Canal do Dutra: Uma conversa de bola, viagens e do cotidiano. Aqui posto vídeos, crônicas e converso com vocês.
terça-feira, 29 de maio de 2012
A formiguinha e o piano
Leio agora, no G1, após ver manchete no Twitter, mostrando um roubo inusitado, em Belo Horizonte, me veio a memória um diálogo interessante ocorrido há alguns anos, lá na “terrinha”, que pode não ser igual ao crime dos mineiros, cuja criatividade vem com a desocupação da cabeça, livre do trabalho e certa de que a bolsa fornecida pelo governo federal virá a qualquer momento.
Se lá nas Minas Gerais os gatunos usaram “varas de pescar” improvisadas com bambus, galhos e ganchos, lá na terrinha, mais precisamente na Praça Ary Parreiras, meu amigo tentava me ensinar a domar uma formiguinha para sacar uma grana da registradora do meu avô Vicente Dutra.
- Eu tenho umas dez, de vários tamanhos, que coloco na ponta de um barbante e as danadas entram pelo buraco da registradora e pegam uma notinha para eu sair pela rua e as vezes dá até para ir ao cinema, dizia-me o filho do padeiro.
- E como é que faço para domar as formiguinhas? Perguntei já querendo aprender o truque.
- É fácil, só não pode prender muito porque senão elas morrem. Deixe-a livre e coloque na direção da gaveta que tem a nota de maior valor, se ela, principalmente a formiga cabeçuda, pegar e travar, a nota vem e você faz a festa.
Juro que tentei, mas não consegui domar as formiguinhas e nem tiver coragem de “catar’ uma grana do meu avô, afinal eu tinha tudo com ele e não ia querer derrubar meu prestígio com uma ou outra notinha de um ou dois mil réis.
Em Belo Horizonte a turma deitou e rolou. Os rapazes do alheio “pescaram” um notbook, que estava na mesa de um professor, mas não satisfeitos, desceram até a sala da direção, arrombaram a porta e fizeram a limpa nos computadores, que foram vendidos para um receptor da capital dos mineiros.
Conheci também um garçom, de um dos bares da Tijuca, do qual fiquei amigo e me desliguei quando o moço foi pego em flagrante delito pelo Seu Arthur, um português doce e amigo, quando “tocava” piano na caixa registradora do boteco, que ficava ao lado da fábrica da Brahma.
O movimento estava diferente no bar e eu entrei perguntando ao Fernando, filho do português, o que havia acontecido e no mesmo tempo o ex-amigo gritava lá do fundo: “Foi tudo um engano... Foi tudo um engano.”
- Engano nada, diz Fernando. Sabe o que aconteceu? Meu pai pegou o cara batendo nas teclas da registradora e tentando pegar uma grana na mão grande.
-É mentira! Disse o moço. Eu estava aprendendo tocar piano, minha irmã disse que os botões da registradora do seu Arthur são iguais ao do piano que ela toca na escola.
Tocando piano pegou. Lá na terrinha, quando o filho de algum dono de bar, restaurante ou padaria chegasse perto da caixa registradora logo um dizia: E aí, vai tocar piano?
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Cântico, lembranças e folia
Subi a colina tirei treis gáio segura mineiro senão eu caio.. Eu caio... Eu caio.... E você, daí do outro lado já deve ter visto, ouvido ou cantado pelas ruas de Miracema os versos desta canção do “Mineiro Pau” folclore miracemense difundido e imortalizado pelo Benedito Siqueira, um dos amigos da cultura folclórica da cidade.
Ontem, ao passar pelo entorno do cemitério, ali próximo a subida do morro que nos leva ao campo de aviação, calvário, Ferradurão e o antigo “buraco da égua”, não pude deixar de recordar os encontros de jongo, nas calçadas da prefeitura, bem pertinho do Bar do Vicente Dutra, ou imaginar como seria nossos carnavais de rua sem os boi pintadinho, mulinha correndo de canto a canto da rua ou os cânticos alegres da rapaziada.
