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ENCONTRO SEMANAL DO MODERNO COM O ANTIGO

Desce um chope, sai um frango picadinho e torradinho, desce mais dois chopes, desce um amendoim sem casca e a discussão vai em frente. Sábado chuvoso, mas um calor típico de verão e a conversa já passara por todos os cantos do planeta bola, mas teimosamente não saia do passado e as comparações eram inevitáveis. Por raros momentos a prosa saia da esfera doméstica, às vezes o Chico, que não viveu o auge do nosso futebol, tirava o foco sobre Braizinho, Milton Cabeludo e outros, para nos lembrar que em décadas passadas a capital do Rio produzia craques aos borbotões.
Todos os sábados, pela manhã, a turma se reúne no Snob’s para falar do velho e nobre esporte bretão. Eu, que quando em vez participo do papo, fico esperando a deixa para entrar ou não na roda, que muitas vezes é formada por experts, aqueles que já jogaram, e muito, e vez por outra apenas por leigos ou não chegados à redondinha no gramado, são apenas conhecedores via televisão ou induzidos por comentaristas, que no caso não é o escriba aqui, mas com conhecimento muito acima da média, afinal são homens letrados e intelectuais centrados e bem informados.
Os modernos falam sobre os campeonatos europeus, mostrado atualmente nos canais pagos da tevê por assinatura, suas administrações profissionais e altamente lucrativas. Os saudosistas se recusam a prosear sobre a atualidade, se negam a falar sobre Inter, Juventus, Real Madrid, Barcelona, às vezes se rendem ao Benfica e Milan, que marcaram sua geração nos épicos duelos com o Santos, de Pelé e cia. Na verdade o que querem é falar sobre o futebol de um passado um pouco distante e da velha guarda do esporte.
Chico, que é do tempo em que o Maraca lotava com quase duzentas mil pessoas, gosta mesmo é de falar dos grandes clássicos entre Vasco e Flamengo, onde o dinheiro era um mero detalhe e a paixão pela camisa era autêntica e sem a motivação financeira que move hoje noventa por cento da lotação do Maraca.
Os clubes eram imensas famílias, se erravam, davam bronca, se erravam de novo, uma surra. Os treinadores tinham que merecer sentar naqueles lendários bancos de reserva, reservas que, aliás, eram melhores do que muito time titular por aí. No gramado, tática e força física ficava de lado, o que se via mesmo era o balé de fintas e dribles desconcertantes.
As discussões, quando locais, são acirradas e sempre dá empate. O Nenenzinho não conseguiria jogar hoje, levaria pau na primeira tentativa de passar por um marcador. O Júlio, com sua calma no melhor estilo Gérson, não faria aqueles lançamentos de cinqüenta metros no futebol de hoje. Estas afirmações, muitas contestadas e discutidas quase as vias de fato, são normais em roda de chopes e entre velhos conhecedores do futebol de ontem e de hoje.
Eu, quando pedem, dou meu pitaco e faço as comparações colocando mais lenha na fogueira da discussão. Sempre fico no muro, sei das divergências e também sou partidário das idéias do Chico, mas no fundo eu quero mesmo é alimentar a prosa para não deixar cair o velho e bom hábito de se falar do futebol de algumas décadas passadas, onde o grande mote era a busca pelo gol e o amor pela camisa que vestia, o dinheiro, tirando o Genuíno, era algo que ninguém buscava.
Quem tem razão? O Gustavo, que conhece futebol como poucos, mas o que sabe é o que a tevê mostra e os jornais contam? O Chico, que sabe tudo do passado e tudo lê e vê na modernidade, mas não viu o passado da Santa Terrinha? O Clóvis Helsinque, que narrou os bons jogos pela Rádio Emissora de Miracema e conviveu com os craques do passado? O Zé Hamilton, um profundo conhecedor do Fluminense e sabedor, através dos causos contados pelo pai, Binó, que foi um grande craque do passado?
Melhor do que descobrir a enigmática resposta é participar e assistir a leal discordância de todos, o da velha guarda armando arapucas para criar um ato falho do moderno. Este fingindo que concorda para na hora H sair pela tangente e assumir sua posição contraditória. Sempre leais, atacavam-se com cautela, querendo pontuar, mas nunca apelando para a violência.
Ás vezes, você podia ouvir uma pausa na guerra de argumentos, uma trégua, paz. Podia-se imaginar que talvez tivessem chegado a uma conclusão. Mas bastava verem os gols da rodada na TV que começava tudo de novo.
- Esse Robinho é craque!
- Que nada, você fala isso porque nunca viu o Tostão jogar.

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