Pular para o conteúdo principal

O CASAMENTO DE RONALDO

O Vaticano’s Bar estava repleto, era o reencontro de toda a galera após o recesso do carnaval. O assunto principal, além da vitória do futebol do interior, Americano e Volta Redonda iriam jogar a final inédita da Taça Guanabara, era o casamento do Ronaldo, que se realizara na última segunda-feira. Todos, sem exceção, comentavam o desbunde que foi a entrada da pretensa noiva –ela e ele não poderiam ter se unido pelo matrimonio e tudo foi realmente um conto de fadas- e os comes e bebes que davam água na boca de qualquer mortal.

Em um canto, meio triste pela ausência do amigo Motta, que ficou no Rio para a decisão da Taça GB, nosso velho Sólon só observava e de vez em quando fazia um comentário sobre o papo que rolada nas mesas ao seu redor. Na outra mesa, mais no canto do Vaticano’s, sentindo falta de uma pelada –no bom sentido da palavra- o Menino Cássio parecia delirar quando dizia que foi ao casamento do Ronaldo. Era tão real os seus comentários que as cadeiras ao seu redor foram sendo ocupadas e até o velho Sólon, cismado e sisudo, puxou o seu banquinho até ficar postado ao lado do Menino Cássio.

Conta ai, garoto. Vamos, desembucha. Grunhiu em tom autoritário o grande jornalista E.Sólon. Cássio, já preocupado com que iria narrar e surpreso com tamanho interesse por um casamento de um amigo seu. –Amigo seu? Pergunta espantado o grande Papa, já oferecendo uma rodada por conta da amizade do Menino Cássio com o Ronaldo.

Seguinte: Eu recebi o convite do pai do Ronaldo, mas sinceramente não pretendia sair de casa para este casório. Não conheço a noiva e a viagem seria longa demais e teria que encarar alguns estrangeiros metidos a besta e até aquele pessoal da televisão, sabe como é, né. Eu sou um cara simples e não tenho nenhum interesse de ficar no meio destes badalados.

Edmar, já entusiasmado, queria saber todos os detalhes e até a Michele, irmã do dono do pedaço, queria saber as novidades do casório do Ronaldo. – Como é que é o Ronaldo em sua intimidade, Menino Cássio. Perguntou Edmar. – Ele é um cara legal, sempre foi simples desde os tempos em que éramos crianças lá na rua da minha avó, no Rio de Janeiro. A gente brincava de bola, de pique e até arrumávamos umas garotas pelos bailes do bairro. Começa a narrativa já se sentindo o dono do espaço. O Ronaldo, mesmo quando não tinha dinheiro, nunca foi muito de dar chances para as meninas. Apesar de feio vivia cheio de pretendentes e ficava com todas.

E aí? Depois que ele foi embora vocês tornaram a se encontrar ou ficaram distantes? Pergunta Michele. – Nada disto, quando ele foi para Belo Horizonte o visitei diversas vezes e tomamos todas naqueles bares da Pampulha. Como ele já estava com a vida mais tranqüila jamais enfiei a mão no bolso para pagar.

E os amigos deles, são legais? Algum dos presentes perguntou e como não vi quem foi fica a pergunta valendo para todos. – Eu não gosto do Raul, é muito folgado, acho que é por causa do gênio espanhol. O Roberto é legal, mas muito metido a conquistador, já até separou da mulher, mas o Ronaldo freqüenta muito a casa dele e até leva uns caras para tocar pagode.

E o Vanderley? Você encontrou com ele? Claro, o Vanderley é o mais novo da turma e por isto mesmo o Ronaldo ainda não está com um bom relacionamento com ele. Os dois até se dão bem, mas não é aquela velha amizade. Tem um argentino, que acha que pode tudo, que também não é muito chegado. O inglês é metido a besta e vive mexendo naquele cabelão.

Sólon, ouvindo tudo e preocupado com as narrativas do Menino Cássio, estava achando tudo muito estranho. – Menino, como é que você foi a este casamento, que foi na segunda-feira, e hoje –quarta-feira- você já está por aqui?

