Há algum tempo, quando eu era criança pequena lá em Miracema, ouvia falar em craques fantásticos e em esquadrões de ouro. Meu tio, tricolor sem muito fanatismo, eu nem sei por que o Tio Ary é torcedor do Fluminense, contava causos do famoso “timinho”, treinado pelo nosso conterrâneo Zezé Moreira, talvez esta seja a razão do Tio Ary torcer pelo tricolor.
Ouvi meu avô Vicente falar do “Esquadrão de Ouro’ do Miracema FC, que passou dois ou mais anos sem perder um jogo e no dia que perdeu fechou as portas. Ficava atento quando o seu Garibaldi Parreira contava as histórias do Flamengo, tri-campeão em 53-54-55, e quando ele falava de Evaristo e Rubens.
O tempo passou, mas as histórias e os causos sobre os timaços cariocas não passavam em branco. Outros contadores de causos e o ouvinte, este que vos fala, já estava crescido e já comprava a Revista do Esporte na banca do Chico Munheca e já acompanhava as resenhas nas Emissora Continental, das organizações Rubens Berardo.
Como eu disse os contadores de causos eram outros, o vascaíno Fernando Tostes, ou simplesmente Fernandinho, amigo que se foi muito cedo deixando uma dupla de fanáticos pelo C.R. Vasco da Gama (Ygor e Fernando Júnior), mas também uma baita saudade das histórias sobre Célio, o artilheiro, Beline, o xerife capitão, e muitos outros craques que vestiram a centenária camisa vascaína.
Eu gostava de brincar no jardim, lugar para rodar pião, lançar finco ou encaçapar balebas nas búlicas cravadas no chão, e para ter um pião de qualidade eu precisava ouvir o Fisico, um torneiro mecânico de algo nível, falar sobre Garrincha, Nilton Santos, Didi e outros craques do seu Glorioso Botafogo FR, caso contrário o projeto do peão não ira para o torno.
Viram como foi duro crescer rubro-negro? O assédio era muito grande e todos tinham algo a oferecer a este moleque boleiro e interessado sobre as coisas do nosso futebol. Desde os tempos de infância Tio Ary, Seu Garibaldi, Fernandinho ou Fisico, só queriam saber de doutrinar o então menino para depois contar para seus filhos, ou netos, que um dia fizeram a minha cabeça.
Mas então, quem foi o responsável pelo sua paixão pelo Flamengo? Perguntaria você, aí do outro lado. Eu respondo: Aquele tri-campeonato (53-54-55) começou a me dar as cores preta e vermelha como favoritas, as conversas com meu pai também me encaminhavam, mas no fundo mesmo foram as visitas ao Maracanã, em dia de clássicos, que me motivaram ainda mais.
Era bonito ver o Maracanã lotado e a torcida rubro negra fazer a festa nas arquibancadas. Não havia violência e aw família se reuniam nos degraus como se estivesse nas areias de uma bela praia carioca. Era um piquenique legal e, como a grana era curta, meu “velho” levava um farnel com refresco, pastel e muita água para suportar o calor das três da tarde, isto mesmo, os jogos eram às três da tarde e as preliminares, de aspirante, começavam a uma hora.
Hoje é diferente, a garotada torce por times europeus, são criados nas salas de seus apartamentos, curtem jogos na televisão e são motivados por comentaristas ou amigos via blog, site ou outro veículo qualquer da rede mundial de computadores.
Não há influencia paterna que dê jeito no garoto que pretende torcer pelo São Paulo FC, que conquista um título a cada dois anos, pelo Santos, que cria um ídolo em cada década, e pode até torcer por um destes aqui do Rio, mas neste caso o meu amigo José Luis da Silva tem suas razões: A torcida do Vasco tende a estagnar e ficar na mesmice caso o clube não volte a conquistar títulos importantes.
Matou a charada, para se ter o amor de um jovem torcedor é preciso conquistar títulos e criar ídolos que possam ser “endeusados” pela mídia e pelos garotos em suas mídias modernas. Viver do passado é, me perdoem, coisa do passado.
Canal do Dutra: Uma conversa de bola, viagens e do cotidiano. Aqui posto vídeos, crônicas e converso com vocês.
sexta-feira, 4 de março de 2011
UMA PAIXÃO QUE SE EVAPORA
Não tenho muito que falar sobre esta situação vivida pelo Flamengo e por seus torcedores, que debatem diariamente, há vinte e quatro anos, sobre a validade ou não do título brasileiro de 1987. O que já discuti com vascaínos, tricolores e botafoguenses durante este tempo dá para encher as páginas de um catálogo telefônico da cidade de São Paulo.
