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Causos e histórias de Pinheiro

Esta semana tivemos a notícia do falecimento do ex-zagueiro e treinador Pinheiro, cria do Americano e ídolo da torcida do Fluminense durante longos anos. João Batista Carlos Pinheiro morreu no Rio de Janeiro, aos 79 anos, vítima de um câncer de próstata que o derrotou sem trégua. Porém, tem sempre um porém, seus amigos e companheiros lembram de algumas histórias do craque.

Pinheiro era um cara espetacular, diz o radialista Sérgio Tinoco, humano, profissional exemplar e um currículo de fazer inveja a muitos jogadores que hoje tentam carregar a fama conquistada através de assessores de imprensa.

Ele, prossegue Sérgio Tinoco, era um bom amigo de meu irmão, Geraldo, e sempre que havia clássico envolvendo o Fluminense, no Maracanã, nós saíamos de Campos e chegávamos cedo na concentração do Fluminense, na rua Paissandu, e por lá ficávamos, na varanda, proseando com Pinheiro, Telê e outros jogadores do tricolor antes de seguirmos para o Maracanã.

Certa vez, lembra Tinoco, em São José do Rio Preto/SP, o Americano chegava ao estádio para enfrentar o América e, na entrada, um moleque na porta esperava pelo time alvinegro e, ao ver o treinador gritou: “Olha só o nariz do homem, vai faltar ar no campo esta tarde”. Pinheiro olhou de cara feia para o guri e disparou um punhado de palavrões, como era de se esperar.

Uma outra passagem, agora pelo Goytacaz, também na chegada para um jogo, o ônibus recém comprado pelo dirigente Amaro Gimenez, apelidado de Trovão Alvianil, todo pintado de forma extravagante, chegava à cidade recepcionado de forma hostil pela torcida adversária. Alguém, de dentro do veículo, tentou revidar e Pinheiro, com seu vozeirão bem conhecido, mandou de lá: “Calma, minha gente, estamos entrando em território inimigo e a estratégia no momento é silêncio total”.

Prá fechar o papo com Sérgio Tinoco ele nos lembra da decisão do Campeonato Carioca de 1960, contra o América, que sagrou-se campeão naquele ano, mas Pinheiro deixou sua marca e uma passagem interessante, que mostra seu profissionalismo.

O pai dele faleceu na madrugada do domingo, dia da decisão, e mesmo assim Pinheiro foi para o jogo e manteve a tradição de impor respeito na zaga e cobrar faltas com perigo e pênalti com precisão. Lá na metade do primeiro tempo houve uma penalidade máxima contra o América e lá foi o zagueiro para a cobrança.

Ary, goleiro do América, sabendo o falecimento do pai do cobrador oficial, foi até na marca da cal e falou um monte para Pinheiro, enervando o zagueiro. Apito do árbitro e Pinheiro, irado com o goleiro, mandou uma “bicuda” que explodiu no peito do goleiro, mas no rebote e ele marcou o gol tricolor, que não foi suficiente para a conquista do título, mas mostrou o lado profissional do jogador.

Foi Pinheiro que lançou Célio Silva nos profissionais do Americano, em 1987. O elenco ficou sem três zagueiros, contundidos, e Célio já treinava, a pedido do treinador, entre os profissionais. Na primeira vez que fui treinar nos profissionais o professor me perguntou onde eu jogava, conta Célio Silva, e disse que em qualquer lugar.

O tempo passou e não entrei no treino, continua o ex-zagueiro, e perguntei a ele o que acontecera. Ele respondeu: “A gente não joga em qualquer lugar, temos que escolher o que queremos e trabalhar nos erros e aprimorar os acertos, quando você se decidir onde quer jogar volte aqui para treinar”.

Faltaram três zagueiros na mesma semana e no domingo estreei, em Itaperuna, com a camisa do Americano, contra o Porto Alegre e daí prá frente Pinheiro me abriu as portas e tudo deu certo, arrematou Célio Silva, que ficou bem abalado com a morte de seu amigo Pinheiro
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