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O DIA SEGUINTE DE UM TRICOLOR APAIXONADO

Silencio, por favor, enquanto esqueço ouço a dor do peito. Não diga nada sobre meus defeitos, eu não me lembro mais o que me deixou assim. Desta forma o vascaíno Paulo César Farias, o Paulinho da Viola, narra algum sofrimento passado em sua vida, e desta forma, algum tricolor pode estar cantando desde quarta-feira, após a decepção da perda de um título comemorado antecipadamente.

Algum menino, carregado pelas mãos fortes de um pai tricolor, dizia alegremente ao subir a rampa do Maracanã: “Tinha eu catorze anos de idade, quando meu pai me chamou. Perguntou-me se eu queria estudar filosofia, medicina ou engenharia”, e o animado guri, ainda sonhando acordado, dizia quere ser jogador de futebol e tricolor. Sonho de qualquer menino de catorze anos, sonho de quem vê um grande time em fase ascendente. Tudo muito natural.

Na saída do antigo maior do mundo o guri, já solto das mãos do triste pai, ouve atentamente o homem se lamentando após alguns, bota alguns nisto, goles de conhaque misturado com cerveja. “Vou pelas minhas madrugadas a cantar, esquecer o que passou. Trago a face marcada, cada ruga no meu rosto simboliza um desgosto”. Desgosto este pelos três pênaltis perdidos, o herói Fernando Henrique, de outras jornadas gloriosas, fez a sua parte, pegou um, mas o trio de tenores, justamente os três heróis de outras partidas, Washington, Conca e Tiago Neves, deixaram pai e filho cantando em uma só voz: “Desilusão, desilusão, danço eu, dança você na dança da solidão”. E a volta prá casa é dura e sofrida.

- Pai, não será melhor procurar um novo amor? Até saber se o coração já se refe?. – É, será melhor viver em paz, eu amei estando só e portanto a solidão não é demais. – Se algum dia eu encontrar um novo amor eu prometo não mais me apaixonar. – É, filho, mas por enquanto vamos cumprir as nossas juras de amor eterno ao nosso Fluminense, e cante aquela música do Paulinho da Viola: “Relembro momentos de real bravura, dos que lutaram com ardor em nome do amor ao tricolor”, deixe passar a noite não jogue nada no oceano. Vamos reabrir as janelas da vida e cantar como jamais cantamos, vamos nos livrar do rancor e lembrar que a felicidade ainda existe.

“Foi um rio que passou em minha vida” a Libertadores foi um sonho lindo e me fez voltar ao tempo. - No intervalo do jogo, diz o velho pai, lembrei do passado, lembrei de você aos catorze anos quanto gritastes Mengo, no segundo gol do Zico contra a gente, tirei, sem pensar, o cinto e bati até cansar. Eu aprendi muito com isto, pois a tua veste mudou, tirou a velha e surrada rubro-negra e vestiste o manto tricolor. Hoje, ao ver esta derrota, não humilhante, mas frustrante, eu aprendi que a alegria de quem está apaixonado é como uma falsa euforia de um gol anulado. Perdão, filho, mas era preciso fazer de ti um tricolor, afinal o que meus amigos iriam dizer de mim?

Ao chegar a casa o que falar com a esposa? “Meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado”, copiaria a letra de Corsário, de João Bosco, mas olharia para o alto e encontrava as “cores do mar, festa do sol, vida é fazer todo sonho brilhar, ser feliz”, bem o sonho foi para o espaço, ser feliz hoje? Tá difícil, né filho?

A mulher, entendendo o sofrimento do filho, que um dia queria ser Flamengo, olhando a face triste do amado marido não titubeou: “Somo todos iguais nesta noite, na frieza de um riso pintado, na certeza de um sonho acabado, é o circo de novo”. O marido caiu em prantos e na tentativa de recuperá-lo ela diz: “Ivan Lins é quem canta isto amor, é lindo.”. – Eu sei, amor, eu vi o Ivan Lins na tribuna de honra do Maracanã, ao lado de Chico Buarque e outros tricolores históricos, e por isto “o meu peito percebeu que o mar é uma gota, comparado ao pranto meu”.

No dia seguinte, antes do “Começar de Novo”, os pedidos de desculpas a toda a família. “Perdoem a cara amarrada, perdoem a falta de abraço, perdoem a falta de espaço”, mas eu limpei minha vida. E ao Fluminense amado e adorado a última mensagem da quinta-feira da ressaca: “Começar de novo, e contar comigo, vai valer a pena ter amanhecido”.

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