Imaginei e senti a necessidade de fazer como o bom amigo Carlos Augusto Macedo, fã e apaixonado pela Folia de Reis, e começar a programar, para o próximo início de ano, passar mais dias na cidade e acompanhar as folias de casa em casa cantando com eles um refrão que não me sai da memória: “Abre a porta e a janela e vem ver foliões a cantar”, lembrando até a bela canção de Moraes Moreira, “Preta pretinha”, cujo refrão se assemelha ou até mesmo retirado das folias nordestinas.
Discuto, no bom sentido é claro, com amigos da terrinha, principalmente o Zé Maria de Aquino, mais antigo e que vivenciou muito mais do que eu neste quesito, sobre a possibilidade de um encontro da turma por aí neste período.
Na semana que passou, ali no BDF, do meu amigo Sebastião, que agora é um dos points mais badalados se Miracema, que é preciso fazer uma festa de reencontro ou então dar foca ao grupo, recém formado, das Meninas e Amigos de Miracema, para que a festa deles seja acrescida da ideia de reencontro maior.
Passei a manhã de sexta-feira com uma máquina fotográfica a tiracolo buscando imagens diferentes daquelas que todos nós, da era digital, temos em nossos computadores, laptops ou pen drive. Se encontrei? Claro que sim. Fiz algumas fotos do famoso pé de jambo, do Jardim de Miracema, que no meu tempo era vigiado severamente pelos guardiões do lugar, liderados pelo Cabo Atleta.
Fiz fotos das árvores recentes e das palmeiras replantadas, que substituíram aquelas centenárias que sentiram o peso da idade. Até gostaria de fazer um desafio para vocês, publicar a foto aqui no blog e chamar o conterrâneo para identificar o lugar, porém, tem sempre um porém, tá muito fácil e a turma vai “matar” de primeira e não terá graça nenhuma.
Quero desafio diferente: Leia, ali acima, o refrão do Mineiro Pau e bote sua mente para funcionar e a procurar no chip da memória outros cânticos de folia de reis ou do boi pintadinho de Miracema. Tá feito a aposta, vale uma mariola, que não será com o pão da Padaria do Garibaldi, afinal o tempo passou e dele só ficou a saudade.
sábado, 12 de maio de 2012
Os bancos da praça
Alguns de vocês, ou quase todos, lembram e sabem de cor a letra da música, sucesso de Ronnie Von e de autoria de Carlos Imperial, “A Praça”. Tenho certeza absoluta e, por isto mesmo, após ler e ver as fotos, postadas pela mana Eliane, lá no Facebook, sem querer cantarolei quietinho aqui na minha poltrona favorita, a música em questão.
Devem estar me perguntando, quem não nos segue lá na Rede Social, que fotos são estas e que ideia é esta de cantarolar sozinho, né mesmo? Explico: A mana Eliane postou fotos dos bancos do Jardim de Miracema, aqueles que sento quando por aí apareço para ler o jornal e pensar no que vi por ali na minha infância e juventude.
Vi, revi, pensei e repensei no que escrever e no que dizer quando vejo, ao vivo ou por fotos como as que vejo agora, que muita saudade existe naqueles bancos da praça. Saudade da Camisaria Gérson, da Fábrica de Ladrilhos, do Armazém do Pinheiro, da Usina Santa Rosa, da Casa das Máquinas, do meu amigo Ignácio Silveira, da Fábrica de Macarrão, que felizmente ainda está em pleno funcionamento.
Sento por ali e as lembranças, que já contei por aqui, chegam a mente e a imaginação flui maravilhosamente. Lembro-me de alguém, creio que foi a Cintia Mercante, que um dia me corrigiu quando disse que Miracema parou no tempo. “Não, se tivesse parado no tempo seria bem melhor, imagine sua/nossa terra nos anos 40/50 e 60, todos dizem que era uma cidade progressista, então se parasse no tempo seria ótimo”, disse a amiga capixaba/miracemense.
Muitos que me lêem agora rasgam o coração neste momento ao lembrar do primeiro beijo, roubado em um destes bancos, o primeiro “amasso” ali no cantinho do Rink, a primeira paquera, ali pertinho do parque infantil e a primeira tentativa de flerte nos bancos em frente a fonte luminosa. Correto?
