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BRINCADEIRA DE INFÂNCIA

Certas pessoas já nascem predestinadas à juventude e pureza eternas, parece que o primeiro talco veio “batizado” com certa dose do elixir da mocidade, aplicando um golpe no maldito envelhecimento, um congelamento, um “parado aí” no tempo.

“Parado aí – estátua”– expressão carregada de magia –, era um divertimento infantil que consistia em imobilizar outra pessoa, transformando-a em estátua, com o simples pronunciar desses vocábulos, seguidos ou precedidos do nome daquele a que se pretendia petrificar, o qual, a partir daí, era obrigado a manter-se imóvel, até quando fosse livrado por seu opressor. Caso quebrasse o encanto sem prévia autorização, mesmo que por singelo movimento, condenar-se-ia a cumprir os caprichos do mago de “araque” que o havia petrificado, via de regra a prestação de algum favor ao mesmo.

Pois bem, Barrosinho, um desses que já veio ungido em juventude, ainda brinca assim. É comum observarmos sua caminhada apressada ser instantaneamente interrompida por esse brado, apesar de seus setenta e alguns anos. Olhem, jamais presenciei performances iguais às de Barroso: onde estiver, seja em plena Praça Dona Ermelinda, ou durante uma missa de domingo, ao ouvir a menção dessas palavras, tal vítima de gás paralisante, transmuta-se em monumento, mantendo estática até a respiração.

Dizem as más línguas que essa sua cega obediência rendeu ao Guarani, criada e dirigida pelo Ló Leitão, tradicional equipe da Praça dona Ermelinda, que homenageia a donatária da cidade, que aqui estacionou, a perda do Campeonato de futebol Ginásio, de 1962.

Goleiro quase insuperável, duma elasticidade incrível, Barroso, naquela tarde de domingo, fazia uma de suas melhores exibições. Como um verdadeiro malabarista, para delírio da numerosa nação alviverde, fechava o arco do seu Guarani, que necessitava só do empate para sagrar-se campeão. Não havia chute que não defendesse, já tinha segurado três pênaltis mal marcados, contendo até a arbitragem tendenciosa. Já o Esporte Clube Tabajaras (com “s” mesmo, no final e que revelou ao futebol Miguel Prescuro, (ex-jogador do Tupan, Fluminense e Seleção Brasileira) estava impecável naquela tarde, honrando seu uniforme tricolor (branco, preto e vermelho), de estranha semelhança com o segunda camisa do Flamengo. Aplicava um verdadeiro banho de bola no rival, bombardeando sem parar, mas inutilmente, a meta do espetacular Barroso.

Todavia, tinha no banco como cartola, o Tabajaras, ninguém menos que Chicralla, esse dublê de político e comerciante, um mecenas das artes - sem ele não existiria a Banda da terra de Brotas.

Sujeito plural, sinônimo de tão amplas realizações, que por essa época iniciava sua carreira de cartola vitalício do Tabajaras (do qual é um de seus fundadores), função que desempenhou há até bem pouco tempo, dela só destituído por ninguém menos que São Pedro, com quem também guardava outras semelhanças além do inseparável molho de chaves que usavam. Quarenta e quatro minutos do segundo tempo, aquele 0x0 enjoado, Chicralla, irritado, saindo do sério, via o campeonato se esvaindo rio abaixo. Prenunciando a gozação da torcida contrária – esse clássico brotense é impregnado de uma rivalidade pré-colonial, muito antes de Dona Ermelinda e seus filhos por aqui se instalarem, verdadeira briga de índio -, iniciou de mansinho sua debandada. Deixou o banco de reservas, seguiu a linha lateral e dobrou a linha de fundo. A partida transcorria morna, o Guarani tinha a posse da bola, enrolava o jogo, aguardando seu encerramento.

Quando passava por trás do gol, em direção à rua, se deteve por segundos, fitando o jovem Barroso, aquela barreira intransponível, cobiçando: - Danado! Esse menino fechou mesmo o gol, vou dar um jeito de transferi-lo pra cá, ano que vem.

Já ia continuar sua fuga, quando passou por sua cabeça a lembrança de Barroso, dias atrás, totalmente estático em frente à sede da banda, quase cinco minutos, após ouvir um outro moleque pronunciar estranhas palavras.

O recuo da bola ao goleiro ainda era recurso permitido, e abusava, o Guarani, desse artifício, irritando os adversários. Em função dessa irritação, houve uma falta na altura do meio de campo, a favor do Guarani. Paralelamente, tentava o cartola relembrar as palavras mágicas ditas pelo moleque, enquanto Kanela, zagueiro e capitão alviverde, colocava a bola na marca e mandava toda a equipe para o ataque.

Todos esperavam um chutão para a área adversária, quando o “becão”, esperto, optou por mais um recuo ao goleiro, um verdadeiro peteleco.A bola veio vindo mansa, lenta, devagar, à meia altura. Barroso meio de lado, esperando que ela chegasse um pouco mais perto, planejava: - Agora pulo na bola, faço uma ponte, esfrio o jogo mais uns segundos, o juiz encerra, e pronto!

Enquanto isso, Chicralla, à beira do campo, desesperado, passou a gaguejar toda a sorte de palavras mágicas que conhecia e lembrava:
-Aaaaabre-te sésamo!
-Aaaaabracadabra!
-Zim-salamim-pim-pim!

Em vão. Mas, enquanto o goleiro iniciava o seu derradeiro salto, o pulo do título, arrancava Chicralla, do fundo de sua memória, num verdadeiro pulo do gato, e sem gaguejar, a célebre frase que o menino havia pronunciado dias atrás, diante da sede da banda:
-Parado aí, Barroso, estátua,

Olha, gaba-se Edil, o rodado ex-centroavante que fez fama no Flores, que ao lado de Dadá Maravilha, tinha fama de ser uma das três únicas coisas que param no ar. Mente. É pois, a quarta, na seqüência, além de beija-flor, helicóptero, Dadá agora é? ... Barroso.

Foi essa a mais perfeita petrificação de Barroso! Já havia pulado em direção à bola, braços estendidos, mãos espalmadas, prontas para recebê-la... Já ia tocá-la, quando escutou a intimação de Chicralla, e, por força do condicionamento, sem querer, fez o impossível, parando no tempo, no instante e no ar!

Ao ser libertado com o “pode sair, altas!” pronunciado pelo dirigente, logo após a bola balançar suas redes, concluiu o salto no vazio, arrebentando-se no chão.

Percebendo a confusão em que se metera, abandou o campo de jogo antes do apito final, jurando nunca mais brincar de bola. Vislumbrando cabisbaixo a multidão a sua volta, seus companheiros, seguiu tranqüilamente o trajeto de volta pra casa, como se nada tivesse acontecido, lépido e sorridente. Naquele tempo podia.

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