segunda-feira, 18 de junho de 2012

Copa do Chile - republicada a pedidos


Esta copa teve um grande significado para minha cidade, Miracema, no noroeste do Estado do Rio de Janeiro. Pela primeira vez eu ouvi histórias de um torcedor brasileiro presente no local da competição, Seu Felisberto, um abastado comerciante da cidade, viajou para o Chile para ver de perto o escrete canarinho, que tinha entre suas estrelas vários jogadores do Botafogo, paixão do Seu Felisberto. Garrinha, o grande ídolo, estava em grande fase e por isto o conterrâneo gastou um pouco de seu dinheiro para voar nas asas da Panair do Brasil, como gostava de dizer.

Seu Felisberto contava que ficou hospedado no mesmo hotel em que estava Elza Soares, a grande musa de Garrincha, que a visitava praticamente todos os dias e, claro, eram encontros sempre às portas fechadas e sem hora para terminar. “Como é que aquele camarada pode atuar tão bem naquela copa”, dizia Seu Felisberto, que logo depois completava o seu raciocínio sobre o gênio das pernas tortas. “Também, com um mulherão daquele a sua disposição ele só podia estar feliz e tinha de tudo para jogar muito”.

Nste ano, 1962, as emissoras de rádio já estavam mais bem equipadas e por ter sido realizada no Chile, aqui na América do Sul, enviaram mais profissionais para cobrir o evento e nós, la na nossa Miracema, ouvíamos Waldir Amaral e a Rádio Globo, claro que ainda naquele velho rádio “rabo quente” esquentado pelo Miguel Magaldi. Meu avô, dono do bar em frente à prefeitura, colocava sempre as caixas de som nos mesmos lugares em que eram colocadas na Copa de 58, na Suécia. “É pra regular, não podemos tirar do lugar as caixas e o nosso rádio”, dizia o velho Vicente Dutra.

Nas ruas da cidade, preparavam-se festas para cada vitória, era uma maneira de homenagear o ilustre miracemense, Aymoré Moreira, treinador do nosso escrete nacional. Seu João, cunhado de Aymoré, era um freqüentador assíduo do bar do meu avô, mas durante os jogos ele desaparecia, dizia-se que ele temia ser hostilizado em caso de uma derrota do nosso selecionado, mas a população não pensava em derrota, havia muita confiança e a conquista de mais um título era esperada por todos, pensando em uma visita de Aymoré a cidade trazendo consigo alguns campeões do mundo. Depois ficamos sabendo que, em Pádua, havia festa para Jair Marinho, mas em menor escala, já que o lateral era reserva do grande Djalma Santos e não jogou nem uns minutinhos sequer.

Meu avô ficou “maluco da vida” quando soube que Pelé não jogaria contra a Espanha, mas se tranqüilizou quando soube que Amarildo seria o seu substituto. “Se jogar como o pai ele vai fazer estrago nestes espanhóis de merda”, dizia o bom Vicente, que sempre falava do tempo em que Amaro Silveira, pai do craque da seleção, jogava no Miracema FC. “Era um craque, saiu daqui pra jogar na seleção brasileira e jogava muito mais do que este moleque ali”, vibrava.

Voltando ao seu Felisberto. Eu me lembro de outra história contada por ele, mas que nunca terminava a narração. “Vocês, meninos, precisavam ver a cara do torcedor chileno nas arquibancadas, quando o inglês se ajoelhou no gramado para pegar aquele cachorro que invadiu o gramado no jogo contra a Inglaterra...”, era só o que seu Felisberto conseguia contar, pois gargalhava de passar mal e ser acudido por dona Filomena, sua mãe, que temia um infarto do filho, pois se emocionava demais quando contava estas passagens por terras chilenas.

