sábado, 22 de agosto de 2009

PAPO COM UM AMIGO DESCONHECIDO

Certo dia, um daqueles em que a gente não quer conversa e a primeira pergunta a gente evita para cortar o interlocutor logo no inicio, sabe como é né, a gente não está com vontade de falar com ninguém e te aparece logo um daqueles prosaicos companheiros, que pensam que irão levantar o seu astral com mensagens de otimismo. Mas eu falava que um certo dia, tem dias que a gente não se sente bem e quer ficar sozinho em um canto qualquer de um apartamento, de uma casa ou até mesmo de um jardim. E foi em um dias destes que me apareceu um desconhecido, para mim é claro, ele deve ser uma figura tradicional aí na Santa Terrinha. "O senhor é o Adilson Dutra?" Perguntou-me com uma voz trêmula, talvez sabendo que eu não estava prá conversa e abaixava a cabeça no jornal, tentando com a leitura esconder-me do resto do mudo. Custei a responder, mas como não tenho hábito de dar fora ou me sentir importante, respondi que sim.

- Posso me sentar ao seu lado? – Claro. Fique a vontade. Respondi. – Tenho muitas coisas para perguntar ao senhor. Diz o meu pai, ele foi seu companheiro de futebol, que o senhor andou o mundo e conhece um monte de craques do futebol e já falou até com o Zico. É verdade?

Aquilo me encheu de orgulho e perdi toda aquela vontade de ficar calado. O rapaz, tem no máximo uns vinte anos, me devolveu a confiança e me transportou para momentos maravilhosos, vividos puramente em razão da minha vontade de ser um radialista e ter a coragem de sair da minha cidade em busca de sonho.

- Como é que foi tudo isto, "Seu" Adilson? Voltei um pouco no tempo e abri o livro de registro da memória para tentar passar um pouco daquilo que o jovem queria ouvir. Disse a ele que ao sair daqui, na década de 80, Campos fervilhava e imprensa daqui se destacava em todo o Brasil, principalmente a esportiva, que acompanhava Goytacaz e Americano por todos os cantos deste Brasil. Fui narrando minhas peripécias e minhas aventuras no mundo da bola e o jovem não se contentava, queria saber mais, mais e muito mais.

- Eu quero saber como é que o senhor conversou com Pelé?
- Isto foi obra do José Maria de Aquino, este sim famoso jornalista miracemense, que me levou na Editora Abril para acompanha-lo em uma entrevista e o entrevistado era o Rei Pelé, que muito simpático me ofereceu momentos de rara felicidade.

- Ele é melhor do que o Zico para conversar?

- Falei com o Zico um punhado de vezes. Conversei com Roberto Dinamite, almocei com o Osmar, lembra dele no Botafogo? Falei com o Romário, até tomamos o café da manhã juntos, no Palace Hotel, em Campos, por conta do Célio Silva, que diga-se de passagem foi outro que me ofereceu oportunidades para conhecer todos estes craques que você cita e quer ouvir uma história.

Que prêmio é este que o senhor ganhou. Meu pai diz que até o Maradona estava na festa. É verdade?

- Poxa, seu pai sabe tudo sobre mim. Me diga algo sobre ele. – Agora não, quero ouvir estes causos e suas histórias, meu pai iria gostar de estar aqui, mas esqueça, me conte tudo. Disse o jovem nervoso por eu estar demorando a narrar minha vida para ele.
O tempo era curto, tinha um compromisso com o Almir Amim, o famoso Mizinho, e falei sobre a Bola de Ouro, ganha em 87 por ter apresentado o melhor trabalho de reportagem no rádio interiorano, fui o primeiro fora das capitais a conquistar este troféu, que é a cobiça de todos os jornalistas/radialistas brasileiros. Falei sobre minhas conversas com Rivelino, Marcelinho, Edmundo, Aldair, dos e-mails trocados com Mozer, hoje em Portugal, das caipirinhas bebidas com Sócrates, em um hotel em São Paulo, da discussão com Telê Santana e da antipatia que tenho pelo Júnior. Ele, estupefato, saiu correndo e não me disse o seu nome ou o nome de seu pai. "Gravei tudo, vou escrever para o meu pai e dizer a ele que conheci o meu ídolo".

