sábado, 21 de maio de 2016

Afinal, onde canta o sabiá?

Ouvindo alguns sucessos do meu tempo de criança e juventude, bossa nova era um dos meus preferidos, me vejo de calça curta, sentado na calçada da Prefeitura, com um talo de mamão, uma caneca de alumínio, com água e muito sabão, soprando o canudo, feito do talo, e soltando bolas, bolinhas e bolões como hoje as crianças, da geração Luna e Felipe, meus netos, fazem com brinquedos comprados em lojas especializadas.

Porque me lembrei desta peraltice ouvindo música? Fácil explicar. Na música, interpretada pela Dóris Monteiro, diz: "Sentado na calçada com canudo e canequinha..." e nada mais do que um verso deste para me levar, como gosto, de volta ao meu passado na minha Miracema. 

Certo dia, postando meus contos e crônicas no Facebook, alguém contestou um texto escrito parodiando Gonçalves Dias. "Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá.." e o amigo disse que o sabiá não canta em palmeiras. 

Tudo bem, onde canta o sabiá? 


Tenho certeza de que não era nas palmeiras do nosso jardim de Miracema. Tudo bem, não importa se o sabiá não canta nas palmeiras do Jardim de Miracema, mas nós cantamos em prosa e verso as palmeiras e a beleza de nosso jardim. 

Afinal, onde canta o sabiá? Não interessa onde a ave maviosa irá mostrar seu canto, o que importa é que eu me lembro por onde passei, com quem dividi as brincadeiras no jardim e arredores, alguém que me lê neste momento, já brincou com a tal canequinha, o tal canudo de talo de mamão? 

Alguém já desceu o velho morrrinho da igreja Matriz em uma casca da tal palmeiras onde não cantava o sabiá?  Pois é, Luna e Felipe, meus netos, nem seus pais, Gisele e Ralph, não desceram de lá esfregando o bumbum na grama, mas podem ter certeza que toda esta nova geração já botou o traseiro em uma prancha, em uma praia de Natal, no Rio Grande do Norte, no famoso skibunda e devem ter sentido a mesma sensação que eu e minha turma sentimos ao descer no morro da Matriz deslizando em uma casa da palmeira onde não canta o sabiá. 

E afinal, onde canta o sabiá? No morro, onde hoje está construído o Calvário. subíamos com alçapões e gaiolas tentando "caçar" um sabiá e, podem acreditar, eu jamais botei um na gaiola, não que não quisesse, mas sim por nunca ter conseguido êxito em minhas caçadas. mas ouvi, fiquei emocionado e nervoso com o canto da ave citada por Gonçalves Dias em seu poema famoso. 

Se o sabiá não canta mais nas palmeiras de nosso Jardim de Miracema o mesmo não posso dizer da lembrança, que ainda estão vivas nas memórias de quem viveu o ápice de Miracema, claro que não tinha Internet, TV em cores ou joguinhos em celulares, como estes que alegram os dias de Luna e Felipe, meus netos, e acredito que é por isto que tínhamos tempo de ouvir o sabiá cantar nas palmeiras de nosso Jardim de Miracema. 4

Se não tínhamos toda a modernidade da geração 2016 nós podíamos viver mais intensamente, pelo menos naquele tempo as águas do Ribeirão Santo Antônio eram nadáveis (aff, posso usar isto?) e se não fossem navegáveis para barcos maiores, era o melhor lugar para descer da Usina Santa Rosa até o Pontilhão do Rosa navegando em uma boia de câmara de ar das grandes ou das médias e nas orlas era possível ouvir o canto do sabiá, não nas palmeiras do nosso Jardim de Miracema, mas sim nas árvores ou nas matas que margeavam o Santo Antônio. 

Quem ouviu o cantar do sabiá que se manifeste, quem não teve este prazer e acredita que sabiá não canta nas palmeiras do nosso Jardim de Miracema, que me perdoe, eu ouvi e ouço até hoje em meus pensamentos o canto do sabiá. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Um momento de recordação

Certa vez, passando pelos principais pontos da cidade, revi amigos, companheiros de futebol, de música, de colégio e, principalmente, aqueles que me conhecem apenas pela voz, os ouvintes da Rádio Princesinha do Norte, que foi uma “criança” que nasceu graças ao trabalho deste que vos escreve, do Renato Mercante e, principalmente do Orlando Mercante, nosso professor saudoso, o verdadeiro responsável pelo sucesso da criação e pelo desenvolvimento da emissora que encantou toda região.