No final, vi, pela primeira vez, uma carreata para comemorar um título. O nome de Aymoré Moreira era gritado e o prefeito da cidade, se não me engano, era o Jamil Cardoso, fez vários convites para que o famoso miracemense fosse receber uma homenagem da cidade e da Câmara de Vereadores, mas a frustração durou pelo menos uns quarenta anos, tempo que a cidade esperou para receber a visita dos irmãos Moreira, Zezé e Aymoré, que estiveram por lá para assistir a inauguração do Estádio Irmãos Moreira, da Associação Atlética Miracema, mas jamais receberam a tal homenagem, a cidade esqueceu que o treinador da seleção campeã de 62 tivesse nascido por lá, o que acredito ser por culpa exclusiva dos vitoriosos treinadores, que pouco valor deram à sua terra natal. 

domingo, 17 de junho de 2012

A Praça Dona Ermelinda


Ali, conta a história, começou tudo. O filho queria ser Padre e conversava longamente com a mãe sobre o assunto, mas a poderosa Ermelinda, como diz o Fernando Nascimento em seu samba exaltação, queria uma prova do amor do filho pelo sarcedócio, o que nunca ficou comprovado e, isto ninguém irá contar, o garoto ou rapaz, como queiram, sumiu sem deixar vestígios e Dona Ermelinda fez a doação de parte de suas terras para o vilarejo que começa a nascer ao redor da Igreja Matriz de Santo Antônio dos Brotos.

Viu, parece que sei alguma coisa sobre o início de nossa história, parece apenas, pois o que sei foi contado por amigos e lido em poucos livros que falam sobre o assunto. Mas de uma coisa podem ter certeza, a Praça Dona Ermelinda eu conheço como ninguém. Ali fiz de tudo que um miracemense podia fazer. 

Cantei em programa de calouros, com o grande Mocinho apresentando em um caminhão. Era Festa de Santo Antônio, fui primeiro lugar na categoria mirim, me lembro do premio, um copo de propaganda da Coca-Cola, que guardei até pouco tempo, deve ter se quebrado após minha mudança para Campos.

Na Praça Dona Ermelinda eu joguei futebol, como todos os da nossa geração, aqueles que não cantaram jogaram bola no Rink, cuja passagem será relembrada em outra ocasião. As peladas do Rink eram disputadíssimas, três, quatro ou cinco times eram formados e a rivalidade era tanta que o par ou ímpar era tirado pelos melhores jogadores, que faziam questão de escolher sempre os melhores, algum craque chegava atrasado de propósito justamente para ser escolhido no time do parceiro predileto.

Ali, na Praça Dona Ermelinda eu estudei, claro que no Jardim de Infância Clarinda Damasceno, mas aí é covardia. Qual foi o miracemense que não passou por lá? Você. Bem, nem tudo é perfeito na cidade de saudade, alguém tinha que estar fora. Ali, na Praça Dona Ermelinda eu briguei pela primeira vez, justamente com um amigo do peito, um irmão que eu não tive, o Gutinho, hoje o nosso Tiara, amigo dos bons e da melhor qualidade. 

Ali, na Praça Dona Ermelinda eu. Tiara e Júlio vivemos com vontade e temos hoje o orgulho de dizer que tivemos infância, juventude e por que não uma adolescência, nosso passado está enterrado naquele pedaço de terra em frente a Igreja Matriz.

Mas fiz algo de diferente na Praça Dona Ermelinda, que muitos fizeram, mas nenhum dos meus amigos de todos os dias tiveram o prazer de faze-lo. Toquei diversas retretas com a Banda Sete de Setembro, regida pelo Maestro Garcia, e com lágrimas nos olhos solei com meu piston alguns dos melhores dobrados do nosso repertório, algo que vou me orgulhar pelo resto da minha vida.

O que temos hoje na Praça Dona Ermelinda? Temos música? Temos a Banda Sete? Temos Festa? O Jardim de Infância ainda funciona? O Rink ainda recebe os garotos para uma disputada pelada? Os namorados ainda se escondem entre as árvores?

