Pular para o conteúdo principal

Amor... ódio... rivalidade


Cresci ouvindo que Pádua, uma cidade vizinha à Miracema, era inimiga e que tínhamos que odiar os paduanos. Cresci assistindo brigas histórias nos clubes de minha cidade entre meus conterrâneos e os nossos vizinhos. Tentaram me ensinar que tudo isto era correto, não gostar de Santo Antonio de Pádua e seus moradores era normal.


Um dia assisti a um vandalismo incrível, que me deixou traumatizado e ferido no peito e na alma. Um bando de fanáticos miracemenses atirava pedras em direção aos veículos de Santo Antonio de Pádua, que acompanhavam uma procissão de Nossa Senhora de Fátima, nas imediações da Praça Dona Ermelinda, a principal da cidade.



Vivi toda minha infância tentando entender porque das brigas nos estádios e nos campos de futebol. Brigavam só porque os times, nos gramados, eram de Miracema e de Santo Antonio de Pádua. Sofri agressões em meu tempo de boleiro porque vestia a camisa do Esportivo ou do Tupã em jogos contra o Americano, de Pádua, e/ou Paduano. Tudo isto era possível naqueles anos 50/60.



Diziam-me que era uma rivalidade sadia e que era necessário incrementá-la para evolução da cidade. Jamais acreditei nesta lenda. Sempre me fiz respeitar pela educação e amizade para com o povo daquela vizinha cidade. Meu coração não cabia tanta maldade e tanto ódio e por isto acreditava que um dia eu teria paz nos bailes do Clube Social de Pádua e no Campestre Pádua Clube. Eu estava correto, este dia chegou.



Não seria eu o primeiro miracemense a vestir a camisa do Paduano EC, nem o primeiro a participar de um conjunto musical daquela cidade, como também não seria o primeiro a casar com uma garota daquela cidade. Nos anos 70, já com outra mentalidade, os jovens tornaram uma tradição o namoro entre miracemenses e paduanos (as), a cada ano um casamento entre moços e moças das cidades. Bem legal, não acham?



Então, por que tenho que torcer contra a Argentina? Por que tenho que odiar Maradona? Cresci lendo que por lá, no país vizinho, tinha o segundo melhor futebol do mundo, diziam que nós brasileiros éramos melhores. Por que não ganhávamos deles nas copas continentais entre seleções ou clubes? Eram melhores sim, um futebol de dar gosto, adorava ir ao Maracanã vê-los em ação. Repito: Por que odiar os hermanos?



Vi Ratin, em 66, peitar a Inglaterra lá no território deles e senti que aquele era o cara. Os brasileiros foram eliminados, vergonhosamente, por Portugal e eles, os argentinos, venderam caro a eliminação pelos donos da casa. “Um roubo”, diziam os cronistas daquela época.



Vi Roberto Perfumo, um zagueiro brilhante, jogar com a camisa do Cruzeiro, no Maracanã, e conquistar títulos. Sofri quando Doval, craque argentino, deixou o Flamengo, onde brilhou intensamente, para vestir a camisa do Fluminense.



Sou um fã incondicional de Maradona, um dos mais perfeitos craques que vi jogar. Sou vidrado no futebol de Messi, que não chega a um Maradona, como dizem os argentinos, mas é, sem dúvida alguma, o que de melhor temos no futebol de hoje. Sou admirador de D’stefano, embora não tenha visto jogar tenho guardadas várias imagens do craque do Real Madrid. E por aí eu posso enumerar um punhado de craques platinos que fizeram a história do futebol sul americano e mundial. 



E então eu pergunto: Por que odiar a Argentina e os argentinos? Porque me ensinaram isto quando criança, assim como tentaram me ensinar a detestar Santo Antonio de Pádua? O interessante é que a mídia, esta mesma que nos leva a não gostar dos argentinos, um dia me disse que Fernando Meligeni, o Fininho, nosso tenista, era o ídolo da raça brasileira. Como? Ele, Fininho, não é argentino? 