Sei lá, as vezes a gente até pensa que é um sonho, mas gostaria de ver novamente este rapaz e contar mais detalhes para ele, falar que conheci Jorge Cury, Valdir Amaral, Doalcei Camargo, Fiori Gillioti e que Denis Menezes e Washington Rodrigues, que ele tanto gostaria de conhecer, já sentaram ao meu lado para um dedo de prosa sobre futebol. Tem gente que ainda quer ouvir historinhas e eu adoro conta-las. Um dia vou botar tudo isto em um livro e distribuir para os amigos.

domingo, 9 de agosto de 2009

DOMINGO DOS PAIS E DE SAUDADE

Na sexta-feira, ao fazer minha caminhada matinal, o vascaíno Antonio Francisco se juntou a mim e abriu a caixa de conversa para reclamar do filho, Francisco Antonio, que trocara o Vasco, seu time desde a infância, pelo Fluminense, no final do Brasileiro do ano passado.

- Dutra, eu não agüento mais a cantilena lá em casa, o Chiquinho pensa em voltar a torcer pelo Vasco, já ensaia o retorno vestindo a surrada camisa cruzmaltina nos jogos da Série B, e, de vez em quando o pego xingando Renato Gaúcho e cia ltda.

- Bom sinal, Antonio, parece que o rapaz pensou melhor e pretende conquistar novamente o coração do velho pai.

- Que nada, ele não agüenta mais é a gozação da turma da faculdade, não tem coragem para vestir a camisa tricolor e fica me pedindo opinião se deve ou não torcer pelo Internacional, time de sua namorada lá da faculdade de direito.

- Eu tive este problema em casa, meu caro amigo, mas desde menino o Leandro torcia pelo São Paulo FC e nada tirou de sua cabeça a paixão pelo tricolor. Sabe por quê? O São Paulo conquistava títulos, contratava certo e tinha uma base muito bem montada em um CT no interior paulista de onde saíram Hernanes e Jean, só para dar um exemplo. O Chiquinho, seu filho, deixou o Vasco na ilusão de ganhar a Libertadores e com o rebaixamento do Vasco. Certo?

- Certo, meu caro Dutra. O menino estava de namorico com o Fluminense desde a Libertadores e quando o Vascão desceu ele não teve dúvidas, vestiu a tricolor e traiu toda a família, que tem lastro português e tradição vascaína. Deixa ele, um dia o troco virá.

E por aí o papo desenvolveu e, claro, sempre com o futebol presente e o amor pelos times cariocas. Antonio Francisco quis saber como eu aprendi a gostar do esporte. Fui levado pelo meu pai, Eusébio Dutra, a jogos no Maracanã e hoje, dia dos pais, e de Flamengo e Corinthians, no antigo maior do mundo, me recordo dos bons momentos vividos naquele templo esportivo ao lado do velho Zebinho.

Tenho saudades, meu caro Antonio, e juro prá você que também já tentei trocar de camisa muitas vezes, ontem mesmo me peguei vestindo uma camisa do Palmeiras e, se não fosse a velha paixão, até que ousaria uma troca, pelo menos seria líder do Brasileiro.

Este final de semana, coincidindo com o dia dos pais, está sendo jogado, em Lisboa/Portugal, uma copa que leva o nome do craque Eusébio, um craque de bola, e isto me faz recordar os bons momentos vividos com o meu pai, também Eusébio, como disse antes, no Maracanã.

- Lembra-se daquele jogo em que o Fio Maravilha fez aquele gol que rendeu música do Jorge Bem? Era Flamengo e Benfica, no Maracanã, e eu estava lá, ao lado do meu velho pai, vendo Fio e cia ltda. fazer um belo espetáculo contra o campeão português, mas não me lembro se o Eusébio estava em campo, prometo que vou verificar na internet e depois eu te conto.

- Eu era garoto e não me recordo disto, respondeu o parceiro de caminhada, mas me lembro muito bem da música: “Tabelou, driblou dois zagueiros, deu um toque driblou o goleiro”... Isto foi verdade?