Na última visita a Miracema eu andei pelo Noroeste, fui a Natividade, orar no Santuário de Nossa Senhora de Natividade, passei por Porciúncula, onde visite a Paróquia do Padre Tiago Linhares, e almocei em Varre-Sai, onde fui encontrar um velho jogador do NAC, Lima, que me fez recordar bons momentos da Copa Noroeste de Futebol e ouvir boas histórias sobre o futebol da nossa região.
Ao olhar a placa do meu carro, que é de Campos dos Goytacazes, o senhor do lado do restaurante me falou:

- Tenho um amigo lá na sua cidade, ele trabalha no rádio, disse ele.
- Seria ele de Miracema e servido o Tiro de Guerra no mesmo ano seu? Retruquei.
- Correto, não vai me dizer que você é o Adilson Dutra? Esta barba branca me confundiu e os poucos cabelos não me deixaram te reconhecer.

E aí foi uma troca de abraços, uma prosa sobre os nossos momentos de glórias, nos Tiros de Guerra, ele em Porciúncula e eu em Miracema, uma grande passagem pelas transmissões da Rádio Princesinha, a primeira a fazer jogos ao vivo direto de Natividade e Porciúncula, lembramos do título do Natividade, creio que em 1983, da Copa Noroeste, em decisão contra o Grêmio Ubaense, e, como o tempo era curto ficamos de nos encontrar em uma próxima oportunidade.

E o que não foi falado, mas gostaria de dizer por aqui, que naquele perído de brilho da nossa Rádio Princesinha o nosso futebol tinha grandes times, em Miracema o Bandeirante, que depois se chamou Brasil, fazia um sucesso total em toda região, de Zé Maria a Biluzinho, passando pelo excelente meio campo, com Zé Paulo, Dequinha e Pestana, deixou marcas incríveis em todos os torcedores e os gols de Ronzê alegravam as tardes de domingo no Ferradurão.

E os dias de hoje, como estão com relação ao futebol, pergunto ao Lima e tenho uma resposta simples e um pouco tristonha.

- Por aqui o futebol morreu com o passar do tempo assim como em todo o Brasil.  Estamos vivendo um triste fim do esporte em todo Estado do Rio, nem mesmo as escolas nosom oferecem um futuro promissor, desabafa o professor.


E, infelizmente, este é o momento em toda região, Miracema, apesar do Campeonato Municipal promovido pela LDM, não oferece um craque, um jogador que os amantes do esporte possa dizer que seria ele o futuro representante da cidade no esporte mais popular do Brasil, como foram Orlando Fumaça e Célio Silva nos anos 80 e 90.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Um álbum de figurinhas

 

Conversando com meu guru, Ermenegildo Sollon, que esta semana está saudosista demais, entrei na onda e lembrei ao velho jornalista os grandes momentos da infância, quando, ele na década de 50 e eu na década de 60, corríamos de padaria em padaria atrás das balas que traziam figurinhas de jogadores de futebol.

 

Meu avô, o velho Vicente Dutra, sempre me protegeu nesta hora e, com o apoio da Vó Maria, soltava sempre uma graninha para as balas recheadas de craques paulistas e cariocas. – Você teve sorte, eu tinha que ralar os joelhos nas calçadas engraxando sapatos dos freqüentadores da missa de domingo, na Igreja Matriz, diz o grande Sollon.

 

Acredito que todos os garotos daquela época eram fissurados pelas figurinhas do Dida, do Pepe, do Zagalo, do Vavá, do Delém, Garrincha era carimbada, assim como a do Rei Pelé, mas tinham aquelas fáceis, como do Tomires, Pavão, Beline, que eram disputadas no “jogo do bafo”, onde meninos de mão grandes levavam vantagem sobre os das mãos pequenas. As meninas tinham um fraco pelas figurinhas de artistas do rádio e a briga pela do Francisco Carlos, o Broto da Juventude, era intensa.