Não tem mais o Coreto, nem Neca Solão. Não tem mais as belas árvores, podadas com muito cuidado pelos jardineiros da Prefeitura. Não tem mais o romantismo e nem o Guarda Tinoco para impedir as peladas no Jardim de Infância nas tardes de feriados, sábados ou domingos. Enfim, não tem mais Adilson, Júlio, Tiara, Afonso, Ló, Scilio, Paulinho, Hércules, Nenê, e muitos outros amigos que até hoje sinto uma falta incrível. 

sábado, 9 de junho de 2012

As "Ferinhas do Nézio"


Há algum tempo venho prometendo contar por aqui as belas jornadas das “Ferinhas do Nézio”, meninas maravilhosas e seu fantástico treinador, que fizeram história no basquete do interior fluminense nas décadas de 70 e 80, conquistando todos os títulos possíveis ou em disputa.

Marquei com Rosa Rizzo um papo, mas as minhas idas e vindas não batiam com a disponibilidade dela. Tentei conversar com a Diva, irmã da craque Fátima Barros, mas também não consegui agendar um tempo para o bate papo. 

Parece até que estas meninas são ocupadas demais ou meu tempo em Miracema é muito curto. Nada disto. Quando por aqui chego, diz o Zé Luiz da Silva, o meu repórter de Categoria, me perco nos papos das esquinas e dos butecos e me esqueço de tudo aquilo que programei. Verdade, e nisto aí o José Souto, o Renato Caveari e o Ademir Tadeu têm culpa no cartório, o bom papo do trio sempre me faz perder a agenda do dia.

Já me encontrei com a Sônia, filha do professor Nézio, que também foi craque no esporte da cesta, para me contar um pouco da trajetória do primeiro time feminino que vi jogar, nas quadras do Colégio Miracemense, nos anos 60, mas bom mesmo seria conversar com sua irmã Ângela, que brilhou ao lado de Rosa, Aurinha, Diva, Regina (que saudade) e outras “ferinhas” do Nézio na década seguinte.

Minha mana Teresa vivenciou em quadra estes bons momentos e ao lado de craques como a terrível Maria do Carmo “Angu” Dutra fez festa em diversas quadras onde os Jogos Estudantis do Norte Fluminense eram jogados e os títulos conquistados. Tetê conta com entusiasmo cada um deste momento e em alguns destes eu estive junto as vezes torcendo, as vezes apitando jogos interessantes destas meninas maravilhosas.

Fico devendo um espaço maior, porque tudo o que estou contando por aqui neste papo sobre o basquete feminino tem a ver com o falecimento de uma menina talentosa e, pode ser, uma das mais perfeitas jogadoras de basquete da cidade, Maria Lúcia Amim, a Lulu, que ontem despediu desta vida e foi para o andar de cima tentar encontrar com a Regina e por lá bater uma bolinha nas quadras do céu.

Lulu era quase perfeita e, se quisesse, poderia na época jogar em um dos grandes times brasileiros,  naquele tempo a altura não era documento necessário para entrar numa quadra de basquete, principalmente o feminino, carente de grandes jogadoras e de talentos como o de Maria Lucia, Rosa, Fátima, Ângela ou Maria Angu, meninas poderosas e talentosas por demais.

Prometo que contarei muito mais nas próximas semanas, vou combinar com as minhas jogadoras favoritas um papo animado sobre “As Ferinhas do Nézio” e voltarei ao assunto com mais detalhes, afinal são elas que podem narrar toda trajetória que marcou a força do basquete da cidade, que hoje tem talentos reconhecidos no mundo inteiro como Mikaela e Giovana entre outras que brilharam no Bola Laranja e as garotas de hoje, comandadas pelo professor Carlinhos Bessa, que estão aprontando por aí.

Palco e arquibancada

  Eduardo Afonso escreveu hoje, em sua coluna em O Globo, sobre um concerto precisando de conserto. E este colunista, que vos fala, acrescen...