No Armazém do Lenilson encontro o velho amigo Sollon, de papo com o Eucimar e disposto a curtir a oficialização do título. - Sente aqui, meu caro Dutra, tomemos uma cerveja gelada para comemorar o hexa oficializado.
Nem respondi ao bom amigo e eterno guru. Passei batido em direção ao centro da cidade e, para meu espanto, Sollon veio em seguida deixando seu parceiro sorver sozinho a gelada que pedira. - Aonde vais? O que se passa? Tá zangado comigo?
Três perguntas rápidas, todas sem respostas, e o ritmo do passo aumentava a cada minuto já que o assunto, levantado pelo velho guru, não estava na pauta para aquela manhã bonita e ensolarada.
- Você não gostou da oficialização do título? Insistiu Sollon, e, para não trair a confiança de meu convidado (Sollon está hospedado em minha casa), resolvi conversar e dissipar todas as dúvidas sobre o assunto.
- Amigo este título jamais foi extra-oficial no meu ponto de vista. Eu comemorei, chorei, gargalhei e vi, no Maracanã, o gol de Bebeto contra o Internacional. Por isto não tenho nada prá comemorar agora. Ter ou não ter a Taça das Boinhas é algo que não me interessa e, cá prá nós, que ninguém nos ouça, dividir título com o campeão da Segunda Divisão? Isto é um absurdo.
- Mas as torcidas adversárias agora irão nos respeitar, argumenta Sollon.
- Não, meu caro amigo, agora eles terão mais um aditivo em suas invejas, eles terão algo mais para caçoar ou argumentar contra o título conquistado dentro de campo por aquele fantástico time comandado pelo Galinho Zico.
Daí prá frente, do Para Raio’s Bar até a banca do Coliseu, meu destino final, falamos sobre a divisão do Clube dos 13 e do objetivo da CBF em derrubar Fábio Koff, para que Andrés Sanches, o amigo do rei, pudesse negociar com as emissoras de televisão isoladamente, com objetivos de ganhar as gordas comissões e trazer a opositora Patrícia Amorim para o lado de Dom Teixeira.
Expliquei ao meu hóspede que aquela entrega da Taça das Bolinhas ao São Paulo FC era apenas um motivo para botar o clube paulista contra o Flamengo. Foi para provocar um rompimento entre dois fortes aliados, o que me parece ter acontecido, e criar outras ações de bastidores que levarão o poder total e irrestrito ao mandatário do nosso triste futebol.
Há alguns anos eu não tenho mais paixão clubística, gosto do Flamengo e não escondo de ninguém, nem mesmo aqui na coluna, e hoje, ao ver esta negociata envolvendo Flamengo, Corinthians, São Paulo, CBF, Globo, Clube dos 13 e mais uma dezena de interessados no filão da televisão, creio que chegou a hora de romper, definitivamente, o elo que me ligava ao time de minha infância.
Dou um basta em tudo, cancelo a assinatura do PPV do Brasileirão, e vou me dedicar tão somente a minha nova mania, ver jogos das ligas européias onde o profissionalismo impera e as maracutaias, se existem, não são jogadas como mercadoria de troca.
No Armazém do Lenilson encontro o velho amigo Sollon, de papo com o Eucimar e disposto a curtir a oficialização do título. - Sente aqui, meu caro Dutra, tomemos uma cerveja gelada para comemorar o hexa oficializado.
Nem respondi ao bom amigo e eterno guru. Passei batido em direção ao centro da cidade e, para meu espanto, Sollon veio em seguida deixando seu parceiro sorver sozinho a gelada que pedira. - Aonde vais? O que se passa? Tá zangado comigo?
Três perguntas rápidas, todas sem respostas, e o ritmo do passo aumentava a cada minuto já que o assunto, levantado pelo velho guru, não estava na pauta para aquela manhã bonita e ensolarada.
- Você não gostou da oficialização do título? Insistiu Sollon, e, para não trair a confiança de meu convidado (Sollon está hospedado em minha casa), resolvi conversar e dissipar todas as dúvidas sobre o assunto.
- Amigo este título jamais foi extra-oficial no meu ponto de vista. Eu comemorei, chorei, gargalhei e vi, no Maracanã, o gol de Bebeto contra o Internacional. Por isto não tenho nada prá comemorar agora. Ter ou não ter a Taça das Boinhas é algo que não me interessa e, cá prá nós, que ninguém nos ouça, dividir título com o campeão da Segunda Divisão? Isto é um absurdo.
