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UM MIRACEMENSE NO EXÍLIO

Creio que pela primeira vez, em quarenta e três anos, estarei ausente da maior festa dos miracemenses. Levado por uma recauchutagem coronariana, realizada em março, no excelente Hospital São José do Avaí, em Itaperuna, estou vetado pelo Departamento Médico das solenidades, dos shows, dos chopes e do bate papo com amigos presentes e ausentes nestes cinco dias de festa na cidade.

Não sei se vou entoar a “Canção do Exílio”, do poeta maranhense, Gonçalves Dias, motivação para isto não me falta, afinal minha residência, em Campos dos Goytacazes, está situada na rua que lhe toma emprestado o nome famoso, ou se vou reviver o tempo de solidão, na Cidade Maravilhosa, quando declamava um verso do poema de Fernando Nascimento, que diz: “Quando a lua desce aqui no Rio, eu sinto ânsia, sinto angústia, sinto frio. Quando a lua surge cor de prata, eu relembro Miracema em serenata”.

Não sei se na minha terra os sabiás gorjeiam como na terra de Gonçalves Dias, mas as palmeiras estão lá, mesmo danificadas pelo tempo, com toda pompa a espera dos pássaros cantantes. Sei que alguns pássaros não estarão cantando alegremente no entorno da nova Praça Dona Ermelinda, alguns, como eu, terão motivos diversos para se ausentarem dos festejos que marcam a passagem de mais um aniversário da “Santa Terrinha”.

No início da semana, no meio da tarde, meu telefone toca e do outro lado uma voz rouca, velha conhecida deste escriba, ecoa com votos de boa recuperação e ansiosa por saber como estou passando. “Como vai o amigo? Estaremos juntos na solenidade de entregas de comendas e títulos?” Era meu amigo velho (ou velho amigo?) Jofre Geraldo Salim, o maior miracemense que conheci em todos estes quase sessenta anos de amor pela terra em que nasci. Jofre, otimista como sempre, ao saber que estaria ausente manda daí: “Liga não, amigo, ano que vem a gente está junto de novo”.

Fernando que me perdoe, mas os versos de Gonçalves Dias me inspiram a continuar esta prosa com os amigos da minha terra, cada pedaço do poema é uma pancada neste novo coração. “Minha terra tem primores, que tais não encontro eu cá, em cismar sozinho à noite, mais prazer encontro lá”.

Estas noites eram mais belas quando nos juntávamos para serenatas, regida pelo violão do Luiz Matos, à beira da fonte luminosa, quando não sabíamos que éramos felizes de verdade, sempre queríamos muito mais, que, aliás, encontramos pelos caminhos que seguimos embora os tropeços tenham acontecido.

“Não permita Deus que eu morra, sem que eu volte para lá”, para abraçar os vinte e três mil amigos que sofreram comigo durante quinze dias, tempo da minha estada em um apartamento do Hospital São José do Avaí, em Itaperuna, me refazendo da citada cirurgia coronariana. Foram tantos os abraços, tantas as visitas, tantos os telefonemas, que me senti o mais importante homem desta terra tão amada, mas não tem nada não, em breve estarei por aí abraçando um por um, principalmente ao cardiologista Márcio Aloísio Freitas Siqueira, a quem quero agradecer publicamente, talvez tenha sido ele, ao lado do Homem lá de Cima, o grande trunfo que tive para continuar a viver.

Claro que o acompanhamento dos enfermeiros (as), alô Geraldo, alô Vânia, foram importantes, assim como o primeiro atendimento do médico Wagner Perkles da Costa, que identificou o infarto e fez com que tudo fosse amenizado com seu conhecimento e dedicação. Estarei longe durante a festa da cidade, mas minha festa está completa ao lado da família, que me deu o suporte necessário para agüentar o repuxo do pós-operatório.

Fico aqui pensando no que estarei perdendo durante estes cinco dias de festa, e, pela primeira vez em vinte e cinco anos, não irei abraçar o Miracemense Ausente Número Um (Carla da Silva Correia), mais uma grande escolha, e não entoarei em alto e bom tom o belo Miracema Cidade, hino oficial do município, acompanhado pela magnífica Banda Sete de Setembro. “Avante mocidade, liberdade... liberdade, Miracema quer ser livre, quer viver independente....” Tomara Deus que esta liberdade chegue rapidamente e nos faça ter o prazer de cantar todos os versos da canção de meus “conterrâneos” campistas, Clenório Bastos e Alberto Pessanha. Até breve amigos.

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