães

O pior de chegar a terceira idade é o medo de perder o que há de melhor nesta vida, os amigos. Este 2008 me deu susto, me trouxe tristezas com os falecimentos de Luis Delco e Gustavo Rabelo, tio e sobrinho, duas gerações distintas, mas cada um com um lugarzinho guardado neste peito rasgado por uma cirurgia salvadora realizada em março.

Outros se foram, como a Gelsa, irmã de meu amigo Gilson, ausente há alguns anos do nosso convívio, mas sempre presente em nossa lembrança, aliás lembrança que hoje está detonada com a notícia da morte do Olegário Siqueira Magalhães, o nosso Olegarinho, o soldado Magalhães, número 42, do nosso TG 217. O Olegarinho bom de dança, bom de papo e um grande companheiro dos longínquos anos 50 ou 60, quando ainda crianças fazíamos nossa festa na Praça Dona Ermelinda ou nos gramados da prefeitura.

Éramos um grupo unido e fraterno. Júlio, Thiara, David, Olegarinho, Gilson, Gilberto, Chuta, Rogério, Valadão, Cagiano e tantos outros que vão chegando a minha mente e o pensamento é cortado quando me lembro de nosso comandante, o Sargento Couto, que está lá em cima recebendo seu Soldado Magalhães, um baixinho ruim de tiro mas ótimo de cabeça e coração. 

Quando o Ralph me passou a notícia eu fiquei tranqüilo, talvez já esperando pelo pior, a última sobre ele não tinha sido nada agradável, mas em poucos minutos a dor tomou conta deste peito aberto e as lágrimas não demoraram a chegar neste rosto que durante muitos anos sorriu com as piadas e as tiradas interessantes do nosso Olegário.

Diziam que eu dançava bem, sei disto e não tenho a modéstia de dizer o contrário, mas Olegarinho era um bom pé-de-valsa, aliás puxou o João Rosquinha, seu irmão, que era um excelente dançarino, mas o mano não fazia feio e, nos bailes no Clube Social de Pádua, era um dos primeiros a puxar a dama para o meio do salão e iniciar as contra danças. 

Muitos plantões lado a lado, não se assustem, não foram plantões médicos, eram jornadas noturnas na sede do TG 217 e eu, como cabo de guarda, o tinha sempre no comando e os plantões com ele ao lado era a certeza de que o sono não chegaria. Sempre alerta e sempre amigo ele despertava quem pensasse em tirar uma soneca em serviço ou a espera de suas duas horas do plantão à porta da velha sede do nosso Tiro de Guerra.

Nossa turma era boa de bola, Thiara, Júlio e David eram os craques, nós outros éramos os esforçados e até nos destacávamos, porém o Olegarinho era ruim demais e nisto não puxou um dos manos, Genuíno, um dos melhores jogadores que vi jogar em toda minha vida esportiva. Ele ia com a gente para as peladas, mas nem mesmo no TG, onde todos jogavam tudo, o cara não tinha lugar entre os reservas, pelo menos. Era sofrível com a bola nos pés ou nas mãos.

O que me deixa assustado, meu amigo Olegarinho, é que o tempo passou prá você e nós, seus amigos, não tivemos nem tempo de nos despedimos , você estava longe e distância nos impediu o último abraço, mas com certeza, não terei uma última lembrança de ti e guardarei com carinho todos os momentos felizes em que estava ao meu lado, dançando, rindo, contando piadas ou cantando, com esta voz desafinada, o Virundum ou Mula Preta, seus hits favoritos. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Meus ídolos do rádio esportivo

José Silvério é um dos ícones da narração esportiva brasileira, os cariocas e os mais novos não se lembrarão dele, os primeiros porque o rádio paulista não é bem ouvido na capital e os segundos porque rádio é figuração e não se ouve mais como nos meus tempos de garoto, quando ainda menino, lá em Miracema, era meu fiel companheiro e minha Internet bem moderna naqueles tempos de pouca informação. 