-Claro que foi. Eu vi ao lado do meu pai, Eusébio, mas ainda não tenho certeza se o Eusébio, o craque de Moçambique, estava em campo.

Hoje, Dia dos Pais, que, aliás, deveria ser todos os dias, estou só e ao lado da mulher estaremos curtindo o dia em um restaurante da cidade e depois ficaremos colados na televisão, eu assistindo o futebol e ela, Marina, curtindo seus filmes e séries nos canais por assinatura. Enquanto isto o Leandro, o filho mais novo, estará no Maracanã, a serviço, assistindo Flamengo e Corinthians e o mais velho, Ralph, está em Volta Redonda com a namorada, e a Gisele, a filha, está em alto mar em uma plataforma da Petrobrás. É, seu Zebinho, tenho saudades do tempo em que o senhor me dizia que o Flamengo era o maior do mundo. Um beijo para todos os pais do esporte.

Saudades de que? O que é saudade?

Eu tenho saudades dos meus tempos de guri, quando corria leve e solto pelas ruas da cidade sem preocupação alguma. Eram tempos felizes, não que hoje não traga comigo a felicidade, mas era diferente. Tenho saudades de um tornozelo torcido, de um queixo doído devido a uma pancada no chão, de um olho roxo – provocado por soco ou cotovelada no campo ginásio ou no Rink - de um pontapé do Brecó ou do Valdir. Lembro-me quando xingava prá cacete quando mordia a língua ou batia com a cabeça numa quina de mesa. Saudade doída esta, não?

Hoje tenho saudades das minhas irmãs, que moram longe de mim, tenho saudades da cachoeira do Conde, desta todos têm saudades, tenho saudades de um filho, que trabalha longe, e da filha, que casou e mudou. Saudade do gosto de uma fruta tirada do pé, roubada nos quintais do Seu Lino ou do Seu Pedrinho Soares, era mais gostosa. Do meu pai, que já se foi, de minha mãe, de meu avô e minha avó, que também acompanharam o velho Zebinho. Tenho até saudades de um amigo que nunca existiu, de uma cidade alegre, que sempre marcou minha infância e juventude, saudade do tempo em que não sentia saudade.

Dizem que a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama, mas –tirando os velhos que já se foram- quem amo está junto a mim, presente e ainda sinto o cheiro da pele, o sabor dos beijos e a presença física e perene. Tenho saudades de me esconder no quarto, do dentista, da escola e das manhãs bonitas de verão, inverno, outono ou primavera, quando subia o morro a procura de uma bola e de amigos, peladeiros como eu, para uma boa partida de futebol.

Às vezes me pego falando em saudade e me condeno. Alguns amigos me dizem que sentir saudade é a ausência de presente. Concordo. Por que a gente só sente saudades do que se perdeu? Saudade é não saber, mas ela continua sempre firme, fungando no cangote da gente, mesmo que o ambiente esteja frio. Saudade é ver a barba branca e não poder tirá-la por causa daquela alergia. Saudade é amor de verdade.

Saudade é lembrar que hoje você toma uma cerveja e não mais uma coca-cola, que não vê mais aquela guria dos olhinhos apertados e que deixava seu coração mais apertado ainda, é lembrar que hoje se dança aloucadamente e que ontem você dançava com aquela menina que te enlouquecia. É continuar cantando as mesmas melodias e continuar detestando as músicas mais rápidas, que tanto te atrapalharam nos bailes do Aero Clube.

Saudade é sentar e escrever tudo isto e lembrar que está sendo saudosista, chato, egoísta e egocêntrico. É não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos.

Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento. Não saber como frear as lágrimas diante de uma música. Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer. É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso... É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer. Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você, provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler...

Como dizia o professor Osmar Barbosa: “Saudade mata é verdade, mas desta morte me esquivo, como morrer de saudade se é de saudade que vivo”.

Palco e arquibancada

  Eduardo Afonso escreveu hoje, em sua coluna em O Globo, sobre um concerto precisando de conserto. E este colunista, que vos fala, acrescen...