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Eu, o rio, o mar, o medo e as aventuras

Minha história com a água não deveria ser muito fértil em causos ou aventuras mirabolantes, os mergulhos no velho Ribeirão Santo Antônio não foram tão profundos ou emocionantes como dos meus primos Joel, Paulo ou Marcos, que me levavam até o poço da Usina Santa Rosa e me “obrigavam” a criar coragem e pular de ponta do barranco mais alto.

Até que dei umas braçadas no Rio Pomba, nas imediações de Paraoquena ou Campelo, nadei nos famosos córregos do Moura, do Sombreiro e fiz algumas exibições de mergulhos na ponte do Aero Clube, claro que em períodos de grandes cheias do velho Santo Antônio, mas nada que fosse além do normal, diferente de outros garotos de minha idade, corajosos e valentes quando o assunto era água.

Em Itaperuna foram raras as vezes que acompanhei os primos Marcelo e Alexandre para um nado no Rio Muriaé, o primo Fernando, mais velho e mais consciente, vigiava de perto e sempre atento a mostrar onde poderia ou não cair ou mergulhar. Seus olhar vigilante me tirava a confiança e por isto jamais dei boas braçadas nas águas do Muriaé. 

Cheguei à Campos quando não mais podíamos usar o Rio Paraíba como lugar para um nado refrescante, recreativo ou esportivo, a poluição já tomava conta do tradicional rio e, para não dizer que é um desconhecido para mim, visitei, depois de alguns anos na cidade, o Pontal de Atafona (foto), levado pelo amigo Pedrinho Souza, e desafiei a correnteza do Paraíba em boas braçadas.

Minha paixão pelos rios me fez viajar por Minas Gerais, a procura de cidades banhadas pelo São Francisco, me levou às margens do Rio Coxipó , em Cuiabá, me fez mergulhar no Rio Quente, no Mato Grosso, e a conhecer o Rio Tietê no entorno da grande São Paulo. Decepções, alegrias,(foto) deslumbramentos foram constantes, mas nada supera a emoção de ver uma queda d’água no Rio Paraná ou um passeio de canoa, no Rio Muriaé, levado pelo primo José.

Rios famosos, rios pequeninos, açudes, ribeirões e até mesmo córregos, como os do município de Lage do Muriaé, onde passei férias durante longos anos, estão ainda na minha memória. Nas fazendas Paranhos e da família Sá, alguns trechos já eram tão conhecidos por mim que já andava e mergulhava de olhos fechados, coisa de criança sem juízo e sabedora que os anjos estavam sempre a meu lado.

O compositor Sebastião Motta, pai dos amigos Marco Aurélio e Carlos Fernando, disse certa vez que seu sonho era navegar pelo Rio Sena e mijar no famoso rio dos franceses. Seu filho, Carlos Fernando, o fez e pensou no pai e eu, depois de alguns anos, também o fiz e cantei em sua homenagem o samba mais conhecido dele, “eu não quero mais amar...” 

Andar no Bateaux Mouche (foto) tomando um vinho e admirando a Torre Eiffel é sono para muitos e realização para poucos. Olhar para o Rio Tejo, em sua margem mais famosa, na Lisboa iluminada e se deliciar com um bacalhau a moda portuguesa regado a um vinho do Porto é realização pessoal e sonho de criança.


Se não atingi meu objetivo de ir ao Rio Jordão,  onde Jesus foi batizado, pelo menos conheci o Danúbio (foto), o rio da valsa mais famosa de Strauss, andei pelo Rio Reno, de tanta importância para os alemães, e vi o Rio Tâmisa por sobre a ponte e por baixo, através de um viaduto que liga a margem oeste a margem leste de Londres.

Se os rios me impunham respeito imaginem o mar, este grande desafio dos não corajosos? Copacabana, Leblon, Cabo Frio e suas águas realmente frias, as águas barrentas de Atafona, Grussaí, Marataízes, as águas calmas de Piúma e a beleza do mar de Guarapari estão sempre fazendo ondas na minha cabeça e na minha memória.

Se tive o privilégio de ver, navegar, nadar e até mijar em rios de grande porte ou mergulhar naqueles de menor envergadura, tenho também o orgulho de ter conhecido três oceanos, o nosso Atlântico, o Índico e o Pacífico, ter colocado os pés nas águas do Mar Mediterrâneo e passear na famosa Cotê d”Azul, a ilha dos milionários franceses, que passeiam com seus veículos de luxo e iates caríssimos pelas orlas de Nice, Mônaco ou Monte Carlo.

Para quem sempre respeitou a água e medrava quando nela mergulhava, até que a história é bem bacana e muito pródiga em detalhes e aventuras. 

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