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UM SENHOR JUIZ

Emilio era um perna-de-pau de nascença. Filho de um zagueiro botinudo e que um dia ousou pensar em seleção brasileira, Emilio era a frustração de uma família de boleiros. Todos os tios e o pai, claro, vestiram a camisa grená do Tupã e um dia sentiram o gostinho de ser ídolo do time da Nilo Peçanha, muito embora nenhum destes tenha jogado uma bola como os caras da família Souza, estes sim, craques e, o piorzinho, era melhor do que qualquer um dos esforçados jogadores da família Azevedo.
- Chuta a bolinha, chuta a bolinha! – o pai pedia, de frente para a cria. E o menininho, três aninhos de idade, chutava... a metros de distância de onde o pai estava. Este insistia nos exercícios de coordenação motora com os pés do filho, enquanto a mãe achava que o talento dele era outro. Bem parecido com o filho de um famoso cronista esportivo conhecido de vocês.
No Natal de 88 uma surpresa. A criança, então com doze anos, recebeu um presente inusitado. Um apito. Isso mesmo, um pequeno apito de latão, e o menino pegou simpatia pelo objeto e não o largou mais a partir daquele dia. Era um tal de apita aqui, gesticula ali e, para surpresa, pede aos tios que complementassem o presente recebido de seu padrinho, João Martins, na noite de Natal. Queria dois cartões de plástico, um vermelho e outro amarelo, lógico.
Doze anos de idade: rachão de rua, meninos reúnem-se para o joguinho de futebol sem compromisso do final de tarde. Mas a fama de grossão do nosso protagonista já havia se espalhado por toda a vizinhança. O pai, antes assíduo às peladas da meninada da rua, pouco aparecia. Passar vergonha com a falta de habilidade completa do guri já era coisa do passado para ele.
Mas o tempo se encarregara de surpreender o velho pai - não tão velho assim – que desistira de assistir às peladas do Rink para não se ver brigando com a platéia, que insistia em zombar do filho, um autêntico cabeça de bagre. – Por que sumiste da praça Pedrinho? Era a pergunta que mais se ouvia. – Teu filho agora é ídolo da rapaziada e é aplaudido após todos os jogos da molecada lá no Rink.
Pedrinho, de orelha em pé, pensou duas vezes antes de ir a praça tirar dúvidas. “Será que estão me zoando?” Pensava, muito cabreiro. “O que esse garoto está aprontando?” Teria ele se transformado em um goleador e eu não estou sabendo? Dúvidas a parte o pai resolveu tirar a limpo todas as suas indagações. Era dia de decisão do campeonato da rua, aquelas peladas que todos acreditam ser sem compromisso, mas no bairro era encarada como uma verdadeira sobrevivência. Quem vencer leva alforria das gozações e aos perdedores, são reservadas as piores humilhações diante das meninas e dos pais.
O rachão entrou para os anais daquela rua. Nunca um árbitro daquela pelada havia conduzido com tanta coragem, e porque não, maestria, um jogo. O saldo: empate em 1 a 1, com dois gols contra, seis jogadores expulsos e o menino carregado pelos próprios jogadores. Era Emilio, o filho do Pedrinho, que via tudo escondido atrás de um painel de propaganda, com medo de algo dar errado para o primogênito.
O tempo não pára: o adolescente juiz de futebol já contava com certa experiência na arte de apitar. Aliás, com todo o tipo de experiência: ele exibia, orgulhoso, as inúmeras marcas de porradas, pontapés, agressões e contusões causadas por jogadores furibundos em suas empreitadas de arbitragem. E no colegial, as competições de futebol não podiam acontecer sem a sua presença.
Hoje, formado em direito, Emilio largou o apito, mas não encerrou a carreira de juiz, só que agora não apita futebol, ele dita normas como Juiz de Direito, respeitado na Comarca de Dois Córregos, e tem em seu currículo passagens bem sucedidas como Defensor Público, onde era conhecido como “O Advogado dos Fracos”. Perguntado como tudo começou, ele respondeu. “Meu pai era muito exigente e um dia me perguntou, quando me viu fora da escolha da pelada, é suficiente pra você? Esquece o apito e vá buscar realmente o que você sabe! – exigia o pai, aos gritos”. Para ele, o menino era um atleta nato do futebol, um desperdício de talento. Mas no fundo era mesmo um cara determinado a vencer na vida. E conseguiu.

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