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O último gol de Belisca

Os apostadores de plantão no Estádio Plínio Bastos de Barros adoravam um papo de bola após as rodadas do Campeonato Municipal. Neste domingo, quente e morrinhento - a tevê não mostrava nada naquele tempo - o passatempo eram as
fofocas e as discussões sobre o futebol local e sobre o que de melhor aconteceu na rodada. 

A turma se reunia, sempre no mesmo horário e no mesmo boteco do João Custódio, depois de algumas rodadas de cervejas e pingas a conversa, que parecia querer esquentar, caiu no melhor momento do jogo preliminar, aquele esquenta sol jogado por volta das 13h e que tinha como adversários o Flores e Comércio, que esfriaram o sol e, quem viu jamais vai esquecer a cena pra lá de interessante.

O Vicente, ex-jogador do Miracema, acostumado a ver cenas incríveis, não se conteve e ironizou o assunto em pauta. -Meus amigos, isto que aconteceu não é novidade alguma, o Tote, goleiro do Comércio, sós traz problemas para o
time. 

Quando não é um frango é uma cena hilariante como aquela que vimos esta tarde. Mais irado e cheio de ódio, o Samuel bradava para todos. - O cara, Tote no caso, havia prometido colocar em campo um timaço, fiz uma aposta da pesada e levei no bolso. Vou ter uma conversa séria com ele amanhã na barbearia. - Sei não, Samuel, se você for tirar satisfação deverá trocar de barbeiro, vá lá que ele fique com raiva e você se esquece e chega ao salão para fazer a barba. A navalha obedece à mão do dono. - Disse Wilian, rindo às gargalhadas.

- Vira esta boca pra lá, Alemão, apelido do Wilian, eu lá sou homem de esquecer alguma coisa. Vou lá e quero ressarcimento do meu prejuízo. - Devolveu Samuel prometendo vingança ao goleiro. No outro canto do botequim uma outra mesa era formada por alguns alegres apostadores que se fartaram ao apostar no adversário do Comércio. 

Fachada, um torcedor fanático do rubro-negro, dizia ser um homem feliz naquele domingo. - Vivemos bons momentos com o nosso time, mas igual ao deste domingo vai ser difícil esquecer. - Debochava o florense.

Ninguém estava entendendo nada. Quem não foi ao estádio não sabia do que reclamava Samuel e o porquê da alegria do Fachada. Seu João, ainda incrédulo com a narrativa do pessoal do Comércio, negava-se a contar o fato para não ser mal entendido e perder a freguesia. Todo mundo quer saber, ninguém quer contar. E a expectativa foi aumentando enquanto se esperava pela chegada do personagem principal do dia.

Por volta das 19h, já com todos com um elevado grau etílico, chegava o sóbrio Belisca, meio constrangido e um pouco fora de sintonia, afinal hoje havia cometido um ato insólito, e para um artilheiro como ele, representava quase o fim de uma bonita carreira.

As chances de alguém contar o que acontecera aumentava e seu João pedia para que ninguém tocasse no assunto em respeito ao amigo e bom freguês, pois ele fora o responsável pelas boas gargalhadas de quase quinhentas pessoas que se arriscaram a sair de casa por volta do meio dia para ver uma partida de futebol.

Vicente, amigo pessoal do Belisca, convidou-o para uma rodada de Boa e foi logo dizendo que estava tudo bem. O Tote já passara por ali e entendeu a sua atitude. Só que o artilheiro não estava a fim de bronca, contrariando a todos que acreditavam que poderia sair
confusão no dia seguinte.

- Que nada, Vicente. Não guardo bronca e até que estou achando bem divertido. - Dizia Belisca. Foi a deixa que o Seu João Custódio precisava para matar a curiosidade das quase vinte pessoas que
estavam bebericando no boteco. E o artilheiro, sem pestanejar, começou o deu desabafo.

- O Samuel sabe o que aconteceu e que eu tinha razão quando tomei aquela atitude. O Tote sempre prometeu que o time seria competitivo e alguns reforços de bom nível viriam para reforçar o grupo. 

Quando entramos em campo, segue Belisca,  com apenas 10 jogadores, descobrimos que não era nada daquilo. Aos poucos o Edil foi tomando conta do jogo, nossa zaga era puro bagaço, e o Tote foi tomando um frango atrás do outro. Quando percebemos já estava 6x0 e nosso time só com oito em campo, dois jogadores deixaram o campo esgotados e um outro se arrastava pelo gramado. - Conta logo, não enrola. 

O que aconteceu afinal, só isto? - Pedia Onofre, sem esperar o desfecho da narrativa.

- Ainda bem que você não estava no time, meu caro, pois não mais jogaria o campeonato. Bem, daí pra frente, com sete em campo, eu como mais experiente, tinha que tomar uma atitude. Peguei a bola na nossa área, limpei um atacante adversário e mirei na cara do Tote, nosso goleiro. Ele saiu da frente e a bola entrou estufando as redes e marquei o gol mais inusitado da minha vida. Um gol contra que teve como principal objetivo dar uma bolada na cara do nosso goleiro, responsável pelo pior vexame da minha carreira.

Eu me encontrei com o Belisca no centro e perguntei se poderia publicar esta crônica, e como a resposta foi positiva acertei os detalhes e repasso hoje para vocês. Os personagens são fictícios, exceto o goleiro e o artilheiro, mas a história é verdadeira.

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