Todos olharam para o velho mestre e ao mesmo tempo cortavam o Menino Cássio com olhares fixos que amedrontaram o garoto. – Uai. Como é que não pode. Viajei até Varginha, de carro, na sexta-feira, no sábado fiquei por conta do casório até varar madrugada e voltei no domingo, de tardinha, e cheguei ontem e agora tá tudo bem.

Que Ronaldo é este cara? Quer saber a invocada Michele. – Ronaldo é meu amigo de infância, passava férias na minha cidade e eu na casa da avó dele, no Rio de Janeiro. E este Roberto? Perguntou Edmar. – Roberto é primo da noiva do Ronaldo, mas ele não gosta muito dele. – Tem inglês, tem Vanderley, não é muita coincidência? Não. Inglês é engenheiro da Vale do Rio Doce e o Vanderley é gerente do banco e chegou agora em Varginha.

A turma saiu do Vaticano’s com bronca e o Menino Cássio quase foi linchado pelas mulheres, que deixaram o fogão, onde preparavam o jantar, as novelas, onde Do Carmo estava desfilando com sua Senhora do Destino, para ouvir as verdades –mentiras- do garoto que teve a feliz idéia de contar as novidades do casamento do Ronaldo errado. Tudo por conta da ilusão. Quem quiser saber do real conto de fadas é melhor comprar a revista Caras ou assistir ao Fantástico, lá a realidade é outra.

Eu, que ainda penso bastante antes de falar bobagem, apenas escutei e juro que espantei apenas quando o Menino Cássio falou no argentino, mas sinceramente estava achando tudo isto um verdadeiro conto de fadas. Parabéns Ronaldo e para sua noiva, Sebastiana. Que todos vivam felizes para sempre.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Momentos inesquecíveis/Bola de Ouro

  Essa Bola de Ouro de 1987 não é apenas uma lembrança. É um pedaço da história do rádio esportivo brasileiro, e mru nome está lá, entre tantos gigantes da comunicação! Agora essa recordação ganhou a moldura que merece. E nosso baú de memórias continua crescendo. Ainda temos muita história para contar e muita emoção para reviver! ❤️🏆

O CENTRO HISTÓRICO DE MIRACEMA

O que é um centro histórico de uma cidade? É tudo aquilo que um dia foi história e, certamente, onde tudo começou. Correto. Então o centro histórico de Miracema seria na Praça Dona Ermelinda e seu entorno? Certo? Não. Pelo menos no ponto de vista de algumas pessoas da cidade o Centro Histórico é tão somente a Rua Direita, que anos atrás era o pulmão do município e hoje, infelizmente, o que resta são os poucos casarões que embelezam a atual Rua Marechal Floriano. Em coluna especial, no meio deste ano, sugeri que este nome, Marechal Floriano, fosse retirado e que a Rua Direita se dividisse em quatro partes, cada uma levando o nome de um dos heróis da emancipação, ou seja, “Os Quatro Diabos”. Uns gostaram e outros me criticaram, mas é apenas uma opinião de um miracemense ausente e você pode ter a sua que não contestarei em hipótese alguma. O centro histórico não tem mais os bazares, como a casa Cacheado, os armazéns, como o do Seu Pinheiro, as sorveteiras, como a do Abdo, os bares, como ...

A saideira que não aconteceu

  Hoje seria nossa despedida de Belém.  Seria. Fomos obrigados a abortar o passeio de dois dias à Ilha de Marajó, reflexo ainda da queda em que conheci, literalmente, o chão de Alter do Chão. Não me sinto seguro para me aventurar pelas águas amazônicas ou pelas terras de Marajó. Ficará para outra oportunidade. Mas Belém ainda tinha muito a nos mostrar. Hoje fomos ao Mercado Ver-o-Peso para saber o quanto pesaria, em nosso roteiro, aquele lugar tão famoso instalado às margens da Baía do Guajará. E minha impressão é de que realmente merece nota máxima, embora ainda precise de alguns retoques em seu ambiente. Foi uma manhã inteira girando por lá. Comprinhas de lembranças, observação de uma mistura interessante entre o antigo e o moderno, contato com o artesanato regional e, principalmente, a oportunidade de sentir de perto o calor humano do povo paraense. Eu e Marina vimos também a nossa primeira chuva da tarde em Belém. E foi de dentro de um táxi. Durante uns quinze minutos...