- Mas as torcidas adversárias agora irão nos respeitar, argumenta Sollon.
- Não, meu caro amigo, agora eles terão mais um aditivo em suas invejas, eles terão algo mais para caçoar ou argumentar contra o título conquistado dentro de campo por aquele fantástico time comandado pelo Galinho Zico.
Daí prá frente, do Para Raio’s Bar até a banca do Coliseu, meu destino final, falamos sobre a divisão do Clube dos 13 e do objetivo da CBF em derrubar Fábio Koff, para que Andrés Sanches, o amigo do rei, pudesse negociar com as emissoras de televisão isoladamente, com objetivos de ganhar as gordas comissões e trazer a opositora Patrícia Amorim para o lado de Dom Teixeira.
Expliquei ao meu hóspede que aquela entrega da Taça das Bolinhas ao São Paulo FC era apenas um motivo para botar o clube paulista contra o Flamengo. Foi para provocar um rompimento entre dois fortes aliados, o que me parece ter acontecido, e criar outras ações de bastidores que levarão o poder total e irrestrito ao mandatário do nosso triste futebol.
Há alguns anos eu não tenho mais paixão clubística, gosto do Flamengo e não escondo de ninguém, nem mesmo aqui na coluna, e hoje, ao ver esta negociata envolvendo Flamengo, Corinthians, São Paulo, CBF, Globo, Clube dos 13 e mais uma dezena de interessados no filão da televisão, creio que chegou a hora de romper, definitivamente, o elo que me ligava ao time de minha infância.
Dou um basta em tudo, cancelo a assinatura do PPV do Brasileirão, e vou me dedicar tão somente a minha nova mania, ver jogos das ligas européias onde o profissionalismo impera e as maracutaias, se existem, não são jogadas como mercadoria de troca.
SELEÇÃO IDEAL: A DÚVIDA CONTINUA
Sabe aquela conversa de botequim, onde o assunto preferencial é o futebol? Pois é. Eu gosto de papear nos bares da vida e falar do esporte que adoro sempre que estou com amigos. E sempre vem aquela velha pergunta:
-Qual foi o melhor jogador que você já viu jogar, ao vivo? Sem medo de ser feliz e de desagradar ao interlocutor eu respondo que foi Pelé.
- Pelé não vale, eu não vi jogar. Mande outro.
E novamente sem medo de ser feliz eu mando: Maradona.
- Este também não vale, não é brasileiro e você viu ele jogar aonde? Não vai me dizer que foi lá na Itália?
Não. Vi Maradona jogar no Maracanã, mesmo palco que vi Garrincha, Nilton Santos, Rivelino, claro, vou citar Zico, Leandro e as feras daquele time do Flamengo do início dos anos 80, ou também não vale?
E tem aquela velha história de falar sobre a sua seleção, a seleção de todos os tempos, que sempre provoca desentendimento. Certa vez escalei o melhor time que vi jogar e esqueci de mencionar Gérson, o Canhotinha de Ouro, e o Victor, meu vizinho na época, me esperou na garagem para me dar uma tremenda e justa bronca.
Tentei fugir do assunto, mas o amigo da cadeira de frente não se cansava de perguntar sobre os craques que vi jogar. Tentei desviar o papo e pedi que perguntasse aos outros companheiros da mesa, mas o menino Cássio estava intransigente e não se dava por satisfeito.
- Talvez você queira saber se gostei de algum craque do Fluminense? Perguntei ao jovem parceiro.
- Não, eu quero mesmo saber quem foram os melhores que você viu jogar em sua carreira de repórter.
- Bem aí melhorou um pouco, nesta fase de repórter não teve Pelé, Garrincha, Rivelino, Nilson Santos, Paulo César Lima e alguns outros super craques. Vamos lá.
- Ah! E tem outra, não vale Zico e esta turma que você badala do time dos anos 80. Disparou o menino Cássio.
- Acho que vou escalar o time do Fluminense, da geração Washington/Assis, assim você fica feliz e o assunto se encerra por aqui. Tá bom assim?
Nem precisava resposta, pela cara que o rapaz fez era preciso pensar mais um pouco, respirar para ganhar tempo e pedir uma nova rodada da Boa para a mesa, que aquela altura já tinha gente puxando a cadeira para ouvir a minha seleção e os melhores jogadores que vi jogar.