Bem, eu dizia que José Silvério, um dos grandes noves do radialismo esportivo, me abriu a memória e me levou a mergulhar em um passado maravilhoso, quando o rádio nos oferecia as mesmas emoções que hoje nos são trazidas pela televisão, quando o assunto é futebol ou noticiário geral, ou pela Internet, quando buscamos informações quentinhas sobre o cotidiano.

José Silvério foi o convidado do programa Bola da Vez, da Espn, que foi ao ar esta semana. O locutor esportivo, nascido no interior de Minas Gerais, que começou a sua carreira no Rio, Emissora Continental, ao lado de Clóvis Filho e outras feras dos anos sessenta, fez sucesso em São Paulo, na Jovem Pan, e hoje ainda irradia, como ele gosta de dizer, jogos pela Bandeirantes, a grande emissora dos anos dourados do rádio brasileiro.

Ouvindo sua narrativa me lembro o quanto o rádio foi fundamental para nós, amantes do locução esportiva e de tudo o que o rádio pode nos proporcionar. José Silvério, como eu e muitos outros, começou a narrar nas partidas de futebol de botão e se espelhando em grandes nomes daquela época, que nos faziam sonhar e imaginar como seria um jogo de futebol ao vivo e a cores.

Ouvindo sua história eu me envolvi completamente com o passado do rádio, fui buscar na memória os gritos de gols, os bordões, as palavras de ordem de grandes narradores, e tentei fazer comparações com os narradores de hoje e, infelizmente, não encontro um que eu possa dizer que teria lugar naquelas equipes espetaculares formadas pela Continental, Nacional, Globo ou Tupi, no Rio de Janeiro, Pan-Americana, Globo, Tupi, Gazeta ou Bandeirantes, em São Paulo. 

Cresci ouvindo as resenhas esportivas da Continental, as transmissões de Clóvis Filho sempre eram as minhas preferidas, embora quando Jorge Cury, o eterno narrador brasileiro, narrava jogo do Flamengo, bem aí a história era outra. Waldir Amaral eu já contei por aqui, mas a novidade de hoje, movida com a presença de José Silvério no Bola da Vez, é minha lembrança dos grandes locutores paulistas, no meu entender um espetáculo a parte no rádio esportivo brasileiro.

Meu grande ídolo era Haroldo Fernandes, da Tupi, o cara que me inspirou as primeiras narrações, ainda no futebol de botão. Haroldo dizia: “Gol do Palmeiras, Ademir da Guia, o homem da camisa 10, tá todo mundo correndo para abraçar aquele moço”. Bonito, né mesmo? Grande narrador e que prazer eu tinha em ouvi-lo, as vezes até esquecia que tinha jogo do Flamengo, no Rio, só para escutar Haroldo Fernandes.

Um outro que me inspirou bastante também estava no rádio paulista, mais recente um pouco, mas que regula idade comigo e tem boas histórias, eu já ouvi muitas, inclusive é, como eu, amante da música e um exímio cantor após algumas cervejinhas. Osvaldo Maciel é o nome dele, e seu bordão foi clonado por mim no início de minha carreira lá na Princesinha: “De peito aberto e o coração cheio de amor pra dar”. Osvaldo Maciel, só não era o primeiro narrador da Globo porque lá estava outro ícone, Osmar Santos, o “Pai da Matéria”, ídolo dos paulistas e que tentou fazer carreira na tevê e o sonho ficou no nascedouro, um acidente automobilístico tirou sua voz e  seus movimentos ficaram reduzidos. 

Bola pra frente, vamos sonhando com o rádio e imaginando que ele ainda é, e será por longos anos, o nosso fiel companheiro de todos os dias. 

domingo, 8 de setembro de 2013

Uma festa para nossos ídolos

Estava pensando com meus “botões”, será que a cidade aceita minha ideia de homenagear craques inesquecíveis e aqueles bons jogadores, que jamais ninguém se lembrou dele, exceto eu e outros amigos que os vimos jogar? Será que a municipalidade aceita a sugestão de fazer uma confraternização com estes grandes talentos não reconhecidos do nosso mundo da bola?

