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MINHAS ESTRELAS GUIAS

Sábado de Copa do Mundo, um friozinho legal, e quase cochilando dou uma sacada na tevê e ouço, isto mesmo, ouço, Angélica no seu Estrelas (Marina é fã), e uma homenagem me chama a atenção. Marco Nanini faz justiça a sua professora de primário, lá em Belo Horizonte, no longínquo ano de 1974, Dona Maria do Carmo,, que despertou o desejo de estudar no garoto Marco Antonio.

Levantei a cabeça, arrumei o travesseiro e fechei os olhos tentando buscar naquele quadro do programa algo do gênero para colocar aqui umas mal traçadas linhas, homenageando as minhas mestras, ainda vivas, dos tempos do Grupo Escolar Prudente de Moraes. Do trio que me vem a memória apenas duas, felizmente, estão por aí vivendo intensamente a merecida aposentadoria.

Minhas lembranças em que o pré-primário, acho que naquele tempo não era assim que chamávamos, era Jardim de Infância, são bem nítidas, mas juro que uma professora não vem na minha mente e o que me clareia são as festinhas e as músicas de Dona Maria do Carmo Alves da Cruz, pianista e orientadora, no auditório do Clarinda Damasceno.

Busco no baú de memória, sem muito esforço, e me vejo já no Prudente de Moraes, sob a batuta educada e singela de Dona Orlanda Aversa, que por algum motivo, acredito eu por gravidez de Lidia Emília, deixou a turma e aí encontramos Dona Maria Selma Tostes, que nos levou a aprender as primeiras palavras e completou tudo aquilo que Dona Orlanda havia começado. Se me equivoquei ou deturpei algo, Dona Maria Selma, me perdoe, aceito correções, mas tenha certeza de que aqui, neste peito aberto e safenado, tem um lugarzinho com seu retrato guardado.

Eu sempre comento, em rodas de amigos, que tenho algumas mulheres que marcaram minha vida e deram sentido a ela. Dona Lili, a mãe adorada, Dona Maria, avó amada, quatro irmãs (Eliane, Tereza, Celeste e Patrícia), quatro primeiras amigas (Gracinha, Catarina, Zezé e Jane), uma esposa (Marina) e uma filha (Gisele), que me fizeram, e fazem, ser o que sou.

Mas hoje, vendo o Estrelas, da Angélica, quem brilha no meu coração é outra professora, que ainda menina aceitou o desafio de enfrentar os “renegados” do Prudente. Uma turma de quarta série candidata a fazer, e fracassar, o exame de admissão para o ginásio. Uma turma de 12 garotos levados e, segundo algumas professoras, “endiabrados” e sem rumo.

Dona Jurecê Andrade não se deixou abater. Adotou a turma como se filhos fossem, deu o que faltava para a grande maioria, carinho e atenção, e fez de nós ótimos meninos e todos, eu disse todos, os “encapetados” foram aprovados para o Ginásio Nossa Senhora das Graças, reza a lenda, o mais difícil exame de admissão da cidade.

A professora Jurecê virou ídolo de todos nós, que aprendemos a admirará-la e amar como nossas mães. Naquele tempo não tinha este negócio de “tia”, era dona mesmo, e Dona Jurecê jamais encostou a mão, ou a régua como era de costume, em um de nós. Olha que a turma era realmente da pesada. Não éramos maus elementos ou arruaceiros, nós tínhamos hábitos diferentes de muitos e, hoje sabemos que isto se chama hiper-atividade, mas nos anos 50/60 não era bem visto pelas diretoras dos colégios e a palmatória e os caroços de milho, como castigos, eram normais.

Jamais ouvi um grito histérico vindo de Dona Jurecê, sua voz era terna, meiga e quando ficava brava, meu Deus, sai de baixo, era bronca no ouvido e a turma toda pagava o preço da alteração de um companheiro. Doce lembrança, doces anos dourados e bem vividos.

Ah! Se eu pudesse ter um espaço maior esta semana por aqui, juro que abriria um cantinho especial para Dona Mariquinha, Dona Edir, Dona Nádia, Dona Climene, Dona Ivete, Dona Solange e tantas outras, cujos nomes estão no baú da memória, mas a tampa ainda está fechada. Um abraço a todas as professoras que um dia me fizeram ser tudo isto que eu acho que sou, um cara legal e cheio de intimidade com as letrinhas, que elas me ensinaram a decifrar
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