Pular para o conteúdo principal

UMA DECISÃO BEM LEGAL

Dona Bilu, a minha mais nova, e, quase, centenária amiga, me liga alvoroçada e com uma voz de quem está “pregada” da maratona carnavalesca vivida em Guarapari na última semana. “Olá, meu amigo, estou chegando ao Maracanã”, diz ela via celular, “cheguei ontem, ainda bem cansada, mas hoje pedi ao meu neto que me trouxesse ao palco da decisão da Taça Guanabara para ver meu Botafogo”.

Recebi a ligação com lágrimas nos olhos, eu já disse prá vocês o prazer de conhecer a nossa quase centenária Bilu, uma carioca/capixaba, alvinegra de boa cepa, e amiga de Heleno de Freitas, o antigo artilheiro do Botafogo na década de 40. Passamos quatro dias falando de bola, de veteranos craques e de carnaval, e, no domingo, a senhorinha já estava animada para ver a decisão contra o Vasco.

“Vamos nos vingar, meu amigo, o Vasco não irá travar a sorte do Joelzinho”. Tomara, dizia eu na ocasião. Ao chegar para um almoço, no Restaurante Bolinhas, na principal avenida de Guarapari, onde o garçom Luiz Carlos, vascaíno fanático, dizia justamente o contrário: “Joel só conhece bem o Flamengo e acredito que Mancini vai dar um nó tático no Natalino”, garantia o mineiro de Visconde do Rio Branco e ex-jogador do América carioca.

Após um bom prato de bacalhau à Gomes de Sá, saí com Marina pela calçada esperando o tempo passar e um médico capixaba, que trabalha como voluntário em clubes como Vilavelhense, Desportiva e Serra, perdão por não ter anotado o nome do meu companheiro de prosa que trajava a camisa nova do goleiro Fernando Prass, me parou para um dedo de conversa. “Eu ouvi você falar com o garçom que é jornalista esportivo e este sempre foi o meu sonho, escrever ou falar sobre futebol e suas belas histórias”.

Não precisa, meu caro doutor, você já faz o suficiente para deixar o futebol mais sério e o seu trabalho, pelo pouco que me contou, tem tanta importância quanto o meu, aqui nas páginas do Diário e nas linhas do Blog do Penacho. Ele queria arrancar meu palpite e, de cima do muro eu disse: Vai dar empate e nos pênaltis vai vencer quem tiver mais sorte.

Eu vou lá torcer contra a Dona Bilu? Vou torcer contra o garçom simpático e inteligente como o Luiz Carlos? Será que o doutor, com sua empatia e simplicidade, merecia ouvir que eu gostaria de ver uma vitória do Fogão, em homenagem ao meu cunhado Arthur e o sobrinho Rafael, para que ambos vivessem momentos mais felizes do que aqueles passados após a goleada da fase classificatória? Neca de pitibiriba, eu torci mesmo por um empate, com muitos gols, para que eu pudesse ter muito assunto aqui neste papo de terça-feira.

Intervalo de jogo lá no Maracanã e o celular volta a vibrar na mesa. “Alô, meu amigo Dutra?” Era Dona Bilu novamente em ação. “Você viu o pênalti que o danado do Marcelo Henrique não marcou no meu amado e louco gringo Abreu?”. Vi e creio que o Marcelo Henrique mais uma vez errou contra o seu Fogão, minha cara amiga, mas cá prá nós, eita joguinho ruim, hem? Parece até que o pessoal teve medo de vencer e fazia de tudo para ir para a penalidade máxima, não é mesmo?
Isto foi no primeiro tempo, pois na etapa final a proposta de jogo tanto de Joel como de Mancini dava a impressão de que iria mudar. “Pior não pode ficar”, dizia dona Bilu.

E não ficou mesmo. O segundo tempo do Botafogo, porque não dizer do jogo, foi excelente e o alvinegro fez jus a grande vitória. O Vasco se perdeu após o gol e Nilton fez a grande besteira de agredir o garoto Caio e daí prá frente só deu Fogão. Um pênalti, bem marcado, definiu a partida e deu mais um título da Taça GB, o segundo consecutivo, ao Glorioso de General Severiano.

No final o telefone tocou e a voz rouca chegava bem leve: “Você é pé quente, meu novo amigo. Te segura aí que agora vou encher o saco todos os jogos, afinal ser Botafogo é ter superstição”, era Dona Bilu que se despedia feliz da vida com mais um título em sua coleção quase centenária.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno? Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano. Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”. Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma. O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como ...

As badaladas da Ave Maria

São várias lembranças que me fazem buscar o computador e escrever, antes de que desapareça de meu pensamento, sobre o cair da noite, ou o cair da tarde na linguagem poética, principalmente de Augusto Calheiros em sua Ave Maria, datada de 1953, e que fez um punhado de senhorinhas, que sentavam à beira da calçada, suspirarem com a passagem do seu possível par romântico nos bailes da vida.  Pode ser também a angústia que me bate nestes períodos, lembrando dos dias solitários no Rio de Janeiro, quando pensava em Miracema e declamava os versos de Fernando Nascimento:  "Quando a lua desce aqui no Rio, eu sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio. Quando a Lua nasce cor de prata eu relembro Miracema em serenata." E seria a lembrança de minha mãe, que nesta segunda-feira, 29 de julho, completaria o seu centenário, que não será comemorado em vida, mas a lembrança das velas acesas, para esperar as badaladas, que na verdade eram as seis badaladas da manhã repetidas à noite, e que também s...

AO SOM DE CARTOLA, ELIS E OUTROS

Revendo textos - Esta é de outubro de 2005    Quatro horas da tarde. Lá fora o sol forte, aqui dentro o ar refrigerado ligado no limite e na vitrola o disco de João Gilberto, em volume médio, toca para motivar este velho escriba a falar sobre música e artistas. Ligo para meu amigo Motta, que está na internet –sua nova companheira- e me recuso, no momento, a entrar na grande rede. O telefone toca. Penso em não atender. Marina chama: É prá você. É o Solon. Bingo. Era o que precisava para traduzir certas canções de Cartola. Pensava até em ligar para o Nascimento, lá em Miracema, mas Solon chegou na hora.  Fala aí, amigo velho. – Amigo velho, não. Velho amigo. Fica mais poético e mais saudável. – O que manda? – Acho que preciso de alguém para conversar, estou só e os dedos estão cansados demais para dedilhar nas teclas do computador. – Eu até gostei de sua ligação. Tava pensando em fazer umas colocações sobre a música de Cartola e só mesmo quem viveu estes momentos pode divid...