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EU NÃO VOU A MIRACEMA

Eu pensei em, mais uma vez, fazer o meu carnaval em Miracema. Apenas pensei.Depois de uma reflexão, colocando a mente prá funcionar, buscando um melhor ângulo de ver o que passou nos últimos anos, cheguei a conclusão de que ir para Miracema seria contraproducente. O melhor mesmo seria fazer como a grande maioria dos meus conterrâneos, buscar uma praia, como Guarapari por exemplo, e ficar na encolha por dez dias.

Tentando achar uma justificativa, já que assim exigia meu bom amigo Ermê Sollon, fui refazendo o caminho percorrido em 2009, narrando o que fiz nos quatro dias de folia por lá e o que tentei fazer, e não consegui, durante a minha estadia na Santa Terrinha.

Não há mais desfile de mascarados pelas ruas, o calor e falta de criatividade da turma fizeram este tipo de divertimento fosse quase banido das ruas da cidade, ainda há algum apaixonado ou uma criança, motivada pelos pais, que ainda enfrentam o sol forte e os gritos de “mascarado pé de pato, comedor de carrapato”. Legal, mas insuficiente para que eu volte.

Meu velho e bom amigo Calil Saluan Netto, presidente da Escola de Samba Unidos no Samba e na Cor, me dá a dica: “Vou botar a escola na rua e quero o seu apoio”. Fiquei comovido com o pedido e quase fui me inscrever para sair pela Rua Direita com as cores azul e branco da minha escola favorita. Mas, cá prá nós, bem baixinho, que ninguém nos ouça, meu tempo passou e da escola também, não dá mais prá segurar a onda e o que vi, no ano passado,não dá para acreditar que uma melhora acontecerá. Perdão, Calil, mas não vou, mesmo sabendo que a sua escola retornará após longos anos de ausência.

Em 2009 o Valdo César, irmão do Célio Silva, me informava: “Vamos botar na rua um carro só com marchinhas antigas e músicas autenticas de carnaval”. Bacana, fiquei esperando pelo carro, que passava de três em três horas, sem um pingo de emoção, e deixava um rastro muito pequeno em relação aos carros particulares, que passavam pela Rua Direita tocando funk e axé, em alto volume, e a galera fazia huuu e gritava histericamente. Não deu prá curtir legal, meu caro César, nem mesmo sentado à uma mesa da Kiskina, saboreando uma BOA, dá para suportar, aliás nem é bom lembrar, a kizumba por ali é de deixar qualquer fora de órbita.

Minhas irmãs, Eliane e Celeste, me diziam maravilhas sobre os blocos de embalo, aqueles dos bairros e de alguns abnegados pela folia, que sempre vem a Rua Direita animar a galera. Fomos prá rua para buscar uma novidade e uma coisa diferente para fazer passar o tempo e ganhar a noite, já que o dia fora totalmente perdido.

Começa, atrasado como sempre, o desfile destes blocos. Pobres foliões e foliões pobres demais para garantir uma fantasia decente e menos convencional. O bom de tudo foi o antes e o depois, quando encontrei com o Júlio Barros, meu grande amigo de infância, adolescência, juventude e da bola. O reencontro com o Careca, o Sérgio Roberto Nascimento, que sorria a cada comentário meu sobre o que via naquele desfile sem molho e sem tempero.
É, amigo, parece que é sério. O carnaval acabou e só eu ainda não tive a coragem de reconhecer. Não há mais a alegria de uma marchinha, isto não é privilégio de nossa terrinha, não há mais um samba bem tocada em cada mesa de bar, nem mesmo as escolas do Rio, as poderosas Beija Flor, Mangueira, Portela e tantas outras, também não fazem mais um samba como nos velhos tempos, hoje são executados em ritmo de marcha batida para que os milhares de foliões, que se aglomeram em suas alas, possam passar no tempo permitido pela Liga das Escolas.

Não dá mais prá segurar, vou buscar um novo rumo e sair por aí, como todos os mortais, para descansar no litoral capixaba, onde a certeza é uma só: Verei um punhado de gente tentando enganar os carnavalescos dizendo o mesmo que Valdo César me contou e que o Calil priorizou. Uma abraço e até a exposição, em maio, onde o reencontro

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