Ah! Tá bom, teve a Copa de 78 que garfaram a gente. Legal. Então devemos odiar é a Fifa, que liberou a gandaia e a CBF, que deve ter aceitado a armação. Aliás, a mesma armação de 94, quando a entidade mundial tirou a Argentina da Copa, com aquela punição a Maradona, só porque os hermanos tinham o melhor time do mundo e Maradona estava brigado, por ter falado a verdade, com a Fifa, e vetado para comemorar mais um título.



Tem gente que gosta de Júlio Baptista, eu gosto do Messi, outros preferem o Felipe Melo, eu prefiro o Verón, alguém vai dizer que nosso ataque é bom, concordo, mas o da Argentina é excelente. Ah! A nossa defesa é melhor do que a deles. Tá legal, vamos continuar procurando erros e insistir na insana rivalidade gratuita. O que te fez a Argentina, ou argentinos, nesta sua vida esportiva ou social? Dez minutos para pensar e... Um abraço.

Comentários

Gilson Coimbra disse…
Grande Adilson... outro dia estava lendo isso aqui e ontem não tive como não me lembrar deste texto. Voce viu o vídeo do SporTV sobre o Paraguai ? Que coisa mais estúpida... mais grosseira... mais anti-jornalistica (quem sou eu para julgá-los, mas...). Fico espantado como uma emissora deixa uma matéria daquela ser apresentada... Deboche puro com um país vizinho... Coloquei no meu blog o video, que já ocasionou resposta dura do "La Nacion" paraguaio... Exatamente isso aí que vc diz ...
Grande abraço amigo...
Gilson Coimbra disse…
Só mais uma coisinha:

"Vi Ratin, em 66, peitar a Inglaterra lá no território deles e senti que aquele era o cara.."

Também não me esqueço dessa imagem rapaz... ele dando a volta na bandeirinha de corner à esquerda e fazendo com as mãos, para que todos vissem, aquele gesto de quando estamos sendo roubados...

O final dessa Copa, todos sabemos... o gol da bola que não entrou...

Um abração, mais uma vez...

Postagens mais visitadas deste blog

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno? Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano. Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”. Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma. O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como ...

As badaladas da Ave Maria

São várias lembranças que me fazem buscar o computador e escrever, antes de que desapareça de meu pensamento, sobre o cair da noite, ou o cair da tarde na linguagem poética, principalmente de Augusto Calheiros em sua Ave Maria, datada de 1953, e que fez um punhado de senhorinhas, que sentavam à beira da calçada, suspirarem com a passagem do seu possível par romântico nos bailes da vida.  Pode ser também a angústia que me bate nestes períodos, lembrando dos dias solitários no Rio de Janeiro, quando pensava em Miracema e declamava os versos de Fernando Nascimento:  "Quando a lua desce aqui no Rio, eu sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio. Quando a Lua nasce cor de prata eu relembro Miracema em serenata." E seria a lembrança de minha mãe, que nesta segunda-feira, 29 de julho, completaria o seu centenário, que não será comemorado em vida, mas a lembrança das velas acesas, para esperar as badaladas, que na verdade eram as seis badaladas da manhã repetidas à noite, e que também s...

AO SOM DE CARTOLA, ELIS E OUTROS

Revendo textos - Esta é de outubro de 2005    Quatro horas da tarde. Lá fora o sol forte, aqui dentro o ar refrigerado ligado no limite e na vitrola o disco de João Gilberto, em volume médio, toca para motivar este velho escriba a falar sobre música e artistas. Ligo para meu amigo Motta, que está na internet –sua nova companheira- e me recuso, no momento, a entrar na grande rede. O telefone toca. Penso em não atender. Marina chama: É prá você. É o Solon. Bingo. Era o que precisava para traduzir certas canções de Cartola. Pensava até em ligar para o Nascimento, lá em Miracema, mas Solon chegou na hora.  Fala aí, amigo velho. – Amigo velho, não. Velho amigo. Fica mais poético e mais saudável. – O que manda? – Acho que preciso de alguém para conversar, estou só e os dedos estão cansados demais para dedilhar nas teclas do computador. – Eu até gostei de sua ligação. Tava pensando em fazer umas colocações sobre a música de Cartola e só mesmo quem viveu estes momentos pode divid...