São perguntas que me faço constantemente para depois me lembrar de várias seleções de craques não famosos e outras tantas de jogadores que tem seus nomes registrado na história da bola e nunca receberam sequer um muito obrigado do torcedor miracemense.

Já contei aqui das minhas seleções, de meus times do sonhos, melhores que vi jogar, melhores que já joguei e até você, que me lê agora, sabe de cor e salteado a minha escolha pessoal, mas não sabe, ainda, quem são aqueles que sempre admirei e foram coadjuvantes de grandes craques, tipo, lá no Flamengo, o volante Merica, que era o faz tudo enquanto os meias tocavam o piano que ele carregava com entusiasmo e competência.

Sabem vocês que Rubinho Camelo foi meu grande ídolo da camisa 1, um dos três melhores que vi jogar em todos os tempos, mas vocês não sabem que Clecy Brandão foi também um cara que tinha tudo para brilhar em qualquer lugar do planeta bola, como jogava aquele moço, clássico, elegante e bem mascarado para seu tempo. 

E o Lé, que seguiu o caminho inverso meu? Jogava uma barbaridade e com uma simplicidade incrível, Lé saiu de Campos para Miracema e por aí está até hoje contando seus bons momentos com a camisa do Tupan. Sabe quem me lembra quando conto as histórias do Lé? Os da minha geração irão entender o que penso: Seu futebol tem traços, e bota traços nisto, do ótimo Paulinho Lolita, que formou  o melhor meio campo de minha época com o craque Ademir. 

Deu para perceber o talento do Lé? E o Juarez Beiçola? Que o Polaca sempre entregou a camisa 8 e o considerava titular absoluto. Juarez jogou com o Clecy e era, segundo aqueles mesmos que achavam o mesmo de Ademir da Guia, o craque do Palmeiras, lento demais. Perguntem ao Otavinho se Juarez era inteligente nos lançamentos? 

Melhor do que ele foi o Vadeco, mas este já está até no time dos sonhos e nas seleções de todos os tempos, hoje é dia de lembrar daqueles que fizeram a história ser mais perfeita, os chamados coadjuvantes, como o Pernoca, alto, magro e apesar de vez em quando apelar para as cacetadas, quando as pernas não obedeciam, sabia jogar e viveu uma fase espetacular jogando no Esportivo.

Tem aqueles fortões, chamados de trombadores, com rompante de centro avantes bem ao estilo Vavá, como o Juquinha, Zé Paulo, Jucão, Besouro, Onofre, inclusive estes dois se revelaram como bons zagueiros e hoje me fazem lembrar do Odvan, ora butinada, ora classe, será que tinham classe mesmo? Neste estilo, atacante porrador e goleador, estava também o Edil, lá de Venda das Flores, mas este sabia jogar e anexava a coragem, a força e o faro de gol para ser um dos melhores da cidade de todos os tempos.
Viram só? Já falei em um punhado de gente boa e fugi do objetivo, que é tentar fazer com que a cidade, leia-se Câmara de Vereadores e Prefeitura, entenda que é preciso mexer com a memória e fazer uma festa, simples e humilde como todos estes camaradas citados aqui e outorgar a alguns destes medalha de mérito esportivo que poderia ter o nome de nossos eternos ídolos e craques maravilhosos. 

Comenda Jair Polaca, Comenda Nézio Castro, Comenda José do Carmo, Comenda Gérson Coimbra,  Medalha de Mérito Esportivo Milton Cabeludo, Medalha de Mérito Esportivo Lauro Carvalho, Comenda de Mérito Esportivo Bitico e por aí vai, quem sabe a cada ano um destes craques ou abnegados do nosso esporte possam ser lembrados? 

