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PINTINHO - O ATAQUE DO CÉU GANHA REFORÇO

Hoje, ao cair da tarde, encontro o bravo Ermenegildo Solon em estado deprimente. Bêbado, apenas resmungando e dizendo frases desconexas. Aproximo-me, um pouco preocupado, e vou aos poucos tentando tirar de sua alma o motivo para tanto desespero. – O que está havendo, parceiro? – Nada. Nada. Deixe-me em paz. Quero curtir a minha dor aqui nesta mesa de bar. Desabafa o doloroso Solon.
Motta, que está por perto há algum tempo, apenas acompanha e ao ver que não dá para tirar nada do velho amigo ele tenta entender o que está acontecendo. – Dutra, eu tentei. Garanto que fui simpático, aconselhei e nada. Não tirei uma silaba completa do nosso Solon. Ele não está bem, é melhor chamar o Scilion, que se não resolver o problema pelo menos aplica uma injeção e o faz adormecer.
- Chamar Scilion coisa nenhuma. Esbraveja Solon, já mostrando que pelo menos está entendendo o que se passa ao seu redor. – Papa, diz para ele o que está se passando, estes caras não sabem de nada e ainda querem se intrometer na minha vida. O Papa, também preocupado com o seu velho freguês, nos explica o porquê de tanta tristeza. – Ele chegou aqui falando que perdeu o seu ponta esquerda, que perdeu o seu pintinho. Eu não estou entendendo nada do que ele está falando.
Tomei um susto. O Motta e o Papa podiam não saber o que se passava, mas eu sabia qual era o recado do velho amigo Solon. Cheguei mais perto e comecei a conversar, tentando tirar um pouco mais desta história. – Solon, o Papa está me dizendo que o Pintinho foi embora. Será este mesmo Pintinho que estou pensando? – Ele mesmo. O nosso ponta esquerda. Primeiro foi o Milton Cabeludo, depois o Neném e agora o nosso Pintinho. Como é que vamos contar a história do velho estádio municipal sem três dos seus principais personagens?
Realmente é triste. O Pintinho, nascido Reginaldo José, filho do Osvaldo José, o Calça Pura, era uma grande jogador. Formou por algum tempo uma linha de ataque da melhor qualidade no Vasquinho, do Edson e do Clarindo, no Esportivo, do Seu Gerson e do Bizuca, na Associação, do Jaci e do Elcio Aversa, e agora vai jogar no time de São Pedro, ao lado do Milton Cabeludo e do Neném, mas lá os torcedores não poderão gritar como nós: “Vai Cabeludo, entra duro Pintinho, vão fazer Neném”.
- Você está se esquecendo que ainda sobrou um, meu caro Dutra. Sobrou o Careca, felizmente ainda está entre nós, ele é que entrou no lugar do Cabeludo e a história do trio atacante continuou sendo cantada por todos lá nas arquibancadas do Municipal. – É, a coisa realmente está triste. Consola-nos o bom Motta. – Vamos tomar umas e outras e esquecer ou vocês querem contar casos e causos do futebol do Pintinho? Pergunta. Scilion, que chegara para atender o nosso chamado e acabou entrando na roda e as “louras geladas” começaram a descer e as histórias começaram a ser contadas por todos os presentes.
A conversa só chegou ao final quando alguém, acho que foi o Osvaldo, nos lembrou do Lauro Carvalho, o maior craque que vi jogar em toda minha vida. Contei duas ou três jogadas deste mágico da bola e me lembrei do Madrugada, time do Di Breu e Fernando Nascimento, que se reunia no Ginásio ou no Cemitério dos Cachorros, onde hoje é o Ferradurão, para grandes partidas, memoráveis até, em um time que tinha na zaga o João Campeão, no meio campo o Di Breu e o Fernando, donos do time e das camisas, e no ataque eu, Lauro e Pintinho, que nos colocava normalmente na cara do gol.
- É minha gente, tá ficando feio. Daqui a pouco este ataque vai virar um time inteiro. Cuidado. Falou Motta, descontraindo o pessoal e imediatamente pedindo para passar a régua e fechar a conta. Fique com Deus, Pintinho. Dê um abraço no Lauro, no Neném e no Cabeludo, e dá um tempo que a gente ainda vai se encontrar por aí.

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