Os bancos da praça fizeram história e contam a história de nossa cidade. Vejam quantas eram as empresas patrocinadoras e repassem para os dias de hoje, será que teríamos tanta gente auxiliando o prefeito no embelezamento e na tentativa de dar conforto para os visitantes do jardim?
Duvido muito, nossas empresas não são tão fortes como as de outrora e nem bairristas como os proprietários daqueles belos anos de esplendor e fartura. O que nos resta hoje é sentar, lembrar e chorar dos tempos vividos por ali e que um dia nossos netos sejam tão felizes como nós, viventes daqueles momentos lindos, vivenciamos e guardamos na memória.
terça-feira, 1 de maio de 2012
A primeira vez a gente não esquece
Se a memória não me pregou uma peça era uma tarde de algum dia de março, no longínquo ano de 1964, que, ao chegarmos ao Estádio Municipal Plínio Bastos de Barros, eu e toda turma do Time do Bitico, recebíamos a notícia: “Hoje não tem treino, o pessoal da prefeitura está começando a arrumar o lugar para uma tal de Exposição Agropecuária”.
Fizemos cara de espanto, encostamos na porta do vestiário para acompanhar a movimentação da turma da Prefeitura de Miracema, que ao lado de técnicos, pedreiros e outros mais, examinavam o local e apontavam onde seriam montados os stands, as baias, as barracas para comidas e bebida para a festa que seria realizada em maio, em comemoração ao vigésimo oitavo aniversário da cidade.
Chegava o Bitico, dono de nosso time e ex-jogador famoso na cidade, as explicações dos funcionários eram poucas para nos convencer e, de repente, chega ao local a comitiva do Prefeito Jamil Cardoso, com o próprio a frente falando e cumprimentando a todos nós com a educação que Deus lhe deu.
Quando “seu “ Jamil me olhou triste e fitando sério nos seus olhos, me perguntou: “Zebinho, o que está acontecendo, que se passa por aqui?”, este Zebinho foi por conta do meu pai, ele só me chamava assim mesmo lá em sua casa, na Rua Direita, quando encontrava com seus filhos Alexandre, Guilherme e Augusto, e não tive outra saída a não ser explicar o que estava acontecendo.
- O pessoal da Prefeitura disse que nós não podemos treinar e que está arrumando o campo para uma festa. Será que não dava para liberar, seu Jamil?
Tenho a impressão de quem estava com ele, comandando a arrumação, era o seu Marcílio Poly, que depois de consultado deu a resposta, que nós queríamos ouvir, para o prefeito, que sorrindo, como sempre, chamou este que vos fala e disse:
- Podem amarrar as chuteiras, vai ter treino sim, hoje só estamos fazendo uma pesquisa e não vamos atrapalhar os futuros craques da cidade.
E em seguida avisamos ao Bitico e lá fomos nós, todos alegres e sorridentes, correr atrás da bola e sonhar com a festa que seria realizada, pela primeira vez, em nossa cidade.
Os dias passaram e finalmente chegou maio e a festa. Novidade em toda região, a Exposição Agropecuária e Industrial de Miracema foi um sucesso estrondoso, mas para nós, amantes do futebol e praticantes insistentes, a escolha do local foi a pior possível.
O gramado do Estádio Plínio Bastos de Barros foi castigado e o lado direito, de quem ataca para o gol que dá para o Prudente de Moraes, praticamente acabou e o terreno, justamente onde deve ter ficado as baias dos animais, ficou totalmente destruído e só veio a ser recuperado após a reconstrução do velho estádio pelo Prefeito Gutemberg Damasceno já nos anos 2000.
Agora, passados 48 anos desta primeira festa, o estádio está lindo, renovado mas não tem o glamour do futebol dos anos sessenta, não tem Milton Cabeludo, não tem Vadeco, não tem Cleci, não tem Bilu, Cleto, Clóvis ou Zé Augusto; não tem o Rink, o Sereno, o Esportivo, Tupã ou Miracema FC, e, meus caros amigos, principalmente, não tem mais Bitico e nem seu time de moleques, que depois se transformou no vitorioso Vasquinho e deu origem ao melhor time do Esportivo, que me perdoem os mais antigos, de todos os tempos.
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