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OS BONS JOGOS NO INTERIOR

Os mais antigos se lembram do Campeonato Fluminense de Futebol, promovido pela federação do antigo Estado do Rio de Janeiro, e vi muitos, principalmente entre as seleções municipais. Aqui, na velha planície goytacá, os clubes também participaram com sucesso e tanto Peçanha Filho quanto Sérgio Tinoco contam constantemente histórias e causos destas memoráveis partidas. O torcedor gosta de emoções e ver seu time entrar em campo representando o município tem o mesmo prazer e sabor do que vê a seleção brasileira em gramados do mundo.
Um destes jogos aconteceu na região do calcário, Cantagalo e Cordeiro, clássico regional de muita rivalidade e cheio de expectativas. Durante toda a semana que antecedeu ao grande jogo eram anunciadas algumas “bombas” (notícias falsas) envolvendo jogadores das duas cidades. Um boato corria solto: “O goleiro Carlitos não pode jogar, ele está inscrito no Fluminense FC, do Rio e por isto mesmo não reúne condições de entrar em campo”. Estava difícil para resolver o problema do Cordeiro, e até os zagueiros aliados estavam preocupados com o fato.
Acontece que mesmo se fosse escalado Carlitos era problema, não tinha experiência alguma e em clássico era preciso nervos controlados. Para os cordeirenses a noticia bomba, espalhada pelo pessoal de Cantagalo, era ótima. Muitos gostariam de ver Nondas como titular, só o treinador não gostava do veterano arqueiro. Feita a consulta a FFF (Federação Fluminense de Futebol) chegou a liberação de Carlitos e quem detonou foi Dito, zagueiro que preferia Nondas como titular ao contrário do treinador. . . “Quem vai jogar é o garoto, se Nondas for para o gol eu fico de fora”.
Talvez devido aos fatores extra-campo, a seleção de Cordeiro fez um péssimo primeiro tempo. A defesa estava toda atrapalhada, principalmente, o pivô dos acontecimentos, Dito. Mesmo assim, os quarenta e cinco minutos iniciais terminaram com um a um no marcador. Betinho fez o gol de Cordeiro e Vermelho para Cantagalo. No intervalo, a torcida tentou agredir o zagueiro Dito que era apontado como culpado pela má atuação da seleção. Foi preciso a intervenção policial para proteger o jogador.
Nervosos, os jogadores voltaram para o segundo tempo com Betinho fazendo número na ponta direita. Estava contundido e não havia substituições. Para piorar a situação, os cantagalenses marcaram mais dois gols, Ademir e Pedrinho se aproveitaram das falhas da defesa e colocaram 3x1 no marcador. A partir daí, aconteceram coisas que somente a raça, a fibra e a capacidade de reação dos jogadores poderiam proporcionar.
Quando Edil assinalou o segundo gol de Cordeiro, a torcida passou a ajudar a seleção. Os gritos de incentivo mexeram com os brios dos atletas que começaram a jogar em ritmo alucinante. Dity aparecia como a grande figura do jogo e comandou a reação. Fez dois gols que decidiram o marcador em 4x3. O gol da vitória foi sensacional. Depois de driblar vários cantagalenses, ficou sem ângulo e mesmo assim, chutou forte para vencer o goleiro Harley e fazer a torcida explodir de contentamento. Quando o juiz apitou o final da partida, o campo foi invadido pela torcida, que fez um verdadeiro carnaval para comemorar um jogo que estava perdido, e se transformou numa das mais maravilhosas viradas do futebol alagoano. Todos esqueceram os problemas da semana, até o zagueiro Dito participou da festa junto com os torcedores.
Dity, o grande nome da partida, era o mais festejado. Até o prefeito da cidade esteve nos vestiários para cumprimentar o artilheiro. Logo depois, Dity viajava para o Rio de Janeiro afim de fazer testes no Vasco da Gama. Naquele time ainda brilhavam Buck Jones, Edil, Toninho, Chiquinho, Ronaldo, Ricardão e o esperto ponta Nenenzinho, de apenas um metro e meio, mas que tinha na velocidade a sua grande arma e o suporte perfeito para os gols de Dity e Edil.
Hoje, viajando pelo norte/noroeste fluminense, apenas vejo motivação nas pequenas cidades. O Estadual de Seleções já não é mais bem visto e os times preferem jogar os campeonatos municipais, promovidos por “ligas barbantes” ou até mesmo Ligas Municipais oficiais, mas cujo regulamento permite inscrição de jogadores vinculados a outros clubes, o que não pode ocorrer no Estadual de Seleções. Em Laje do Muriaé, por exemplo, o Marcio Baby ficou louco da vida quando sua seleção foi eliminada, nos pênaltis, por Itaperuna. “A cidade parou para ver o primeiro jogo e chorou quando perdemos, nos pênaltis, a chance de eliminar o grande rival”. Este é o espírito do torneio, motivar e entrosar esporte e população.

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