Fica a dica. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Os filhos de Manoel Rogério

Estou prometendo a mim mesmo que precisava contar por aqui as histórias da família Nascimento, que tem o saudoso Manoel Rogério como líder. Os filhos, se não puxaram muito o talento artístico do pai, um marceneiro de alto nível, o exemplo, para quem não sabe, são os móveis da nossa Igreja de Santo Antônio, a Matriz de Miracema, que foram executados por ele, nasceram com uma veia de boleiros de fazer inveja a muitas famílias da terrinha. 

No meu ponto de vista, e também de quem o viu jogar, principalmente o José Maria de Aquino, o craque da família foi o Cleto, que nos deixou recentemente, um toque fino, inteligência a serviço dos companheiros, que ficavam sempre com o gol a disposição para marcar um gol para o Tupã, paixão de todos estes rapazes do Seu Manoel Rogério.

Seu Nézio, vizinho da família, sempre me dizia que Cleto era gênio da bola e gostaria de vê-lo no Botafogo, mas naquele tempo era difícil sair da terrinha para tentar a vida na cidade grande ou em um time da capital. Cleto ficou por Miracema exibindo-se para a torcida que lotava o Campo do América ou o Estádio Municipal.

O Bilu, que se não foi artista da marcenaria como o pai, depois de velho usou um outro talento, artes plásticas, segundo a minha mana Eliane, que tomou algumas aulas de pintura com ele, seria um grande artista se descobrisse mais cedo o dom e pudesse estudar em uma faculdade apropriada. 

Bilu foi um bom ponta esquerda, cheguei a jogar com ele no Miracema, e sempre usou o drible e a velocidade como arma mortal. Otavinho fez muitos gols com bolas roladas pelo ponta e Milton Cabeludo cansou de cabecear, certeiramente, as bolas alçadas na  área pelo arisco Bilu.

Careca (foto comigo e sua esposa Lurdinha) é meu contemporâneo, exímio cabeceador, talvez o melhor de todos os tempos na cidade e um dos dez melhores entre todos que vi jogar até hoje, uma impulsão incrível e uma força terrível no cabeceio. Bom goleador nos gramados e um bom cestinha nas quadras de basquete, soube tirar proveito da sua altura e sempre era elogiado no campo e no cimento pelo professor Nézio Castro.

O Hélio, professor respeitado na cidade, tiver o prazer de ser seu aluno, também andou jogando sua bolinha, era um bom atacante e com um bom passe, nas peladas do Ginásio Miracemense tinha seus fãs e não ficava fora das escolhas no par ou ímpar, sempre calado, mas com um gênio forte e por isto as vezes se portava como líder positivo.

Conversei com o Fernando Nascimento sobre o passado futebolístico do seu Manoel Rogério, se a veia era boleira, mas o meu mentor não soube me informar e assim como não tenho notícias de que o Ney, outro membro da família Nascimento, jogou em um dos times da cidade, não me lembro dele nem mesmo nas peladas, mas dizem que também batia uma bola de respeito e tinha um faro de gol como o mano Sérgio Roberto, o Careca.

E a outra geração? Craque com C maiúsculo era o Biluzinho, excelente no lançamento, inteligente com a bola nos pés, arisco como ponteiro e dono de um chute certeiro e quase mortal quando acertava da entrada da área. Foi um dos ícones do Bandeirantes e do Brasil, onde com o irmão Fabinho, lateral direito, jogou por longos anos. Dizem até que o Biluzinho era o clone do Tio Cleto, e eu assino. 

Desabafo

Na semana passada, passeando pelo calçadão de Campos, encontrei meu médico cardiologista começando sua caminhada. Por um momento pensei em seguir seus passos e lhe fazer companhia na sua andança diária. Porém, tem sempre um porém, nem sempre a gente sabe se as pessoas gostam de caminhar conversando, proseando com alguém ou preferem o silêncio durante as passadas. 