 Na década de 70, por volta de 77/79, saíram uns card’s bonitos, cartolina das grossas, em um chiclete famoso na época. Eram belas figurinhas, bem no estilo europeu, e lá estava eu, novamente, curtindo o velho vício de infância. A Marina, minha mulher, brigava e dizia que era bobagem e jogava dinheiro fora. Retrucava dizendo que era para o Ralph, meu filho mais velho, que já estava crescendo e precisava cultuar seus ídolos.


 – Mas ele tem apenas três anos de idade e seu time muda mais do que eu de vestido. Quem é o craque este ano? Dizia toda nervosa.

 

Conversando com meu guru, Ermenegildo Sollon, que esta semana está saudosista demais, entrei na onda e lembrei ao velho jornalista os grandes momentos da infância, quando, ele na década de 50 e eu na década de 60, corríamos de padaria em padaria atrás das balas que traziam figurinhas de jogadores de futebol.

 

Meu avô, o velho Vicente Dutra, sempre me protegeu nesta hora e, com o apoio da Vó Maria, soltava sempre uma graninha para as balas recheadas de craques paulistas e cariocas. – Você teve sorte, eu tinha que ralar os joelhos nas calçadas engraxando sapatos dos freqüentadores da missa de domingo, na Igreja Matriz, diz o grande Sollon.

 

Acredito que todos os garotos daquela época eram fissurados pelas figurinhas do Dida, do Pepe, do Zagalo, do Vavá, do Delém, Garrincha era carimbada, assim como a do Rei Pelé, mas tinham aquelas fáceis, como do Tomires, Pavão, Beline, que eram disputadas no “jogo do bafo”, onde meninos de mão grandes levavam vantagem sobre os das mãos pequenas. As meninas tinham um fraco pelas figurinhas de artistas do rádio e a briga pela do Francisco Carlos, o Broto da Juventude, era intensa.

 Na década de 70, por volta de 77/79, saíram uns card’s bonitos, cartolina das grossas, em um chiclete famoso na época. Eram belas figurinhas, bem no estilo europeu, e lá estava eu, novamente, curtindo o velho vício de infância. A Marina, minha mulher, brigava e dizia que era bobagem e jogava dinheiro fora. Retrucava dizendo que era para o Ralph, meu filho mais velho, que já estava crescendo e precisava cultuar seus ídolos.

 – Mas ele tem apenas três anos de idade e seu time muda mais do que eu de vestido. Quem é o craque este ano? Dizia toda nervosa.

O mestre Sollon tem suas idéias sobre o assunto: “Naquele tempo as figurinhas carimbadas, difíceis, tinham valor maior do que ações da Vale e da Petrobrás na bolsa do abafa. Eram difíceis porque as editoras colocavam poucas nos envelopes”.

Na porta do Cinema Sete, uma espécie de Trianon, com todo respeito, para Miracema, os garotos se ajoelhavam e faziam renhidas disputas enquanto aguardavam o momento de entrar para ver a matinê das tardes de sábados e domingos. Pelé e Garrincha eram as mais disputadas, mas no “bafo” ficava difícil de arrumar uma figurinha arrumadinha para colar no álbum, afinal passavam de mão em mão e sempre sofrendo com o cuspe e a areia passada nas mãos para dar maior pressão.

Veja só o diálogo travado entre Sollon e seu neto, apaixonado por futebol, mas que não curte a idéia de colecionar figurinhas dos craques do Brasileiro

 - Vô, não dá, tá tudo furado. 

Olha aqui. O Henrique e o Diego Cavalieri não estão mais no Palmeiras. O Gil, o Fernandão e o Abel, não são mais do Inter. O Cícero e o Gabriel se mandaram do Fluminense. Onde eu coloco o Ramires e o Marcelo Moreno, que eram do Cruzeiro? E o Roger, que era do Grêmio?

 - E o que vou fazer com o Alex Silva, o Hernanes, do São Paulo, o Thiago Neves, do Fluminense, o Danilinho, do Atlético, que ouvi na rádio deverão se mandar até o fim de agosto?

 - Sabe, vô, valeu, mas não quero esse álbum furado. Desculpe se te deixei frustrado.

Palco e arquibancada

  Eduardo Afonso escreveu hoje, em sua coluna em O Globo, sobre um concerto precisando de conserto. E este colunista, que vos fala, acrescen...