Fui enrolando, falando do time do Santos, aquele com Pelé & Coutinho, do Botafogo, de Jairzinho, Roberto e Paulo César, do Fluminense 76, do Vasco, campeão de tudo com Juninho Pernambucano & Cia, mas nada disto animou a turma, sim agora era a turma que exigia que eu contasse sobre os melhores de todos os tempos.
Sabe de uma coisa! Bati na mesa gritando. Não vou contar nada, não vou dar uma opinião aqui para ser contestado depois, alguém aqui na roda já fez cara feia quando argumentei que Zidane foi o um dos melhores que vi, ao vivo, nos gramados deste planeta bola. Se Zidane foi contestado o que dirão quando eu colocar Fio Maravilha entre os craques da minha coleção?
Aí a turma se afastou, viu que eu não estava mesmo disposto a queimar fosfato com aquela perguntinha capciosa do menino Cássio (não é o meu editor) e o papo seguiu em frente até o Motta perguntar: “E qual foi o melhor samba enredo que você já ouviu?” Papo para próxima coluna? Sei lá, sabe. O que eu quero agora é cair na folia e fazer meu carnaval na garagem do meu prédio ao lado dos amigos do Armazém do Lenilson.
-Qual foi o melhor jogador que você já viu jogar, ao vivo? Sem medo de ser feliz e de desagradar ao interlocutor eu respondo que foi Pelé.
- Pelé não vale, eu não vi jogar. Mande outro.
E novamente sem medo de ser feliz eu mando: Maradona.
- Este também não vale, não é brasileiro e você viu ele jogar aonde? Não vai me dizer que foi lá na Itália?
Não. Vi Maradona jogar no Maracanã, mesmo palco que vi Garrincha, Nilton Santos, Rivelino, claro, vou citar Zico, Leandro e as feras daquele time do Flamengo do início dos anos 80, ou também não vale?
E tem aquela velha história de falar sobre a sua seleção, a seleção de todos os tempos, que sempre provoca desentendimento. Certa vez escalei o melhor time que vi jogar e esqueci de mencionar Gérson, o Canhotinha de Ouro, e o Victor, meu vizinho na época, me esperou na garagem para me dar uma tremenda e justa bronca.
Tentei fugir do assunto, mas o amigo da cadeira de frente não se cansava de perguntar sobre os craques que vi jogar. Tentei desviar o papo e pedi que perguntasse aos outros companheiros da mesa, mas o menino Cássio estava intransigente e não se dava por satisfeito.
- Talvez você queira saber se gostei de algum craque do Fluminense? Perguntei ao jovem parceiro.
- Não, eu quero mesmo saber quem foram os melhores que você viu jogar em sua carreira de repórter.
- Bem aí melhorou um pouco, nesta fase de repórter não teve Pelé, Garrincha, Rivelino, Nilson Santos, Paulo César Lima e alguns outros super craques. Vamos lá.
- Ah! E tem outra, não vale Zico e esta turma que você badala do time dos anos 80. Disparou o menino Cássio.
- Acho que vou escalar o time do Fluminense, da geração Washington/Assis, assim você fica feliz e o assunto se encerra por aqui. Tá bom assim?
Nem precisava resposta, pela cara que o rapaz fez era preciso pensar mais um pouco, respirar para ganhar tempo e pedir uma nova rodada da Boa para a mesa, que aquela altura já tinha gente puxando a cadeira para ouvir a minha seleção e os melhores jogadores que vi jogar.
Fui enrolando, falando do time do Santos, aquele com Pelé & Coutinho, do Botafogo, de Jairzinho, Roberto e Paulo César, do Fluminense 76, do Vasco, campeão de tudo com Juninho Pernambucano & Cia, mas nada disto animou a turma, sim agora era a turma que exigia que eu contasse sobre os melhores de todos os tempos.
Sabe de uma coisa! Bati na mesa gritando. Não vou contar nada, não vou dar uma opinião aqui para ser contestado depois, alguém aqui na roda já fez cara feia quando argumentei que Zidane foi o um dos melhores que vi, ao vivo, nos gramados deste planeta bola. Se Zidane foi contestado o que dirão quando eu colocar Fio Maravilha entre os craques da minha coleção?
Aí a turma se afastou, viu que eu não estava mesmo disposto a queimar fosfato com aquela perguntinha capciosa do menino Cássio (não é o meu editor) e o papo seguiu em frente até o Motta perguntar: “E qual foi o melhor samba enredo que você já ouviu?” Papo para próxima coluna? Sei lá, sabe. O que eu quero agora é cair na folia e fazer meu carnaval na garagem do meu prédio ao lado dos amigos do Armazém do Lenilson.
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