Parei a sua frente e o cumprimentei e, para minha surpresa, recebi dele o convite: “Aperte o passo, vamos andar comigo, preciso conversar contigo. Citei você em uma consulta com um paciente e me parece que está dando resultado, quero lhe explicar e pedir permissão para continuar a conversa com ele, não vou lhe dizer o nome mas é seu amigo também”, me disse o doutor. 

Como eu estava bem paramentado para uma caminhada, bermuda leve, camisa do Boca Júniors, tênis especial e uma meia curta, resolvi seguir o doutor para ouvir a novidade sobre a sua nova terapia, que teve este que vos fala como exemplo, aliás fiquei todo bobo ao saber do caso.

Seu amigo está depressivo, triste, não está querendo nada e com medo de morrer, diz o médico. Falei com ele para te procurar e fazer umas viagens contigo, você é um paciente que me deu grandes alegrias, chegou no meu consultório bem pra baixo e hoje está recuperado graças as suas atividades físicas e sociais, coisa que ele está se desligando completamente.

E andamos conversando sobre o Flamengo, sobre nossas viagens, sobre família e remédios que ainda tomo ou deixei de tomar, mas isto durou pouco, meia hora apenas, tempo suficiente para eu me motivar e ligar para o nosso amigo em comum, ele me disse o nome no final da caminhada,  e mostrar para ele que existe vida após infarto e de uma depressão.

Dois dias depois, por volta das quatro da tarde, fui até a casa do amigo, dei a desculpa de que queria ver o DVD do Agnaldo Rayol, que ele comprou na semana passada, e puxei assunto sobre as suas consultas, claro que não disse que o médico me contou e não dei tempo nem para sua resposta. 

Fui direto ao assunto, falei da minha pressão, normal há algum tempo era 20x14, falei dos remédios para depressão, do pânico para viajar ou andar pela rua sozinho e coisa e tal, não deixei ele sequer responder alguma destas colocações, falei... Falei... E depois o deixei a vontade para me contar ou não o seu momento ruim.

A seu lado, a esposa, cúmplice com o médico e comigo, dava corda e deixava eu falar a vontade e o amigo ouvia atentamente sem ao menos esboçar uma resposta. Fiquei preocupado, ele me parecia estar naqueles dias de pânico ou depressão leve, mas ouvimos o DVD, sem uma cerveja ou um vinho, não aceitei para não atrapalhar a medicação dele, e fui para casa.

Ontem, andando novamente pela cidade, encontrei meu cardiologista animado que me perguntou: “O que você arrumou com seu amigo? Ele está feliz da vida, quer passear por aí, comprou um simulador de caminhada como o seu, está com a pressão 14x9, quase no lugar, e já fala em sair contigo para conhecer o Uruguai. Obrigado, você foi muito importante para sua recuperação.”, completou o médico.

Isto mesmo, tive uma vida complicada no Banerj/Itaú, como o meu amigo está tendo neste momento em sua empresa, entrei em pânico, perguntei “Quem Roubou Meu Queijo” por várias vezes, pressão descontrolada, depressão ameaçando me pegar pelo pé e me recuperei, primeiramente graças a Marina, filhos e irmãs, e depois por ter coragem de sair por aí viajando, conhecendo novas pessoas e enfrentando a “fúria” dos aviões e dos lugares distantes, que me davam medo e coragem ao mesmo tempo.

Muita gente me pergunta se tenho grana para passear, sempre digo que não, apenas tenho coragem e necessidade de andar por aí para afugentar um terrível medo do pânico e da depressão, que só tomam o corpo e a mente de quem os deixam sem movimento, com histórias para contar e sem remédios fortes para impedir o ir e viramos um turista normal e cheio de vida para outras jornadas. 

40 anos se passaram

  Guarânia, 40 anos e outras           armadilhas do tempo Cuiabá, virada dos anos 70 para 80. Calor, gente suando elegância e promessas de ...