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COPA DO MUNDO É PAIXÃO NACIONAL

Desde pequeno ouço falar sobre Copa do Mundo e estas histórias me fizeram a cabeça. A primeira que ouvi alguém contar foi a de 1950, meu pai estava por lá, entre os duzentos e poucos mil brasileiros frustrados com a derrota para o Uruguai, e a que me fez sentir como aqueles patrícios foi a de 1982, quando sentado à beira da calçada eu chorei, ao lado de meu filho Ralph, a derrota para a Itália.

Tenho muitas histórias de Copa do Mundo, sem jamais ter ido a uma sequer, e, desde 1958 vivo intensamente este período e guardo comigo uma série de recordações, algumas escritas, outras com material de divulgação, me ofertados por amigos como João Moreno, Geneci Pestana ou José Maria de Aquino, habituais participantes, ao vivo e em cores, dos jogos de mundiais.

Guardo com carinho uma lembrança, aqui é só lembrança, da Copa de 1970, no México, a primeira vista por nós via televisão, e também a primeira que vi o povo nas ruas cantando, decorando calçadas, paralelepípedos e muros da minha cidade. Vi uma alegria incontida, não sei se era uma fuga de tudo aquilo que acontecia neste país, a ditadura nos tirava o direito de ir e vir e nos tolia quando o assunto era política ou sociedade.

Votando no tempo, Copa da Inglaterra, já na era radinho de pilha, o meu era emprestado pelo Tio Clery Picanço, representante comercial que passava por Miracema de trinta em trinta dias para ver minha mãe -sua irmã Lili - e naquele Mitsubishi bonito e funcional eu ouvi toda sina brasileira e a derrocada de nossa seleção de velhos camaradas.

Deixo bem claro que depois, no Cine XV, ou seria no Cine 7, vi na telona, através do Canal 100, toda trajetória do time brasileiro. Achei uma vergonha e não fiquei triste com o que assisti, afinal já esperava por aquilo, nossa seleção era um bando desorganizado e sem comando.

Minhas amigas detestavam futebol, mas quando se aproximava a Copa do Mundo as gurias se assanhavam e se esbaldavam em frente a tevê e nas ruas, após as vitórias brasileiras. Lá na terrinha houve um rebuliço danado durante a Copa de 1974, a primeira na Alemanha, a turma já tinha feito um aquecimento em 1970, quando vencemos no México, e mesmo sem Pelé no time acreditamos na estrela de Zagallo e no seu ótimo time, comandado por Roberto Rivelino.

Aí entra um papo que me incomoda. Falam que Zagallo tem estrela, que Zagallo é um cara de sorte e que é o maior vencedor de Copas do Planeta: Foi campeão, como jogador, dois anos consecutivos e um como treinador, com um time montado por João Saldanha, um comentarista esportivo apaixonado por táticas e disciplina.

Vamos continuar em 1974 e ver o que deu: Brasil favorito absoluto, mesmo sem o Rei Pelé, mas o treinador não conhecia a Holanda, o fenômeno do momento na Europa, e não se preocupou em ter informações sobre a Polônia, de Lato, que fazia chover no velho continente. E o resultado todos vocês sabem, perdemos a copa para a tristeza de minhas amigas lá de Miracema, que não foram as ruas, com seus namorados e paqueras, para uma volta nos carros decorados pela turma do David.

Pulamos outras copas e vamos até 1998, na França, quando ele, Zagallo, também era nosso comandantes. Ele não se interessou em conhecer o esquema tático do adversário e pouco se importou com um jovem chamado Zinedini Zidani, que brilhava no time francês e já se tornara um astro internacional. Zagallo perdeu mais uma.

Pula mais duas e vamos a 2006, ele estava naquele amontoado de estrelas decadentes e seus conselhos a Carlos Alberto Parreira foram insuficientes para apagar o fracasso retumbante da troupe circense que invadiu a Suíça, nos jogos preparatórios, e a Alemanha, durante a competição.

Somou ai? Duas copas como jogador e duas conquistas. Três copas como treinador e uma conquista, com um time montado por outro. Duas copas como integrante da comissão técnica com uma conquista e uma derrota. Será que Zagallo tem mesmo sorte ou uma estrela guia?

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